domingo, 6 de julho de 2014

Histórias de Paraquedistas II


A bravura de um Mestre de Salto

Do livro:
 “Ser Pára-quedista 50 anos de Pára-quedismo Militar no Brasil”,
de Ly Adorno, Pqdt 503


O autor:


Ly Adorno equipado para o salto descrito abaixo:

(Foto colorizada pelo Pqdt Stron)

Ly Adorno de Carvalho (07.08.1928 - 20.02.2015), pqdt nº 503. Mestre de Salto nº 197, em 12/03/1953 brevetado em 04/06/1951. Precursor nº 16, em 10/12/1953. FE nº 15 (pioneiro) e Comando nº 14, em 04/07/1958. Primeiro militar na América do Sul a realizar um salto livre operacional, equipado para o combate, em 27/02/1962. Pioneiro salto livre militar, em 02/10/1961.


Ly Adorno no primeiro salto livre operacional da América do Sul*

ZL do Campo dos Afonsos - Rio de Janeiro

(Foto Serviço Cinefotográfico do Ministério da Guerra)

Depoimento de Ly Adorno

*A história desse salto foi para provar a uma equipe campeão mundial do Exército dos USA, em visita ao Núcleo da Divisão Aeroterrestre, que falou ao Cap FE, Saraiva que sair assim era preciso muito treinamento.

O Cap traduziu para nós eu lhe disse: Capitão, diga ao companheiro americano que eu sou capaz de realizar o salto sem qualquer treinamento... Aí, o Cap Saraiva traduziu ao gringo que ficou admirado. Saraiva convocou o fotografo do MG e deu nisso.

A história:


O Mestre de Salto é o militar que leva o combatente paraquedista até as proximidades do combate e, na maioria das vezes, comanda o salto, sem vacilar, no próprio campo de batalha sob intenso fogo do inimigo.

A responsabilidade do Mestre de Salto é tão grande que se, por acidente, um paraquedista ficar preso do lado de fora da aeronave, cabe a ele instruir o piloto de como proceder durante o salvamento aéreo, desde que o avião não corra perigo iminente.

No dia 15 de outubro de 1964, o Cabo Expedito Custódio de Aguiar ficou dependurado pelo lado de fora do avião e foi salvo graças à perícia do Mestre de Salto, o primeiro Sargento Aloysio Geraldo Tavares da Silva e do Auxiliar de Mestre de Salto, Sargento Emilson Pessanha Camarinha, este de saudosas lembranças. Tudo passou da seguinte maneira:

A Brigada de Paraquedistas havia montado uma operação tática de treinamento, que consistia da tomada do aeroporto de Campos dos Goitacazes, RJ, onde seriam empregados 1200 paraquedistas em 30 aviões C-82 e C-119. A missão foi precedida de uma equipe de precursores que se lançou à 00h30min do dia do exercício, para balizar o local de aterragem e orientar a reorganização da tropa que seria lançada no mesmo dia. Tudo corria normalmente, quando o C-119, n° 2311, da Força Aérea Brasileira entra na reta de lançamento, na segunda sortida, para a saída dos paraquedistas. O Sargento Geraldo, Mestre de Salto do avião, lança a segunda equipe. E como é dever do Mestre de Salto verificar a realização do lançamento, olha e depara-se com um paraquedista preso ao lado de fora do avião, oscilando violentamente. Tal fato colocava em risco a própria aeronave – a quase 440 km/h – e todos os seus ocupantes.

Incontinenti, o M.S. Sargento Geraldo entra em contato com o piloto, informando-o da ocorrência. O piloto, Capitão Celestino, ciente da gravidade que o fato representava para a segurança de sua aeronave, diz ao Mestre de Salto:

- Sargento, veja lá o que é que você vai fazer; hoje é o aniversário da minha filha e eu quero estar presente.

- Comandante, não se preocupe e, por favor, reduza o motor da direita e aumente a altura de voo; assim evitaremos que o paraquedista venha atingir a aeronave e aumentaremos a segurança para efetuarmos o lançamento do pára-quedista acidentado na hora apropriada.

Preocupado em verificar o estado de consciência do paraquedista preso ao avião... eis que surge novo imprevisto e agora dentro do avião.

Um soldado entra em pânico, se desequipa e é acometido de forte crise. O M.S. Geraldo, mantendo o equilíbrio que a função exige e para qual ele fora treinado convoca o seu auxiliar de M.S. (este é também possuidor do curso de M.S.) o Sargento Camarinha, para que verifique o estado de lucidez do paraquedista que, preso à fuselagem do vagão voador C-19, estava a balançar no espaço como um pêndulo, pondo em perigo a vida de todos e a sua própria vida.

O sargento Geraldo fez com que o Soldado em pânico deitasse no banco do avião, prendendo-o com cintos de segurança. O Sargento Camarinha, na porta do avião, grita para o Cabo dependurado de fora:

- Você está me ouvindo?

Com um aceno de cabeça e com o polegar da mão esquerda para cima, ele confirma que sim.

