domingo, 24 de agosto de 2014

A Liga da Canela Preta

David Coimbra*


Os times do interior continuariam a ser páreo duro para os da Capital até que o Inter se apercebesse da fonte de força destas equipes: nelas, qualquer um jogava, fosse branco, preto, amarelo, pobre, rico ou remediado. O Guarani de Bagé foi o primeiro clube de futebol do Brasil a ter jogadores negros. Antes mesmo do Vasco da Gama, considerado oficialmente como o primeiro a desafiar o preconceito de cor, em 1923.

Nos times do interior atuavam jogadores de todas as raças e classes sociais. Atuavam, inclusive, jogadores do Uruguai, país com um futebol bem mais desenvolvido, que seria campeão olímpico em 1928 e o primeiro campeão mundial, em 1930. A força dos uruguaios fora sentida amargamente pelo Internacional em 1916. Julian Bertola, centromédio da seleção uruguaia, “enamorou-se” pelo Grêmio após enfrentar a equipe porto-alegrense. Mudou-se para o Rio Grande, ingressou no clube e ainda trouxe outros três craques com ele: Eduardo Behegaray, também da Seleção, Eduardo Garibotti, autor do gol do Grenal que não acabou, em 1918, e Nicanor Rodrigues. Os quatro faziam do Grêmio um time de quilate muito mais alto. O Internacional protestou contra a inclusão dos quatro na equipe do Grêmio e por isso o Tricolor rompeu com a Liga em 1917.

Pois nos times do interior atuavam muitos uruguaios, negros e pobres, enquanto que nos da capital só moços das boas famílias de Porto Alegre. Até mesmo a chegada de Lara ao Grêmio provocou certa desconfiança por ser o goleiro de origem humilde. Os negros jogavam em sua própria associação, a chamada Liga da Canela Preta.

Nos anos 1930, o Internacional passou a buscar os jogadores que se destacavam na Liga da Canela Preta e assim montou o seu supertime, o Rolo Compressor.

Em 1926, porém, o Colorado mal rompera com o preconceito. Não passava de uma equipe de branquelos enfrentando dificuldades sobre-humanas nos Grenais. Na frente, o Inter parava em Lara. Atrás, tinha que parar Luiz Carvalho. Habilidoso, veloz, artilheiro de nascença, Luiz Carvalho chutava a bola como ela viesse, quadrada ou redondinha, rasteira ou aérea. Nos Grenais o Inter designava um jogador especialmente para marcá-lo, estratégia absolutamente nova nos anos 1920.

A tática de jogo ainda era a inventada em 1880 pelo clube inglês Nottinghan Forest – dois zagueiros, três médios e cinco atacantes. Só depois de 1930 que o inglês Herbert Chapman criaria o WM, pai dos modernos esquemas de jogo. Estabelecer um sistema de marcação só para anular um jogador parecia, portanto, inconcebível.

Não para os colorados. A cada Grenal, Luiz Carvalho lembrava-lhes a humilhação que sofrera no início da carreira. O jovem Luiz fora fazer um teste na Chácara dos Eucaliptos, sede alugada pelo Internacional em 1912, e acabou reprovado.

- Vai embora que tu maltrata a bola, guri – teriam lhe dito os dirigentes do Inter.

Um gremista, no entanto, observava o treino e o enxergou com outros olhos. O centroavante Lagarto correu à Baixada e recomendou:

– Busquem o rapaz que ele é bom.

Mais do que bom, Luiz Carvalho era ótimo. A ponto de, em 1923, ganhar a posição do próprio Lagarto.

Luiz Carvalho só pendurou as chuteiras aos 35 anos de idade, em 1938, após perder um Grenal amistoso por 6 x 0, o Inter já querendo armar o Rolo Compressor.

*Jornalista da RBS e escritor.

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Futebol Gaúcho: elitismo x inclusão

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite*


 O futebol é uma das paixões do povo brasileiro: um verdadeiro caso de amor! Dentro de um estádio, os torcedores aplaudem, cantam e protestam, extravasando suas emoções. Durante uma partida, a arquibancada lotada assume a condição de um imenso divã, causando inveja ao psiquiatra mais renomado.

Hipnotizado pela pelota, a multidão espera o momento do gol. Ah! o GOL… Ele é a explosão da alma que balança a rede do coração da torcida. Nos pés de cada jogador, reside a esperança de mais uma vitória do time do coração. Neste momento mágico, os problemas do cotidiano se esvaziam, sendo substituídos pela mais pura e genuína alegria. Um gol “contra” é considerado um suicídio, uma verdadeira traição, constituindo-se em crime inafiançável.

Um verdadeiro Armagedom está presente numa prorrogação que resulte numa disputa por meio de pênaltis. Quando isto ocorre, os corações aceleram e uma adrenalina toma conta dos torcedores no estádio. Todos os santos católicos e orixás, com a permissão de Deus, são convocados a dar uma “mãozinha”. Neste derradeiro momento do jogo, um complexo arsenal, composto de simpatias, amuletos e patuás são válido para que o adversário cometa o erro fatal. A fé é um ingrediente que está presente dentro e fora do campo. Nessas ocasiões, até os que se dizem ateus se rendem… A decisão nos pênaltis provoca uma sensação de que todo o estádio transformou-se numa UTI, onde sobreviver é questão de segundos… Um erro, apenas um, determina a vitória do oponente.

