domingo, 6 de julho de 2014

Crônica sobre a Semana Santa

Por Machado de Assis


Machado de Assis - última foto

(A Semana - 25 de março de 1894)

(Alguns parágrafos ou parte de alguns,
por não se referirem diretamente à semana santa,
foram suprimidos para não alongar o texto.)

A semana foi santa, - mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã. Mas então, o que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López, andam muito mais depressa.

(...)

As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O domingo de Ramos valia por três. As palmas que se traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhor. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se perceberam a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem várias. Raiava, porém, a quarta-feira das trevas; era o princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, de sermões de lágrimas, até sábado de aleluia, em que a alegria reapareceria, e finalmente o domingo de Páscoa que era a chave de ouro.

(...)

Não sei se chegareis a entender o que me sucedeu agora, indo ver o ofício da Paixão em uma igreja. Outrora, quando de todo o sermão da montanha eu só conhecia o padre-nosso, a impressão que recebia era mui particular, uma mistura de fé e de curiosidade, um gosto de ver as luzes, de ouvir cantos, de mirar as alvas e as casulas, o hissope e turíbulo. Entrei na igreja. A gente não era muita; sabe-se que parte da população está fora daqui. Metade dos fiéis ali presentes eram senhoras, e senhoras de chapéu. Nunca me esquecera o escândalo produzido pelos primeiros chapéus que ousaram entrar na igreja em tais dias; escândalo sem tumulto, nada mais que murmuração. Mas o costume venceu a repugnância, e os chapéus vão à missa e ao sermão. Algumas senhoras rezavam por livros, outras desfiavam rosários, as restantes olhavam só ou rezariam mentalmente.

(...)

Soou o cantochão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração, tornando à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado nos dias em que rodeava a Galileia, e, abrindo os lábios, disse-me que a sua palavra dá solução a tudo.
- Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí  está o Eclesiastes que diz ter visto as lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava.
- Bem-aventurados os eu choram, porque eles serão consolados.
- Vede a injustiça do mundo. “Nem sempre o prêmio é dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade.”
- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.
- Mas ainda é o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais provêm os males...
- Bem-aventurados os que são perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino do céu.
E assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus com uma palavra de esperança. Mas já então não era ele que me aparecia, era eu que estava na própria Galileia, diante da montanha, ouvindo o povo. E o sermão continuava. Bem-aventurados os pobres de espírito. Bem-aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos...

*****

Sobre essa crônica, Corção diz que Machado termina o relato “com aquele seu ar de quem não sabe que está dizendo coisas enormes.” De fato, esse final é simplesmente espetacular; Machado, contrapondo-se ao pessimismo dos tempos modernos, se transporta a Galileia a ouvir, com o povo, a mensagem de esperança e redenção.



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