- Está lúcido, diz o Auxiliar de M.S. para o M.S. Geraldo.

- Mande que ele ponha a mão sobre a cabeça, diz Geraldo para Camarinha.

Ordem retransmitida e executada pelo paraquedista em perigo.

- Mão direita no punho do paraquedas reserva! – diz Geraldo ao seu Auxiliar. Ordem repetida e executada pelo militar acidentado.

- Diga-lhe que vamos cortar a fita de abertura do seu paraquedas e que ele, após isso, conte um mil... dois mil... e, nos três mil, acione o paraquedas de reserva.

- Peça confirmação!

Ordens retransmitidas. Respostas confirmadas.

O avião retorna para a zona de lançamento e acende a luz vermelha. O Mestre de Salto, ao receber a luz verde, na vertical a ponto de lançamento, corta com a sua faca a fita de abertura do paraquedista preso no avião e dá o JÁ... retransmitido pelo seu Auxiliar de M.S. para o Cabo Aguiar. Agora, livre no espaço, graças aos seus reflexos, a sua coragem e aos ensinamentos recebidos na Área de Estágios de Paraquedistas, Aguiar fez exatamente o que lhe foi transmitido: aciona o punho do paraquedas reserva e este, como uma flor branca, desabrocha exuberante, pousando suavemente.

Cabo Expedito Custódio de Aguiar, você, paraquedista testado na dura realidade, fora o primeiro paraquedista no mundo a ser salvo neste tipo de acidente. Todos os demais casos foram fatais.


Cabo Aguiar, no solo, após o acidente

Sargento Aloysio Geraldo Tavares da Silva, comandante que soube comandar! Orgulho para todos nós Mestres de Salto da Brigada de Infantaria Paraquedista.


Aloysio Geraldo no desfile de 7 de setembro de 2012, em Porto Alegre

Do livro:
 “Ser Pára-quedista 
50 anos de Pára-quedismo Militar no Brasil”,
de Ly Adorno de Carvalho, Pqdt 503

Observações:

01.  Eu, Nilo da Silva Moraes, pqdt n° 11.779, estava nessa manobra que foi realizada em Campos, Estado do Rio de Janeiro, em 15.10.1964.

02. Soares, um fotógrafo gaúcho que tinha um estúdio no, na época, Regimento Santos Dumont, estava no avião que voava ao lado da aeronave onde ocorreu o acidente. Ele tirou a foto abaixo e até a vendeu para a Revista  Fatos & Fotos. Eu fiquei com uma foto (veja a foto abaixo no momento em que é cortada a fita que prendia o cabo Aguiar).

03.  O pouso do hoje Sargento Aguiar, já falecido, não foi nada suave. O paraquedas reserva, por ser menor, faz com que o pouso seja mais violento na aterragem. Aguiar, inclusive, teria se machucado, sem gravidade, ao chegar ao solo.

04.   O Sargento Aguiar, após esse acidente, ficou irreversivelmente gago.

05.   Houve outros acidentes nessa manobra. Um T-6, que fazia voos rasantes sobre a tropa, simulando bombardeios, ao dar uma rasante, bateu com a asa num barranco, caiu, ferindo, sem gravidade, os seus dois ocupantes.



Foto do acidente com o Cabo Aguiar preso à aeronave*

Foto de Antônio Soares, pqdt 5500 do 1959/3,
que, nos anos 60, tornou-se fotógrafo do RSD.

*Na capa do livro está a grafia antiga da palavra "paraquedista", ainda com hífen.


In memorian do Cap Ly Adorno de Carvalho que faleceu em 20 de fevereiro de 2015, aos 87 anos. 


Mas o mesmo acidente volta a acontecer...

Militar do 25º BI Pqdt resgata paraquedista preso à aeronave

Em 20 de maio de 2002, o Batalhão participava de um exercício aplicado pelo Centro de Adestramento e Avaliação do Exército, CAADEx, no qual haveria uma infiltração por meio de salto de paraquedas.

O embarque dos saltadores foi na Base Aérea dos Afonsos-RJ. O salto era na ZL de Gericinó-RJ, com uma aeronave C-95 Bandeirante, que faria várias passagens.

Já com os militares na Rodoviária dos Afonsos, os Mestres de Salto iniciam os procedimentos normais de saltos. O então 1º Ten Elmir Leandro Moreira Xavier, pqdt 65899, MS 4616 e ETA 3268, faria o seu primeiro lançamento na tropa depois do curso de Mestre de Salto e teria como o seu Operador de Interfone (Inter) o então 2º Sgt Célio de Oliveira de Castro, pqdt 52272, MS 3916, militar experiente já com seis anos de Mestre de Salto.

Dez saltadores embarcaram armados e equipados e com pacotes na pequena aeronave que taxia e toma voo para executar o lançamento na luz verde fazendo entrada na cabeceira zero oitenta da ZL de Gericinó. O MS inicia o seu trabalho, os comandos são emitidos, e, após isso, inicia a corrida para a ZL, situa-se no terreno e acusa para o Inter: “Na final para o lançamento!” Logo em seguida recebe o “Na rota!” e comanda: “À porta!” A luz verde se acende e escuta-se o enérgico “Já!”.

