quarta-feira, 23 de julho de 2014

A política que mata



Francisco Reverbel de Araujo Góes, conhecido como Pancho Góes, transmitiu formalmente o cargo de prefeito de Santana do Livramento a Camilo Alves Gisler, o Camilinho, no dia 1° de janeiro de 1960.

Eles haviam ajudado um a eleger o outro, pertenciam ao PTB de então, liderado por João Goulart. Mas surgiram divergências políticas sérias, e a bancada na Câmara Municipal também ficou dividida. Quatro vereadores apoiavam o ex-prefeito, três estavam com o atual.

Na noite de 18 de agosto de 1961, o prefeito viria a Porto Alegre pedir a intervenção do comando regional. No final da tarde, no entanto, depois de fazer um lanche na Confeitaria City, em Rivera, Camilinho voltava para Livramento, e Pancho Góes o viu quando o jipe da prefeitura cruzou a linha da fronteira, no então Largo do Internacional.

Os dois estavam armados.

Pancho Góes acelerou sua caminhonete e, quando a alinhou com o jipe, fez três disparos, de dentro do carro, segurando a direção com a mão esquerda. Uma cena de cinema. Dois tiros furaram o toldo do jipe, mas o terceiro foi fatal, conforme o registro dos jornais da época.

O advogado Fernando Góes, hoje com 71 anos, discorda: houve um encontro entre os dois políticos, e seu pai, provocado, defendeu-se. E foi um tiro só.

O motorista da prefeitura, David Torres, olhou para o lado, viu o prefeito com um revólver na mão e só teve tempo de perguntar a Camilinho se ele estava ferido. Correu para o posto do Samdu, a poucas quadras dali, mas era tarde, o prefeito morreu a caminho.

Pancho Góes acelerou ainda mais a Chevrolet e seguiu sem rumo pela linha divisória, até faltar combustível. Estava a 50 quilômetros da fronteira, nas terras de seu amigo Ceci Ribeiro, e entrou mato adentro.

Homens da Brigada Militar e Polícia Civil cercaram a fazenda e utilizaram um enorme aparato, incluindo cães farejadores e aviões agrícolas, para a prisão de Pancho Góes. Autoridades uruguaias ajudaram no cerco, depois de providenciar reforço da segurança na linha da fronteira.

O dia seguinte, um sábado, foi cinzento, com frio, chuva e uma enorme tensão na cidade.

Enquanto o velório de Camilinho era realizado no Salão Nobre da prefeitura, uma sessão extraordinária da Câmara de Vereadores acontecia no mesmo prédio. Foi demais para a viúva, Jacira Fraga Gisler, e ela interrompeu a sessão com gritos de protesto.

Só com muito esforço a polícia e a Brigada Militar evitaram nova tragédia. Uma multidão de apoiadores de Camilinho ameaçava linchar os vereadores da facção de Pancho Góes, que deixaram o prédio pelos fundos, com proteção de uma enorme escolta.

A mesma multidão fez a pé o trajeto da prefeitura ao cemitério, no fim da tarde, levando o corpo do prefeito e ex-deputado estadual, então com 42 anos. Ele também se dedicava à pecuária e a uma empresa da família, a Casa Castro, armarinho tradicional à época em Livramento.

Estava no auge da carreira lembra Lídia Selau, a filha mais moça, hoje com 51 anos. Foi um choque na família e na cidade. Eram duas famílias tradicionais, ligadas pela mesma tragédia.

Dois gigantes da advocacia criminal gaúcha atuaram no processo de Pancho Góes. Como assistente de acusação, Osvaldo Lia Pires e, na defesa do acusado, os irmãos Angelito e Jamil Aiquel.

Em 17 de outubro, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado, atendeu pedido da defesa: tendo o crime ocorrido na fronteira entre dois países, a Vara do Júri de Porto Alegre era o foro competente para o julgamento. Mas ele não chegou a acontecer.

Graças a um habeas corpus, Pancho Góes obteve liberdade provisória e, quando essa decisão foi revogada e o delegado de polícia foi prendê-lo, um ano depois do crime, num final de tarde, encontrou-o sentado, de pijama, na varanda da casa, em Livramento. Pancho pediu tempo para trocar de roupa. Subiu ao quarto, lembrou do drama pessoal e político de seu amigo Getúlio Vargas, em 1954, e decidiu que não sofreria a humilhação da cadeia: escreveu isso no verso de um cheque, apanhou o revólver 38 que guardava como relíquia, pois lhe fora dado pelo ex-presidente, e suicidou-se.


Boletim de Ocorrência – em ZH – por Celito de Grandi


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