terça-feira, 3 de junho de 2014

Quando o humor esgrima com o humor

O samba pode ser narrativo ou não. E o choro raramente tem letra. Mas, quando eles vão para a cama, o que resulta do nheco-nheco - o samba-choro – conta sempre uma história. Mais exatamente, uma historinha, um “conto mínimo”, em que o amor esgrima com o humor e em que o “sentimento” nunca leva vantagem sobre a mordacidade, o sarcasmo e, às vezes, o mais puro cinismo, Cada letra é um sketch, um ato cômico, tratando a infalível guerra entre os sexos - uma guerra em que, no samba-choro, nenhum dos dois, homem e mulher, é exatamente um santo. Daí a alta incidência de duetos (quase duelos) no se repertório.

Parte da introdução ao CD de “Breque Moderno” por Ruy Castro





“Tem que rebolar”, de José Batista e Magno de Oliveira, criação original de Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro, em 1966.

- Moreninha linda, moreninha boa, quer se casar comigo ser minha patroa?
- Sai fora, mulato, vê lá se me passo, me casar contigo é coisa que eu não faço.
- Eu tenho a grana e a minha cor não pega...
- Somente a sua grana pode interessar...
- Mas pra botar a mão na minha grana, você tem que rebolar, rebolar, rebolar.
- Mulato atrevido, está me maltratando, o rebolar é novo modo de gingar.
- Fique sossegada, isso não maltrato, é um ditado novo, é jeito de dançar.
- Mas se o papai souber disso, se zanga, vai lhe chamar de feio, vai lhe rebentar.
- Mas pro seu pai bater neste mulato, também tem que rebolar, rebolar, rebolar.


Carmen Miranda por Miécio

“Quem é?”, de Custódio Mesquita e Joracy Camargo, com Carmen Miranda e Barbosa Júnior, em 1937.

          Carmen Miranda:

          Quem é que muda os botõezinhos da camisa?
          Quem é que diz um adeusinho no portão?
          E de manhã não faz barulho quando pisa
          E quando pedes qualquer coisa não diz não?

          Quem é que sempre dá o laço na gravata?
          Quem é que arruma teus papéis na escrivaninha?
          Quem é que faz o teu bifinho com batatas
          E estraga tanto as lindas mãos lá na cozinha?

          E no entretanto é só você que não me liga
          E ainda descobre sempre em mim cada defeito,
          Pois é talvez porque eu sou muito sua amiga
          E nunca estás por isso mesmo satisfeito.

          Quem é que reza por você lá no oratório?
          Quem é que espera por você sempre chorando?
          Quem é que sabe que não paras no escritório
          E acredita que estiveste trabalhando?

          Quem é que trata dos botões da tua roupa?
          Quem é que mais economiza luz e gás?
          Quem é que sopra no jantar a tua sopa?
          Quem é que diz no telefone que não estás?

          E no entretanto você pensa em me deixar,
          Anda dizendo que eu sou qual não sei o quê.
          E no entretanto você vai me abandonar,
          Mas é porque eu sou louquinha por você.

          Barbosa Júnior:

          - Espera lá!
          Quem é que paga a costureira o ano inteiro?
          Quem é aluga um automóvel todo mês?
          Quem é que paga o seu chatô, sua empregada?
          Quem é que gasta os cobres todos de uma vez?

          Quem é que vive esbodegado, amofinado
          E que trabalha noite e dia sem parar?
          Quem é que só para o seu luxo extravagante
          Fica sem ter um niquelzinho pra gastar?

          E no entretanto é só você que não me liga,
          Todas as outras estão querendo o meu amor,
          Se eu fosse um pouco mais pão-duro e menos trouxa,
          Você me dava, com certeza, mais valor.

          Quem é que finge que não vê o seu namoro?
          Quem é que dorme se você quer passear?
          Quem é que espera por você sempre sorrindo
          E cochilando fica, às vezes, sem jantar?

          Quem é que traz os embrulhinhos todo dia?
          Quem é que compra tanta coisa na cidade?
          Quem é que não me liga nem um bocadinho?
          Quem é que faz comigo assim tanta maldade?

          E no entretanto aturo tudo tão quietinho,
          Fico calado sem dizer nada a ninguém.
          Você precisa dar valor ao meu carinho,
          Precisa ver que, finalmente, eu sou alguém.

          Carmen Miranda:

          E no entretanto você pensa em me deixar
          Anda dizendo que eu sou qual, não sei o quê.
          E no entretanto você vai me abandonar
          Mas é porque... eu sou louquinha por você...


Carmen Miranda por Baptistão

“Boneca de piche”, de Ary Barroso e Luiz Iglesias, com Carmen Miranda e Almirante, em 1938.

          Almirante:

          Venho danado com meus calo quente,
          Quase enforcado no meu colarinho,
          Venho empurrando quase toda a gente,
          Eh! Eh!
          Pra ver meu benzinho.
          Eh! Eh!
          Pra ver meu benzinho.

          Carmen:

          Nego tu veio quase num arranco,
          Cheio de dedo dentro dessas luva,
          Tem um ditado que diz:
          Nego de branco,
          Eh! Eh!
          É sinar de chuva.
          Eh! Eh!
          É sinar de chuva.

          Almirante:

          Da cor do azeviche, da jabuticaba
          Boneca de piche, é tu que me acaba.
          Sou preto e meu gosto, ninguém me contesta,
          Mas há muito branco com pinta na testa.

          Carmen:

          Tem português assim nas minhas água,
          Que culpa eu tenho de ser boa mulata.
          Nego, se tu borrece minhas mágoa,
          Eh! Eh!
          Eu te dou a lata.
          Eh! Eh!
          Eu te dou lata.

          Almirante:

          Não me farseia, ó muié canalha,
          Se tu me engana vai haver banzé
          Eu te sapeco dois rabo-de-arraia,
          Eh!, Eh!
          E te piso o pé.
          Eh! Eh!
          E te piso o pé.

          Carmen:

          Da cor do azeviche, da jabuticaba,
          Boneca de piche, sou eu quem te acaba.
          Tu é preto e tem gosto, ninguém te contesta,
          Mas há muito branco com pinta na testa.
          Almirante:
          Sou preto e meu gosto ninguém me contesta,
          Mas há muito branco com pinta na testa.


          “Joujoux e Balangandãs”, de Lamartine Babo, c
om Mário Reis e Mariah, de 1939.

          - Joujoux! Joujoux!
          - Que é, meu Balangandã?
          - Aqui estou eu.
          - Aí estás tu.
          - Minha Joujoux!
          - Meu Balangandã!
          - Nós dois, depois, o sol do amor que manhãs!
          - De braços dados, dois namorados.
          - Já sei, Joujoux.
          - Balagandã.
          - Seja em Paris
          - Ou nos Brasis,
          - Mesmo distantes,
          - Somos constantes.
          - Tudo nos une, que coisa rara,
          - No amor, nada nos separa.


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