domingo, 3 de agosto de 2014

Paródias de poemas III

Paródia

Os modernistas realizam, em todas as artes, uma aproximação crítica das obras do passado. No universo literário, a releitura de textos famosos das escolas anteriores torna-se uma forma de rejeição ou de admiração. Com freqüência, os modernos terminar por reescrever alguns dos textos consagrados sob uma perspectiva de humor: é a paródia.


Ser Mãe

Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor cantando vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormido! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!


Ser Pai

Max Nunes

Ser pai é padecer eternamente
Tendo na face um riso satisfeito.
Aparentar que a tudo tem direito
Sem ter direito a nada finalmente.

É suportar a esposa alegremente
E aos seus caprichos se mostrar sujeito.
Tratar com muita calma e com respeito
A sogra feia, chata e impertinente.

Ser pai é ter um filho já taludo
Que pede isso, aquilo e pede tudo;
Dinheiro exige aos gritos e sem sussurro.

Diz Coelho Neto, em versos bem precisos:
Ser mãe é padecer no paraíso,
Mas ser pai é sofrer pra não ser burro.

Ser Moderna

Marco Antonio F. Conde


Ser moderna é remontar fibra por fibra
o peitão! Ser moderna é não ter o receio
de ficar bonita, botando silicone no seio,
onde a natureza, recriada, balançando vibra.

Ser moderna é ter um marmanjo que se libra
sobre o busto rígido! É ser dois seios,
é não necessitar de outros meios,
é ter força, onde o vestido se equilibra!

Todo o bem que goza é bem da humanidade,
espelho onde se mira, sem culpa,
ser menina, em qualquer idade!

Ser moderna é ser siliconada!
Ser moderna é ter prótese mamária!
Ser moderna é ser um colírio pra gurizada!

No Meio do Caminho

Carlos Drummond de Andrade


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei desse acontecimento
que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha uma pedra

No Meio do Caminho

Deise Konhardt Ribeiro

No meio do caminho tinha um fusquinha
tinha um fusquinha no meio do caminho
tinha um fusquinha
no meio do caminho tinha um fusquinha.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na ida de minhas noitadas tão agitadas.
Nunca me esquecerei
que no meio do caminho
tinha um fusquinha
tinha um fusquinha no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha um fusquinha.

Primeiro Ato

Gilberto Scarton



Sem professor. Sem aula. Sem provas.
Sem notas. Sem computador. Sem dom.
Sem queda. Sem inspiração.
Sem estresse!
Só tu.
Tu e tu. Tu e o texto. Tu e a folha em branco.
Que impassível espera ser preenchida, para entretecer
contigo a teia de palavras que liga todas as dimensões de
tua existência, nesta travessia de comunicação de ti para
contigo, de ti para o outro.
Sem.
Só tu.
Com teu ritmo. Com tua pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De resgatar a memória.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando
esperanças. Denunciando injustiças. In(en)formando o
mundo com tua-vida-toda-linguagem.
Sem!
Levanta tua voz em meio às desfigurações da existência,
da sociedade, tu tens a palavra.
A tua palavra. Tua voz. E tua vez.

Primeiro Filho

Antonio Carlos Paim Terra

Sem telefone. Sem campainha. Sem cachorro.
Sem estresse. Sem vizinho. Sem tudo.
Sem nada.
Sem roupa!
Só tu.
Eu e tu. Tu e o teu corpo. Tu e o clima romântico.
Eu impassível espero por ti, para entrelaçar
contigo uma teia de carinhos que liga toda a dimensão de
nossos corpos, nesta travessia de vibrações de ti para
comigo, de mim para contigo.
Sem camisinha.
Só prazer.
Com nosso ritmo. Com minha pulsação. Com paixão.
Na aventura do cotidiano. De rasgar a tua roupa.
De fecundar o presente. De gestar o futuro. Anunciando
um bebê. Informando ao mundo
o nascimento de uma vida.
Sem preparativos!
Levemos o fato para a sociedade.
Nós temos a felicidade.
O nosso filho.
Daqui a nove meses.
Será a tua vez.

XIII

Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

XIII

Roberto Gaudio


“Ora (direis) ouvir os gatos! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-los, muita vez desperto
E abro os olhos, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
Seu ronronar em um dizer aberto
Conversa. E, ao vir do sol, eu fico em pranto
Ao
 ver como o ser humano é um deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com eles? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Meditai nesses fatos
Pois só quem pensa pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender os gatos.”

Ouvir panelas

Barão de Itararé

Ora! – direis – ouvir panelas! Certo
Ficaste louco... E eu vos direi, no entanto,
Que muitas vezes paro, boquiaberto,
Para escutá-las pálido de espanto.

Direis agora: – Meu louco amigo,
Que poderão dizer umas panelas?
O que é que dizem quando estão contigo
E que sentido têm as frases delas?

E direi mais: – Isso quanto ao sentido,
Só quem tem fome pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender panelas.

*Nesta paródia do Barão de Itararé falta o último terceto do soneto.
Soneto compõe-se de 14 versos: 2 quartetos e 2 tercetos.
Verso é cada linha do poema

Bastos Tigre*

Ora direis ouvir estrelas! Vejo
que estas beirando a maluquice extrema.
No entanto o certo é que não perco o ensejo
de ouvi-las nos programas de cinema.

Não perco fitas; e dir-vos-ei sem pejo
que mais eu gozo se escabroso é o tema.
Uma boca de estrela dando um beijo.
É, meu amigo, assunto para um poema.

Direis agora: – Mas enfim, meu caro,
as estrela que dizem? Que sentido
têm suas frases de sabor tão raro?

– Amigo, aprende inglês para entênde-las,
pois só sabendo inglês se tem ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.

*Uma paródia de Bastos Tigre ao cinema falado.

Ouvir o fone

Edson Freire

Ora (direis) ouvir o fone. Certo,
rendeste ao intento. Eu vos direi, no entanto,
que para ouvi-lo, eu nem sempre acerto
e abro a boca pelo engano e espanto.

E convenhamos, num esforço quanto
eu tenho a linha com sinal aberto,
mas ouço um disco me enchendo tanto
com aquelas frases de valor incerto.

Direis, agora – revoltado amigo
que conversas são elas, que sentido
diz o disquinho para teu castigo?

Eu vos direi: Tentai algum chamado,
pois, assim, ouvireis em cada ouvido:
este número não existe” do outro lado.



6 comentários:

  1. queria uma parodia do poema tudo, todos e todo
    obgda <3

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  2. O poema é, realmente, muito bonito, e já esta neste almanaque. Mas a paródia fica dependendo de algum poeta que queira se aventurar a fazê-la.

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  3. estudo na FEG e isso me ajudou muito pq nn tinha musica mas nesse site tem mais musicas q algum

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    1. Amigo Lucas, faça bom uso do nosso almanaque, e curta os assuntos musicais nele contido. Um abraço de Nilo da Silva Moraes.

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