quarta-feira, 4 de junho de 2014

Poema sobre os boas-vidas



Sobre um playboy da época, versejou o romancista Aluísio Azevedo:

LEÃO PACHOLA

Hipérbole fatal de nossos dias,
Arremedo de um "quê", que não é nada,
Bagatela do tom, moço pomada,
Eterno prosa das confeitarias;

Ceando na Ravot comidas frias;
Vestindo ao Raunier roupa fiada;
"Pince-nez" de uma cor sempre azulada;
Entre os dentes charutos - "Regalias";

Francês notado em trato e pedantismo,
E secas em francês sempre que amola;
Não é homem, não, é galicismo.

Eis o tipo fiel d'alta bitola!
Que se sustenta co'o maior cinismo
Da rua do Ouvidor - leão pachola.


Sobre outro playboy, versejou o comediógrafo Artur Azevedo:

TERTULIANO, O PASPALHÃO

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

- Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso?

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: - Juízo!


Sobre um colega playboy na faculdade,
versejou o advogado gaúcho Joinvile Barcelos:

BENEDITO SALGADO

Vai às aulas e às feiras, lê, patina,
Namora, odeia os militares. Tersos
Os seus sonetos, nos jornais dispersos,
João dos Anzóis "pomposamente" assina.

Ama o truco, o bilhar, jogos diversos.
Ah! Viver no "xadrez" (que bela sina!),
Tendo ao lado uma cândida menina,
Bons patins, bons autores e bons versos.

Vive alheio aos jurídicos assuntos.
Provas de exame nós "colamos" juntos,
Eis por que ainda não levamos pau.

Prega aos caloiros tímidos na Escola:
"Não tenham medo, aqui tudo se 'cola',
'Cola-se' até solenemente - o grau!"


Sobre um colega de alta estatura na faculdade de direito de São Paulo,
versejou o paraense Tapajós Gomes:

AMADOR COBRA

Este "enorme colega" (assim define-o
Outro colega, espirituosamente),
Não garanto, mas deve ser parente
Dalgum poste da Light, consanguíneo.

É professor e aluno juntamente,
Tem prática, traquejo, raciocínio,
E onde quer que ele esteja tem domínio
Só pela altura... que faz medo à gente.

É muito alto, demais, o nosso Cobra
E embora assim comprido, ele não dobra
Apesar, meus leitores, dos pesares...

Isto de altura é coisa que acontece,
Mas o Cobra, palavra que parece
Um sobrado de três ou quatro andares!


Sobre um jornalista influente, versejou a poetisa carioca que se assinava Álvaro Armando:

HERBERT MOSES

Pequenino. Apelidam-no "mosquito".
Não perde coquetel ou festa de arte.
Anda aos pulinhos, como periquito,
E pula, ao mesmo tempo, em toda parte!
Não há banquete em que, com qualquer fito
Ou sem nenhum, não diga o seu aparte.
E discursos faria, ao infinito,
Se um turista chegasse, lá de Marte!

Aos jornalistas tudo acerta, ajeita.
Se da ABI na doce presidência
Hábil e sutilmente se grudou,

A própria oposição bem o respeita,
Pois tem que se curvar ante a evidência:
Até o Getúlio foi e... ele ficou.


Sobre um jornalista venal, versejou o bruxo gaúcho Múcio Teixeira:

O GIRAFA

Borrar papel, Girafa!, é teu fadário,
Contra a honra de toda a gente séria;
Oh! alma pustulenta e deletéria...
Oh! ente nauseabundo e salafrário!

Ontem... entre os rebeldes, mercenário,
Hoje... parece mesmo uma pilhéria!
Qual vende o leito crapulosa Impéria,
A pena alugas por qualquer salário.

Jornaleiro metido a jornalista,
Dos vícios teus a criminosa lista
Verás aqui... e para além te empurro!

Por andares na berra, estás na barra;
Pois hoje a Musa em teu focinho escarra,
"Doutor na asneira, na ciência burro!"


Sobre um gordo pedante, versejou o jornalista paulista Moacir Piza:

O CARTOLA (a Cardoso de Almeida)

Pança, asneira, bazófia, parolice;
Parolice, bazófia, asneira, pança:
- Eis o que revelou desde criança,
E o que há de revelar até a velhice.

É um realejo, que jamais descansa,
A remoer sempre o que Leroy já disse.
Ninguém, a um tempo, faz tanta tolice;
Ninguém tanta tolice a um tempo avança!

Pingue de enxúndias mas de miolos pecos,
Lembra, na linha, o Conselheiro Acácio,
Superando, em ideias, cem Pachecos!

Nunca um raio de luz lhe entrou na bola.
Pensa o leitor que pinto algum pascácio?
- Engana-se, leitor, pinto o Cartola.


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