No Rio Grande do Sul, assistir a um GRE-NAL é viver uma emoção intensa que quase toca o sagrado, pois ser azul ou vermelho é um mistério da alma, sendo o amor pelo seu time um verdadeiro casamento, no qual a palavra divórcio foi banida do dicionário do torcedor. Um domingo de Gre-nal é especial. O gaúcho acorda como se fosse um vulcão de sentimentos e expectativas, esperando o momento de entrar em erupção ao ver seu time adentrar em campo.

O calendário de 1909 registrava a data de 18 de julho , quando, no Campo da Baixada, ocorreu o primeiro Gre-nal da história. A partir daquele dia, deu-se inicio a um dos espetáculos mais prestigiados, pelos amantes do futebol, em nosso estado. O resultado, desse primeiro encontro, foi a vitória do Grêmio com o placar de 10 x 0. Às vezes, penso que pode ser o DNA da genética o fator determinante de toda esta paixão. Sou ciente de que não existe comprovação científica; porém ninguém de sã consciência ousa seduzir um gremista ou colorado a mudar de lado. O amor pelo seu time está arraigado na personalidade e, caso algum vivente corajoso tente essa façanha, é peleia na certa!

Toda esta paixão, nutrida pelas torcidas, tem raízes profundas numa luta contra a desigualdade e pela inclusão. Em seus primórdios, o futebol brasileiro tinha um caráter elitista, alijando de sua prática os segmentos mais pobres da população, especialmente os afrodescendentes. No Brasil, o primeiro negro a integrar-se num time de futebol foi Francisco Carregal, em 1905, no clube carioca Bangu. O Fluminense ficou conhecido como “pó de arroz”, devido ao jogador Carlos Alberto se utilizar de maquilagem para “embranquecer”, evitando, assim, chocar a aristocracia que, no distante ano de 1914, estava presente no estádio.

No Rio Grande do Sul, na cidade portuária de Rio Grande, ao adentrar o século 20, em 19 de julho de 1900, fundou-se o primeiro clube de futebol do estado: o Sport Clube Rio Grande, sob a liderança do alemão Johannes Christian Moritz Minnermann.  Na capital, em Porto Alegre, no período de 1903 a 1908, havia apenas dois times: o Grêmio e o Fuss Ball, ambos com a predominância de alemães e seus descendentes. No dia 04 de abril de 1909, fundou-se o Sport Club Internacional por descendentes de italianos. Todos estes em seus primórdios não aceitavam negros em seus quadros.

O Pioneirismo no RS da quebra do preconceito racial, na capital, é creditado ao Sport Club Americano, fundado em 04 de julho de 1912. Este, em 1928, sagrou-se campeão citadino e estadual, ostentando em seu quadro, de forma corajosa, dois negros: o Alegrete / goleiro e o Barulho/ meio–campista, abrindo o caminho para outros talentos que despontaram na história do nosso futebol. No ano de 1913, surgiu o Sport Club Cruzeiro, também, com características elitistas, não admitindo a presença de negros.

Dentro deste contexto de exclusão, na capital gaúcha foi criada, no fim da década de 1910, a Liga Nacional de Futebol Porto-Alegrense, popularmente denominada de “Liga da Canela Preta”. Seu surgimento possibilitou que se reunissem jogadores oriundos das camadas menos favorecidas economicamente, principalmente os de etnia negra que não eram aceitos nos clubes à época. A Liga da Canela Preta era formada por nove clubes, cuja origem se restringia a espaços ocupados pela comunidade negra, como a Cidade Baixa, a Ilhota, a Colônia Africana e o Areal da Baronesa. O quadro da Liga era composto pelos seguintes times: 8 de setembro, Rio-Grandense, Bento Gonçalves, Primavera, 15 de Novembro, União, Palmeiras, Aquidabâ e Venezianos.

 No ano de 1922, a Associação Porto–Alegrense de Desporto (APAD) deu início a um campeonato da Segunda Divisão, atraindo clubes da Liga da Canela Preta para participarem. Ainda assim a segregação continuava, pois essas equipes não ascendiam à categoria principal. Embora essa situação, durante as partidas, o desempenho destes jogadores negros começou a despertar a atenção dos adversários brancos que buscavam convencê-los a ingressarem em seus clubes.

Os jogos da Liga da Canela Preta ocorriam no antigo campo do Sport Club Internacional, localizado na Ilhota. Este local foi um dos mais importantes espaços de resistência cultural do negro, constituindo-se em berço do samba e reduto da religiosidade africana. O Projeto Renascença, formalizado na administração de Guilherme Socias Villela, nos anos 70, propunha um novo visual para a arquitetura da cidade, sem que houvesse uma preocupação com os moradores da Ilhota. Neste período, os principais jornais da capital registraram a resistência dos moradores diante da necessidade de remoção do local. A ideia de modernidade atropelou a tradição e a história ali presentes. O desfecho deste impasse foi a transferência dos moradores para o Bairro Restinga Velha, como foi confirmado pela oralidade de Walter Calixto Borel (1926 -2011). Conhecido como Mestre Borel, era neto de escravos e babalorixá (sacerdote religioso), que falava fluentemente o dialeto Iorubá.

