segunda-feira, 28 de julho de 2014

Versos satíricos do Barão de Itararé



Getúlio por Fraga

Contra o Estado Novo

Passa uma moça elegante
Com sapato de pelica;
Outra passa de turbante,
Tudo passa... e o Vargas fica.

Passa o poeta apressado,
Procura rimas para “ica”
Passa toda a Academia,
Tudo passa... e o Vargas fica.

Zizinho passa a Ademir,
Passa Afonsinho a Pirica
E Jaime passa a Domingos,
Tudo passa... e o Vargas fica.


Desespero

- Minha amada -uma pérola sem jaça -
já declarou, perante o mundo inteiro,
que se casará (ai! que desgraça!)
com um homem de juízo e de dinheiro.

- O que será de mim? Por mais que faça
o fado ingrato quer me ver solteiro.
Sinto fugir-me o sonho alvissareiro
de me casar e perpetuar a raça.

- Juízo? - Bem sei não tenho, que estou louco,
pela ingrata, que me enche de feitiço,
com o estranho fulgor dos olhos místicos.

Dinheiro? - Trinta contos... É bem pouco...
Não chegam para nada... e além disso
os meus contos são contos... humorísticos...


Em O Maneco, Apporelly publicou um longo poema intitulado “Regimento feminino”, em que mobilizava para a guerra mundial um corpo militar formado exclusivamente por mulheres.

Devem formar casadas e donzelas
Ficando, apenas, poucas reservadas,
As mulheres loquazes, tagarelas,
Levarão baionetas, bem “caladas”.

As sogras formarão como “dragões”,
Mas sem nenhum direito a ter dragonas,
Devem formar ao lado dos “canhões”,
Com todas as senhoras querentonas.

Essas que brigam com o namorado
Pelo gostinho de fazer as pazes,
Essas não servem porque são capazes
De querer fazer paz em separado.



Como era esquerdista ferrenho, era constantemente perseguido pela repressão política. Acabou sendo preso inúmeras vezes. Numa dessas, o delegado então perguntou:
- Seu Aporely, o senhor sabe por que está sendo preso?
- Sei sim, por não seguir os conselhos da minha mãe.
Ante a surpresa do homem, ele continuou:
- É a que mamãe sempre me dizia para não tomar cafezinho, não era bom para a saúde, ela sempre me dizia. Razão tinha ela, veja o senhor. Era exatamente isso que eu estava fazendo quando o seu pessoal entrou no café e me prendeu.


Na escola, o professor de português, Oswaldo Vergara, pediu-lhe a conjugação de um verbo qualquer no tempo mais que perfeito. O menino Torelly levantou-se e respondeu: “O burro vergara ao peso da carga.”
Apesar da acidez da brincadeira, o mestre aprovou o aluno.

A morte do Barão

Uma chuvinha fina e intermitente caía na tarde do dia 27 de novembro de 1971, domingo, no Rio de Janeiro, quando baixava à sepultura no Cemitério São João Batista o humorista Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”, vítima de coma diabético.

A morte do fundador de “A Manha”, de 76 anos, fora descoberta pelo amigo da família José Daiuto ao visitá-lo em seu apartamento, naquela manhã.

No velório estavam apenas alguns poucos amigos jornalistas como João Mesple, Armando D’Almeida, Otávio Malta e José Daylton, além de parentes e dois de seus três filhos Arly e Ari. O terceiro, Amy, do segundo casamento, morando em Salvador, na Bahia, não conseguiu chegar a tempo para o sepultamento.

O enterro havia sido providenciado por seus amigos Gumercindo Cabral, Armando D’Almeida e Edmar Morel, através da Associação Brasileira de Imprensa, da qual o Barão de Itararé havia sido conselheiro.

Durante o velório o pequeno grupo recordou muitas das suas histórias e frases que acabariam entrando para o folclore nacional.

Quando todos os participantes da cerimônia fúnebre haviam se afastado, alguém acendeu uma vela em seu túmulo.

Identificando depois como um corretor de imóveis, disse que não chegava a conhecer pessoalmente o Barão: “Eu apenas o conhecia de longe. Mas nunca deixei de ler nada dele. Era uma dessas pessoas que tinha amigos, mesmo sem os conhecer”, explicou.

Com seu falecimento se encerrava um ciclo importante no jornalismo satírico brasileiro, ainda hoje relembrado com um sorriso pelos mais velhos e com admiração pelas novas gerações.




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