quarta-feira, 11 de junho de 2014

Pegadinhas verbais



Por Sérgio Nogueira

Quando você quiser deixar uma boa impressão com o uso das palavras, é melhor estar prevenido. O português muitas vezes nos prega peças.

Chefe ordena à secretária: “Faça um cheque de R$ 600,00.” Ela pergunta: “Como se escreve 600?” Ele dá nova ordem: “Faça dois cheques de 300.” A secretária, preocupada, faz nova pergunta; “E 300 se escreve com “s” ou com “z”?” O chefe, nervosos, grita: “Se não sabe escrever 300, faça quatro cheques de 150.” E a secretária, sempre zelosa pelo bom português, faz uma pergunta definitiva: “Chefe, o trema já foi abolido?” Vencido, só lhe resta uma saída: “Pelo amor de Deus, mande pagar em dinheiro.”

Para não haver dúvida, é bom lembrar: seiscentos é com “sc”; trezentos se escreve com “z” e o trema foi abolido, portanto o correto é cinquenta.

Você vem dirigindo o carro. O mapa indica o caminho da esquerda, mas, na bifurcação, você entra à direita. Alguns quilômetros à frente, descobre que está perdido. Desesperado, desce do carro e começa a gritar: “Aonde estou? Aonde estou?” Além de não saber ler um mapa, também não sabe pedir socorro. Quem está, está “em” algum lugar. Portanto, se você já está em algum lugar, mesmo perdido e desesperado, grite em bom português: “Onde estou? Onde estou?”

Responda rápido: “Você assiste o jogo ou ao jogo?” Quando leio num jornal que “cem mil pessoas foram assistir o jogo”, fico imaginando que “porcaria” de jogo foi esse. Afinal, foram cem mil pessoas para prestar assistência! Pior é o médico que assiste ao doente. É por isso que o paciente morre: o médico fica só olhando! Portanto, o certo é: “Assistir ao jogo” e “Assistir o doente”.

Se quiser, você pode “sentar na mesa”, mas está errado e é falta de educação. O que você pode realmente fazer é “sentar-se à mesa”. Você pode sentar-se na cadeira, mas com certeza deve sentar-se à mesa.

Quando encontro uma plaquinha anunciando “Concertam-se sapatos”, fico logo imaginando uma “sinfonia” de sapatos. Com certeza, antes dos sapatos, o nosso amigo deveria consertar a plaquinha: “Consertam-se sapatos.” É bom lembrar que concerto é “sinfônico, musical, orquestral...” e que consertar é “corrigir, reparar, retificar...”

Com frequência podemos observar em alguns restaurantes: “Hoje, cosido à portuguesa.” Nessas horas, costumo ficar imaginando um patrício lusitano “todo costurado” em cima da mesa. Não esqueça que um bom “cozido à portuguesa” só pode ser com “z”. Estou falando do cozido porque o português e a portuguesa serão escritos sempre com “s”.

Muita gente fala em crise de desemprego. Mas o que está em crise é o emprego e não o desemprego. O mesmo acontece com o famoso correr atrás do prejuízo. Isso é loucura! Corre-se atrás do lucro. Muitos afirmam que correm risco de vida Mas correm risco de morte. Pior ainda é essa mania de tirar a pressão. Se tirar a pressão, você morre. É melhor medir a pressão.

Fato semelhante ocorreu com aquele aluno que escreveu na sua redação do concurso vestibular que adorava “surpresas inesperadas”. Ora, se não fosse inesperada, não haveria surpresa. Ele adora surpresas e ponto final. Isso me faz lembrar aquele marido “previdente” que teria escrito para a mulher antes de retornar de uma lona viagem: “Chegarei de surpresa na próxima sexta-feira, no voo da Varig das 22 horas.”

Certa vez, encontrei num jornal a seguinte manchete: “Neste fim de semana houveram vários crimes na cidade.” Pensei: O primeiro foi contra a língua portuguesa. Por mais crimes que haja na cidade, o certo é “houve vários crimes”.

No último Natal, quando visitava a cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, ouvi de uma criança: “A rua está cheia de luzezinhas.” Todos riram, e eu fiquei envergonhado... Não da criança, que na sua inocência falara da maneira correta, mas daqueles que riram. Os brasileiros costumam falar luzinhas. Esta forma é muito usada, mas desrespeita a regra. A criança estava certa.

Agora, aqui entre nós, imagine alguém, lá pelas cinco da madrugada, afirmando que naquela noite já tinha passado por três barezinhos. Vão pensar que ele está de porre! Pode até ser verdade, mas está certo. Barzinhos, que a maioria usa, sinto informar que está errado.

Para evitar “os barezinhos cheios de florezinhas com luzezinhas coloridas”, ou você fica em casa ou vá a “um único barzinho enfeitado de pequenas flores com luzes coloridas”.

*****

Dicas do professor Pasquale Cipro Neto


Ensinaram as gramáticas que o pronome “lhe” deve ser associado a verbo que pede preposição, sobretudo a preposição “a”. Veja:

“O livro pertence a você.” = O livro lhe pertence.”