Sai o primeiro homem com o pacote P2B; o segundo com o P2RM; o terceiro homem, acidentalmente, escorrega e cai na porta abraçando as fitas dos saltadores anteriores, vindo a sofrer secção do bíceps, sendo ajudado pelo Sgt Castro a abandonar o avião. O quarto homem comete exatamente o mesmo erro, vindo também a abraçar as três fitas que pendiam na porta do C-95, porém, agora, o Sgt impede sua saída, livra o seu braço das fitas e o lança no espaço, sendo sucedido pelo quinto homem que, aparentemente, não apresentou problemas no lançamento.

Ao sair o último homem, o Sgt Castro percebe que algo não foi bem, pois uma fita estava muito abaixo das outras que pairavam no batente da porta, e o avião aumentou a sua aceleração, Já prevendo o que havia acontecido, informa ao Tenente que havia um saltador preso à aeronave, O Tenente, ao fazer o procedimento padrão do MS, de checar se todos os saltadores haviam realmente abandonado o avião, observa que o Sd Fabrício está preso ao avião, postando a mão esquerda sobre a cabeça e a direita sobre o punho de comando do paraquedas reserva, procedimento realizado pelo saltador para informar que este se encontra consciente no caso de incidente do tipo homem preso à aeronave.

O velame havia sido extraído da bolsa, porém em forma de charuto, e ficando preso no seu ápice pela fita.

Começa, então, um grande agito no avião. O piloto chama o Inter, pelo interfone e procura saber o que estava se passando, este pede para que ele aguarde. Vendo a situação ficar tensa, com a segunda equipe ainda a bordo, o Sgt Castro pede calma a todo avião e começa a realizar o procedimento de salvamento, entregando a faca de salvamento ao Tenente e pede para que ele passe a prestar assistência ao saltador, e informa ao piloto: “Inter ao piloto: Homem preso à aeronave. saltador consciente. Tome medidas preliminares!”

Enquanto continuava a realizar o procedimento, o piloto, nervoso com a situação, a todo o momento solicitava esclarecimento pelo interfone. Uma vez terminado o procedimento de salvamento, o Inter informou ao piloto: “Pronto para o salvamento!”

Seguem-se os procedimentos de bordo: “Atenção para o lançamento”; “Já!”. O Sgt Castro gritou: “Corta!” O Ten Xavier fez a ruptura da fita.

O MS verificou que a pane do paraquedas principal havia sido desfeita e que o paraquedista seguia normalmente com o seu velame, enquanto que o paraquedas de salvamento seguia para o outro lado carregando consigo as outras fitas.

O Sd Fabrício da Silva Moreira, paraquedista de número 66480, não sofreu nenhuma lesão e prosseguiu normalmente na missão, honrando as tradições paraquedistas. A segunda equipe que permanecia no avião foi lançada normalmente.

O 1º Ten Xavier e o seu Operador de Interfone, o então 2º Sgt Castro, receberam referências elogiosas pelo feito.

Você pode ficar apenas um ano dentro da
Brigada de Infantaria Paraquedista,
mas a Brigada ficará por toda a vida dentro de você.”



5 comentários:

  1. Mestre Nilo meu irmão paraquedista da velha Brigada de Infantaria Paraquedista, fomos todos nós caldeados paraquedistas no fogo ardente da Área de Estágio onde são formados os guerreiros alados das Forças Armadas do Brasil do General ao mais recruta do Soldado combatente aeroterrestre que carrega pela vida afora a chama ardente de paraquedista, a lealdade, a fé, amor ao paraquedismo, dedicação ao Exército e veneração à Pátria.
    Nilo meu amigo este seu gesto guardado a meio século que passou por este seu veterano amigo Pqdt no ocaso de minha vida me faz pensar: Fiz mais que Soldado \paraquedista; fiz amigo. Muito obrigado. Capitão R/1 Paraquedista n. 503/1951 Ly Adorno.

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  2. São histórias como essa e personagens como os citados acima, que engrandecem a mística paraquedistas brasileira.
    Obrigado Pqdt 503, Ly Adorno de Carvalho, você foi responsável pela edição do primeiro livro a contar fatos históricos da Brigada de Infantaria Paraquedista.

    Nilo d Silva Moraes, Pqdt 11.779

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  3. Eu Adonias Vieira dos Santos,Soldado 1111, completei o Curso de Instrução Básica Aeroterrestre em 14/maio/65,
    e com muita saudades leio e releio as histórias desses
    nossos heróis combatentes!

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    1. Amigo Adonias Vieira dos Santos, Pqdt 12668, do Turno 1965/2, obrigado pelo comentário.

      Nilo da Silva Moraes, Pqdt 11779 - 1964/4

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  4. Tive a HONRA de servir a brigada de infantaria pára-quedista ao lado do então, 1º sargento Aguiar no 1º Batalhão de Forças Especiais, militar exemplar, que ele possa descansar seu bom combate em paz.

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