domingo, 6 de julho de 2014

Histórias de Paraquedistas III


O “impossível” aconteceu


Sgt Vivecanando e Sgt Veras

O fato que vamos narrar aconteceu em fevereiro de 1964, na Zona de Lançamento de Gericinó, Rio de Janeiro. Os protagonistas: 3°s sargentos José Newton Véras, Pqdt 4506, do 1958/2, MS* 1300 e Vivecanando de Araújo, Pqdt 4530, do 1958/2, MS 1226, ambos do Regimento Santos Dumont de Infantaria Paraquedista, narram, à sua maneira, como viram o desenrolar dos acontecimentos. Deixemos que eles mesmos apresentem as suas respectivas versões

Sargento Véras:

“Foi mais ou menos assim: Saí do avião C-119 pela porta da esquerda, ao mesmo tempo em que o Sargento Vivecanando saía pela porta da direita. Mal senti o choque de abertura, um paraquedista caiu sobre o meu paraquedas e resvalando nele, embarafustou-se pelas linhas de tal modo que me cobriu totalmente o rosto e a frente do corpo, com o nylon do seu paraquedas. Ele passou por mim gritando qualquer coisa que não entendi. Aquele velame todo na minha frente, me tirando a visão, cobrindo-me todo, machucando-me até, deu-me raiva e medo e tentei desvencilhar-me de qualquer maneira. Nisso senti um puxão violento e o atrito do nylon chegou a esquentar minhas mãos deixando-as em fogo.

O paraquedista gritou – segura que eu vou abrir o reserva (até aquele momento eu não sabia que era o Sargento Vivecanando, tal o amontoado de nylon e linhas na minha frente.) – segurei-o com “unhas e dentes”, apesar das dores que sentia nas mãos e agora também nas pernas – o nylon, atritando, chegava-me quase a queimar.

Nessa situação aterrei violentamente, pois não vi o solo chegar – senti fortes dores nas pernas, mas logo percebi que estava inteiro. Só então é que vi o Sargento Vivecanando.”

Sargento Vivecanando:

“Saltei e o meu paraquedas deu “charuto” (o paraquedas não abre). Acionei o punho do paraquedas reserva que não cedeu de pronto. Enquanto eu “brigava” com o punho do reserva, bati num paraquedas já aberto, resvalando nele e passando por entre suas linhas. Gritei para o paraquedista: segura! – o que realmente aconteceu. Ao sentir-me seguro, tratei de abrir o reserva. Ao mesmo tempo em que este se abriu, eu aterrava são e salvo.

Só então é que vi o Sargento Véras com quem tinha vivido, sem saber quem era, instantes mais dramáticos da minha vida!”

(Revista do Regimento Santos Dumont, de 1964)


*MS = Mestre de Salto, é o que identifica a vertical do ponto para o lançamento de paraquedistas numa Zona de Lançamento.(ZL)


(Desenho do que poderia ter acontecido...)



Charuto*


*acidente em que o paraquedas não abre.




No alto da foto, um paraquedas descendo encharutado. 

Outro trágico acidente

Em 10 de outubro de 1950, salto de demonstração em Gramacho, Rio de Janeiro, o paraquedas do sargento João Alves Diniz, pqdt 234, deu um “charuto” (não abriu), e ele caiu em cima do paraquedas do Cabo Paulo Wilhelm Neto, pqdt 302, já aberto, enrolando-se os dois no paraquedas do Cabo Paulo, morrendo ambos na queda.

Abaixo, lançamento na ZL de Gramacho


Acima, os aviões eram os antigos bimotores C-47;
ZL = Zona de Lançamento;
Gramacho = Localidade que fica na estrada que vai do Rio de Janeiro para Petrópolis.


A foto abaixo foi-me cedida pelo Cap. Pqdt Casemiro Scepaniuk,
Mestre de Salto nesse salto.

A foto do acidente:


À esquerda da foto, assinalados, o paraquedas do sargento Diniz, encharutado, caindo em cima do paraquedas do cabo Wilhelm, morrendo ambos na queda. Esse foi o primeiro acidente de paraquedistas saltando que aconteceu no Brasil;

P.S. As anotações sobre a foto foram feitas pelo Cap Casemiro Scepaniuk, pioneiro 44.


No meio desta montagem fotográfica, abaixo do escudo PQD, as fotografias dos três primeiros paraquedistas mortos em acidentes na Escola de Paraquedista do Exército, até 1950.

Os mortos da foto:

Sd Roberto Fernandes da Costa*, morto em 15 de setembro de 1950 durante a realização de voo de adaptação anterior ao primeiro salto do Curso Básico a bordo de uma aeronave C-47. (não foi brevetado)*

3°  Sgt João Alves Diniz, Pqdt 234 do 1950/3 (morto em 10 de outubro de 1950)**

Cb Paulo Wilhelm Neto,  Pqdt 302 do 1950/6 (morto em 10 de outubro de 1950)**

*A história desse acidente está contada detalhadamente no Histórias de Paraquedistas I

**Acidente durante salto de demonstração realizado na ZL de Gramacho-RJ, em formatura de aeronaves do tipo C-47.


“Você pode ficar apenas um ano dentro da
Brigada de Infantaria Paraquedista,
mas a Brigada ficará por toda a vida dentro de você.”



10 comentários:

  1. Nós temos histórias pra contar a vida inteira,é isso que nos faz diferentes,pq fazemos a história.

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  2. Como sempre um grandioso e belo trabalho meu professor . Saudoso abraço deste pqdt 40.983 de 1985 .

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  3. Grande amigo Honório, que bom saber que gostaste do nosso modesto trabalho. Que saudade da tua hospitalidade e da tua família. Um abraço fraternal deste quase velho gaudério do Sul. (Nilo Moraes)

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  4. Virei fã do blog. BRASIL ACIMA DE TUDO! Pqdt Magalhães 46.645 1988/3.

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    1. Amigo Pqdt Magalhães, obrigado pelo gentil comentário.

      Do amigo gaúcho, Nilo da Silva Moraes, Pqdt 11.779 do 1964/4.

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  5. NILSON NORONHA DA ª CIA DE FUZILEIRO DE REGIMENTO SANTOS DUMONT EM 1964 SAUDADE SAUDADES DO TEMPO

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  6. MEU EMAIL NILSONNORONHAGO@HOTMAIL.COM

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    1. Amigo Pqdt 11978 do turno do 1964/6, Noronha, nós tivemos as mesmas emoções e servimos num ano conturbado.
      Qual foi a tua unidade e a tua companhia?

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