domingo, 24 de agosto de 2014

Antes e agora

(Carlos Alberto Chiarelli)



Antes, ouvia com nitidez os sons repetidos da vida.
Agora, nem a campanhia estridentes do celular consegue escutar.

Antes, beijava com ardor e volúpia.
Agora, só respeitosos beijinhos na bochecha.

Antes, era tido como um bom atleta.
Agora, é driblado com facilidade pelo veloz neto de sete anos.

Antes, guiava com segurança e destreza.
Agora, é só carona.

Antes, usava óculos para barrar esteticamente o brilho do sol.
Agora, enfrenta a catarata.

Antes, reuniam-separa ouvir seus planos e propostas.
Agora, repete para poucos, as poucas histórias que sobraram na memória.

Antes, pela aparência, diziam que, no futuro, seria um viúvo.
Agora, aposta-se mais na viúva.

Antes, ia ao médico só para checapes anuais, que finalizavam com OKs quase monótonos.
Agora, é escravo dos exames laboratoriais e foge do tubo fúnebre da ressonância magnética.

Antes, o jornal era leitura obrigatória, de cabo a rabo.
Agora, dá-se por satisfeito passando os olhos, com interesse e temor, no obituário.

Antes, usava galochas.
Antes, usava galochas.

Antes, sua intimidade era respeitada.
Agora, na mão das jovens enfermeiras, de fisioterapeutas perdeu sua privacidade.

Antes, para ter privilégios dos idosos exigiam-lhe documentos comprobatórios
Agora, os “documentos” são as rugas de um trôpego.

Antes, não precisava testar sua privilegiada memória.
Agora, às vezes até esquece que o esquecimento é seu companheiro.

Antes, tivera filhos obedientes.
Agora, submete-se às imposições anárquicas dos netos.

Antes, a cerveja gelada no verão e o vinho tinto no inverno não respeitavam lei seca.
Agora, só água para tomar as coloridas pílulas para diversas doenças.

Antes, tremia quando das grandes emoções.
Agora, a culpa é do Parkinson.

Antes, o coletivo era família.
Agora, vigora o individualismo competitivo.

Antes, bonita era a alvorada.
Agora, acompanha, sentimental, ao lado da companheira amorosa, o declínio do pôr-do-sol.



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