segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Excertos literários de Monteiro Lobato

“Um país se faz com homens e livros.”




“No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com as palavras.”

Em carta a Godofredo Rangel, Areias, 6.07.1909.


“A Verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígine de tabuinha em beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé. Pobre Jeca Tatu! Como é bonito no romance e feio na realidade! Jeca Tatu é um Piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie. O fato mais importante da vida do Jeca é votar no governo. A modinha, como as demais manifestações de arte popular existente no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de ativismos estéticos, borbulha d´envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro. O caboclo é soturno. Não canta senão rezas lúgubres. Não dança senão o cateretê aladainhado. O caboclo é o sombrio Urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa joia de esforço, é que ali nada o favorecia!”


No conto “Urupês”


“Escrever para crianças é semear em terra roxa virgem - e não praguejada. Cérebro de adulto é solo já praguejado.”

Em Carta a Otaviano Alves de Lima, 13 de agosto de 1946.


Solidão mental... Sinto-a completamente aqui. O cérebro embolora. Só resta a natureza. Abre a janela. Que paisagem! Céu, serra e vale. Céu - gaze de puríssimo azul translúcido. Serra - a Mantiqueira, rude muralha de safira. Vale - o do Paraíba, tapete sem ondulações que lhe enruguem o plaino. Ao longo do vale singra uma pinta branca, vôo de giz e voo da garça em manhã assim! Neve sobre azul!... Súbito... - o bando. Vinham em bando alongado, ora a erguer-se uma, ora a baixar-se outras, estas ganhando a dianteira, aquelas atrasando-se. Passam a quilômetros da minha janela, tão nítidas que lhe percebo o aflar das asas. Mas... Outro bando! E outro, atrás! E outro bem longe!... Jamais vi tantas, e em tão formoso quadro. Subiam rio acima. Emigravam. Passavam. Passaram. E deixaram-me com a alma tonta de beleza, e a sonhar mil coisas...”

Monteiro Lobato, em seu “Diário”



Monteiro Lobato por Baptistão


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