quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Duplo Assalto



Max Nunes


Cena: uma esquina escura. Homem parado no meio da rua. Chegam dois assaltantes, vindos um de cada lado, armados e falando quase ao mesmo tempo.

Os dois (em quase uníssono): Mãos ao alto!

Homem (levantando os braços): Oh!

Assaltante 1: Um momento, colega. Eu cheguei primeiro.

Assaltante 2: O colega está equivocado. Quem chegou primeiro fui eu.

Assaltante 1: Não é verdade. Quando eu acabei de dizer “ao alto”, o senhor ainda estava em “mãos”.

Assaltante 2: Absolutamente. Eu trabalho dentro da maior ética. Jamais roubei clientes de um colega.

Assaltante 1: Eu invoco o testemunho do cliente. (Para o homem:) O senhor, que tem uma aparência de pessoa honesta. Quem lhe apontou primeiro a arma?

Homem: Os senhores me desculpem, mas eu não gosto de dar palpite no trabalho dos outros.

Assaltante 2: Colega, o cliente está sendo retido desnecessariamente.

Assaltante 1: Culpa sua. Se não fosse o colega, o cliente já teria sido atendido, despachado e já estaria a caminho de casa. (Para o homem:) Pode abaixar os braços.

Homem (abaixando os braços): Obrigado.

Assaltante 2: Então, como vamos resolver esse impasse?

Homem: Posso dar uma sugestão? Eu estou com duzentos na carteira. Cem para cada um.

Assaltante 1: Não, senhor, eu não trabalho com abatimento.

Assaltante 2: Eu também não. É tudo ou nada. Sem desconto.

Assaltante 1: Então não tem assalto.

Assaltante 2: Não tem assalto. (Para o homem:) O senhor está liberado. Boa noite.

Assaltante 1: Boa noite. (Saem cada qual para seu lado.)

Homem (aliviado): É por isso que eu digo: quanto mais ladrão, melhor.


(Max Nunes. O pescoço da girafa. São Paulo,
Companhia das Letras, 1997. p. 11-13)


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