sexta-feira, 11 de julho de 2014

A história de uma canção



Um dos patrocinadores do programa do Chacrinha (à época, ainda no rádio) era uma tradicional indústria carioca, a U.F.E., fabricante do Sabão Português. Entusiasmado com algumas composições que lhe mostrara o dono da fábrica, o lusitano Fernando César (Fernando César Pereira), Chacrinha insistia junto à amiga Dóris Monteiro para que ela o conhecesse. A cantora, porém, resistia, duvidando que um fabricante de sabão fosse capaz de fazer música.

Até que um dia, atendendo ao pedido do radialista, conheceu Fernando César e adorou suas composições. Tanto assim, que logo escolheu o samba-canção “Dó-Ré-Mi” (que tinha Arlete, mulher do autor, como musa) para gravar: “Você é corpo e alma / em forma de canção / você é muito mais do que / em sonho eu já vi / você é dó, é ré-mi-fá / é sol-lá-si.”

No filme “Canções” de Eduardo Coutinho, 18 pessoas anônimas relembram as canções de suas  vidas. A viúva de Fernando César conta como conheceu o seu marido. Ela teve pólio na infância e fazia fisioterapia num hospital público do Rio de Janeiro, onde conheceu um rapaz que também tinha o mesmo problema. Mais tarde eles se reencontram e começam um relacionamento. No Dia dos Namorados, ele, que tocava violão, disse à moça que não tinha dinheiro para comprar um presente para ela. Falou-lhe que só tinha as sete notas musicais e com isso, ele lhe presenteou com a canção Dó-Ré-Mi. Todos os dias, ao deitar, um cantava para o outro um trecho da canção. No filme, a senhora cadeirante e já viúva, canta para as câmeras a música que já foi gravada por Dóris Monteiro, aparecendo até num filme da Atlântida.


Dó Ré Mi

Fernando César

Eu sou feliz, tendo você sempre a meu lado
E sonho sempre com você mesmo acordado.
Saiba, também, que só você mora em meu coração
E é de você, é pra você esta canção.

É de você que vem a minha inspiração,
Você é corpo e alma em forma de canção.
Você é muito mais do que, em sonhos, eu já vi.
Você é dó, é ré mi fá, é sol lá si.


Um palco, uma cadeira, um personagem

As Canções são mais uma prova desta estratégia. Desta vez, 18 personagens anônimos cantam músicas que marcaram suas vidas e explicam a relação delas com suas trajetórias. Na maioria das vezes, as canções evocam momentos trágicos. Um rapaz revela uma música que compôs em pedido de desculpas ao pai, morto em acidente. Uma mulher viúva relembra a música criada pelo marido. Outra recorda que “Retrato em Branco e Preto”, de Tom Jobim e Chico Buarque, definiu a relação conturbada.

Sem acompanhamento musical, cada personagem expõe momentos delicados de sua vida – geralmente acontecimentos que remetem a decepções amorosas. Em alguns casos, o choro é fácil. Em outros, o riso esconde um pouco de melancolia. De um jeito ou outro, todos tem algo em comum: a fala é sempre eloquente, com força dramática e não importa se o que contam é mentira ou verdade. O que interessa é a autorrepresentação bem sucedida de cada depoente. Essa busca no cinema de Coutinho é tão forte que não há nada no filme além dos depoimentos.


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