terça-feira, 10 de junho de 2014

A resposta em forma de canção


Dolores Duran


(07.06.1930  – 24.10.1959)

A resposta em forma de canção

A cantora e compositora Dolores Duran (Adileia Silva da Rocha) se apresentava na boate Vogue, no Rio de Janeiro. Em algumas noites, vinha um grã-fino, esnobe e preconceituoso, que se sentava de costas para o palco, chamava o maitre, o italiano Alberico Campana, pois não falava com qualquer um, e dizia no seu ouvido:

- Pede pra Negrinha para cantar “Por Causa de Você”.

Alberico cochichava no seu ouvido e ela cantava. Mas Dolores ficou notando que as suas atitudes não mudavam. Passava um tempo, ele retornava, chamava o italiano, falava baixinho:

- Pede pra Negrinha cantar “Castigo”.

Negrinha era forma pejorativa pela qual ele se referia à cantora. Todos sabem que Dolores era, realmente, mulata, mas a forma como ele falava demonstrava claramente um ranço racista. Ela, sabendo de quem vinha a solicitação, sempre se negava a cantar qualquer música para ele.

- Pra esse sujeito eu não canto de jeito nenhum!

Alberico argumentava:

- Por favor, Dolores, tem que atender ao pedido, ele está tomando uísque escocês, está gastando muito.

Billy Blanco (08.05.1924 – 08.07.2011), que na época namorava a compositora, assistia a tudo de longe. Notava que no fim da noite, ele fazia um pedido ao garçom: Filés da melhor qualidade, colocados cuidadosamente numa bandeja, que o garçom levava até o automóvel do milionário, pois este se negava a carregar embrulho.

Numa manhã, Billy entregou a ela uma composição sua.

- Hoje, à noite, você cantará esta música. É a resposta que vamos dar a ele por ser o que ele é.

Dolores começa a sua apresentação, espera o ricaço sentar na sua mesa de costume e pedir o seu uísque de sempre.

- Vou cantar agora uma música inédita dedicada àquelas pessoas que se julgam melhores do que as outras, esquecendo que o bom mesmo é amar.

E cantou, sempre olhando na direção do esnobe, que ouviu a música, olhando meio de lado, fingindo que não era nada com ele...

Banca do distinto

Não fala com pobre,
Não dá mão a preto,
Não carrega embrulho.
Pra que tanta pose, doutor?
Pra que esse orgulho?
A bruxa, que é cega,
Esbarra na gente
E a vida estanca.
O enfarte lhe pega, doutor,
E acaba essa banca.
A vaidade é assim,
põe o bobo no alto
E retira a escada,
Mas fica por perto
Esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde
Ele acaba no chão.
Mais alto o coqueiro,
Maior é o tombo do coco afinal.
Todo mundo é igual
Quando a vida termina
Com terra em cima e na horizontal.



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