Atualmente, nessa área, na qual se localizava a Ilhota, encontra-se a Praça Sport Club Internacional que homenageia o time colorado e sua torcida. A Ilhota foi o berço do Rei da Dor de Cotovelo, Lupicínio Rodrigues (1914-1974) ou, simplesmente, Lupi. Seu nome se imortalizou no cancioneiro brasileiro. Neste ano 2014, comemoramos o centenário de seu nascimento. Apaixonado pelo Grêmio, ele compôs, em 1953, a terceira versão do hino da nação azul.

Nos anos de 1929 e 1930, o Sport Club Internacional (1909), aos poucos, foi inserindo, em seu quadro, negros e mulatos. Graças a isso, o clube recebeu o epíteto de “Clube dos Negrinhos” ou “Clube do Povo”, sendo que esta última denominação consagrou-se através do tempo. O primeiro negro a jogar no Clube “Colorado” foi Dirceu Alves no ano de 1928. Já o seu tradicional rival, o Grêmio Foot-ball Porto alegrense (1903), aceitou, oficialmente, a participação do negro, em seu quadro, somente em 1952. Trata-se do jogador Osmar Fortes Barcellos que se eternizou como o Tesourinha. A alcunha é pelo fato de que participava no bloco carnavalesco “Os Tesouras”. Este, a exemplo dos “Prediletos”, “Embaixadores do Ritmo”, Ai vem a Marinha, entre outros, era oriundo da Colônia Africana.

Um momento contundente de racismo expresso ocorreu, no dia 16 de março de 1952, quando a torcida gremista demonstrou sua indignação, rasgando as carteiras sociais do clube e remessando-as no Campo do Juventude, em Caxias, em forma de repúdio à figura de Tesourinha. Eram tempos de muito preconceito… Infelizmente, no âmbito futebolístico, como em outros espaços da nossa sociedade, há ainda um longo caminho a ser percorrido, pois ainda ocorrem casos ostensivos de discriminação racial, com a diferença que são aplicadas penalidades jurídicas aos infratores da lei.

Embora, oficialmente, registra-se o nome de Tesourinha, como o primeiro jogador negro no quadro gremista, existem pesquisas que desmistificam esse pioneirismo. Anterior à presença de Tesourinha, jogaram em torno de duas dezenas de negros no time tricolor. Antes do primeiro negro envergar a camisa colorada, vários nomes, como os de Maldonado, Silva, Saraiva, Adão Lima e Neco já tinham suado várias camisas tricolores, conquistando muitas vitórias.

De acordo com o jornalista e pesquisador gaúcho, Jones Lopes da Silva, ainda faltam dados mais precisos acerca da Liga da Canela Preta, embora haja consenso dos historiadores de que a mesma nasceu antes de 1920, na Colônia Africana, atual Bairro Rio Branco, mantendo-se até o início do profissionalismo no futebol em 1933. A Liga realizava campeonatos paralelos ao oficial, dando uma conotação de um verdadeiro ‘apartheid’ na época. Com o tempo, clubes, como o Americano e o já citado Internacional, perceberam o talento desses jogadores e arrebanharam-nos; ainda, assim, no início eram aceitos apenas mulatos ou sararás.

Alfeu, Laerte e Jarbas são exemplos de alguns nomes que nasceram na Colônia Africana e conquistaram a fama de excelentes jogadores. Outro espaço de confraternização de quem vivia na Colônia Africana, de acordo com a matéria no jornal Zero Hora, em 25/06/1989, no Caderno D, de Paulo Ricardo Moraes, era o campo de futebol que existiu, onde atualmente se localiza o Hospital de Clínicas. Nesse campo, jogaram muitos talentos, como o Tesourinha e o Botinha.

A Copa do mundo, ocorrida no Brasil, em 2014, constituiu-se em foco de atenção dos mais diversos países. Foi um importante momento, em nosso País, no qual o futebol integrou de forma fraterna as mais diferentes culturas e tradições presentes em nossa aldeia global. Durante a Copa do Mundo, o gol se torna uma linguagem universal, aproximando os continentes numa alegria que transcende os paradigmas socioeconômicos e culturais. O Brasil foi o anfitrião desta festa. Viva a diversidade cultural!


*Coordenador e pesquisador do Setor de Imprensa do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa 

2 comentários:

  1. Fiquei contente em ver meu artigo publicado neste espaço de memória e reflexão. Parabéns pela importante iniciativa e principalmente pela proposta deste espaço de trazer a público artigos, que contemplem nossa diversidade cultural. O autor

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  2. Fico muito feliz em poder divulgar, neste meu espaço cultural, a tão boa e bem elaborada pesquisa esportiva. Obrigado, Carlos Roberto da Costa Leite.

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