“Eu proponho a você um acordo.” = “Eu lhe proponho um acordo.”

 “Já disse a você que não aceito a proposta.” = “Já lhe disse que não aceito a proposta.”

Todos esses verbos pedem a preposição “a” (algo pertence a alguém, alguém diz algo a alguém, alguém propõe algo a alguém).

As gramáticas também ensinam que, quando o verbo não pede preposição, não se deve usar “lhe”, e sim “o” ou “a”. É o caso de:

“Não conheço você.” = “Não o(a) conheço.”

“Faz tempo que não vejo você.” = “Faz tempo que não o(a) vejo.”

“Ninguém ofendeu você.” = “Ninguém o(a) ofendeu.”

Esses verbos não pedem a preposição “a” (alguém conhece alguém, alguém vê alguém, alguém ofende alguém).

E qual é a forma correta:

“Um mil reais” ou “Hum mil reais”

R$ 1.000,00

Agora, segure-se na cadeira. No fundo, estamos discutindo sobre nada. Sabe por quê? Porque o extenso de R$ 1.000,00 não e nem “um mil reais”, nem “hum mil reais”. É “mil reais”.

Cerca de 342 pessoas

Não é raro encontramos na imprensa construções como esta: “Estavam na conferência cerca de 342 pessoas”. Pura bobagem! A expressão “cerca de” indica ideia de arredondamento, portanto não combina com número tão preciso. Faz sentido dizer “Cerca de 300 (ou qualquer número redondo) pessoas estavam na conferência”. Quando se sabe o número exato, dispensa-se o “cerca de”.

“A cores”, “À cores” ou “Em cores”?

Gramáticos e dicionaristas têm dado preferência à expressão “em cores”, certamente por analogia com a expressão “em preto e branco”.

“Veredicto” ou “Veredito”?

 Cuidado com empolgação! Nada de tirar o “c”. A forma correta é “veredicto”, palavra de origem latina, que, ao pé da letra, significa “verdadeiramente dito”.

Em compensação, nada de colocar o “c” em “aficionado”. Não existe “aficcionado”, como gostam de dizer os jornalistas esportivos. Ninguém é aficcionado de nada. Diga “Os aficionados do futebol!”

Quando se diz “obrigado” e quando se diz “obrigada”?

Um homem deve dizer “obrigado”, independente do sexo da pessoa a quem estiver agradecendo. Uma mulher deve sempre dizer “obrigada”, a quem quer que seja: “Muito obrigada, eu mesmo me sirvo”.

A origem do agradecimento em português é exatamente a ideia de assumir uma obrigação com a pessoa quer prestou o favor. Quando um homem diz “obrigado”, está dizendo que se sente obrigado a retribuir o favor que recebeu. Para a mulher, vale o mesmo raciocínio, ou seja, se ela sente obrigada a retribuir o favor, obviamente deve dizer “Sinto-me obrigada” ou “Estou obrigada a retribuir o favor”.

Como escrever as horas

Existe uma convenção internacional, da qual o Brasil é signatário, que estipula o seguinte: o símbolo de horas é “h”, o de minuto é “min”. Nada de “hs”, nada de “7:00”, nada de “7,00”. Horas e minutos se juntam: “O jogo começa às 21h30min”, a reunião começou às 7h”.

O filme durou 2h30min”; “A aula durou 55min”.

“Contacto” ou “Contato”?

Você certamente já ouviu “contacto”, “contato”, “contactar”, “contatar”. Como fica isso? Nesse caso, vale tudo. É comum a existência de formas variantes, como “corrupção” e “corrução”, esta corretíssima, apesar de parecer esquisita. O problema é que muita gente se empolga e vai tirando o “p” e o “c” a torto e a direito. E aí surge o verbo “detetar”, que não existe. O certo é mesmo “detectar”.

A vírgula antes de “etc”

“Etc” é abreviatura de “et cetera”, expressão latina que significa “e demais coisas’. Exatamente porque a expressão contém o “e” alguns autores respeitáveis entendem que não se deve empregar a vírgula, como não se emprega antes de “e” nas enumerações: “Comprei alho, ovos e as demais coisas”; “comprei alho, ovos etc.”

Outros autores, porém, entendem que se deve proceder como se o “etc” fosse um elemento da enumeração: “Comprei alho, ovos, etc.”

O plural de “pôr-do-sol”

Trata-se de substantivo composto formado por três elementos, dos quais o segundo é preposição (“de”). Nesses casos, o procedimento é padrão: só varia o primeiro elemento. Veja estes exemplos: “pé-de-moleque = pés-de-moleque”, “mula-sem-cabeça = mulas-sem-cabeça”, “lua-de-mel = luas-de-mel”. Apesar da estranheza que a forma “pores” causa, o plural de “pôr-do-sol” é mesmo “pores-do-sol”. “São belos os pores-do-sol em Porto Alegre”.



Um comentário:

  1. Luzinhas e barzinhos não estão errados. Há séculos nossos melhores escritores escrevem mulherzinhas e florzinhas.

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