domingo, 10 de agosto de 2014

Meu pavor a números

Barbosa Lessa*

          Contra a força do destino não adianta lutar. Digo isso porque, desde o curso primário, lá em Piratini, tive pavor a números, em Aritmética fui sempre um zero à esquerda. Depois fui estudar em Pelotas, hospedando-me na casa do tio Tércio - que tinha uma quinta nas Três-Vendas - e consegui tirar o ginásio, apesar da minha ojeriza para com o professor de Geometria, o irmão Nono, que, pra, mim era uma besta-quadrada que só faltava cair de quatro e sair pastando. Em quarenta e poucos vim estudar aqui em Porto Alegre, morando numa pensão no centro, a quatro passos da Travessa Mário Cinco-Paus, e sofrendo essa balbúrdia de mil demônios com a gente se pechando nos outros a três por dois. Também no Julinho, com uma rapaziada cheia de nove-horas, tive a impressão de estar sendo recebido com quatro pedras na mão. Um dia um grãfininho me chamou de “grosso” e eu, que nunca fui de meias palavras, sentei-lhe nas fuças os cinco mandamentos. Depois tentei imitá-los, mas, tão certo como dois e dois são quatro, convenci-me de que quem nasceu para dez réis nunca chega a ser tostão. Mandei a “finura” pra os quintos!

          Mas um dia conheci um colega chamado Paixão, homem dos sete-instrumentos, bom ginete, discursador, cantador, e que, pra declamar, era um número! O sexto-sentido me disse que íamos somar nossas forças e, de fato, em duas paletadas estava formada a parelha. (Só tive arrepios quando ele me disse que ia entrar para a Agronomia e se especializar como agrimensor, o coitado). Decidimos cultuar as tradições rurais e conclamamos a gauchada aos quatro ventos. Esperávamos contar com miles de companheiros, mas, no dia da primeira reunião, só apareceu meia-dúzia de gatos pingados. Achei que tínhamos nos metido numa camisa de onze varas, mas o Paixão gritou: “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando!” E, mesmo com um punhadinho de gente, partimos para fandangos, provas campeiras e o diabo-a-quatro. E a coisa pegou fogo, apesar da descrença de terceiros. Só o que eu jamais poderia ter imaginado foi o nome escolhido para nós:

          - CTG 35.

          Então entreguei os pontos e até fui tirar um cursinho de Matemática. Mas, da metade pra o fim, tudo deu certo, e hoje considero Porto Alegre uma cidade trilegal.




* Luiz Carlos Barbosa Lessa (Piratini, 13 de dezembro de 1929 - Camaquã, 11 de março de 2002) foi um folclorista, escritor, músico, advogado e historiador brasileiro.


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