sábado, 30 de agosto de 2014

Histórias de Paraquedistas V


Salto noturno


Foto de site da Brigada de Infantaria Paraquedista

Leia a narrativa do Sargento Amacyl Pereira da Cunha



Ly Adorno e Amacyl - anos 50 na Colina Longa

No dia 5 de abril de 1963, eu estava à janela do meu apartamento, em Marechal Hermes, por volta das 19 horas, quando ouvi o barulho dos motores do avião C-82 e, poucos segundos depois, avistei a aeronave que se dirigia para a ZL (Zona de Lançamentos) dos Afonsos; era mais um salto noturno.

Quanto a isso nada havia de extraordinário, porque esses saltos são comuns, pois quase que diariamente são realizados, e eu costumo a assisti-los, como disse, do meu apartamento. Acontece que nesse dia (5 de abril de 1963), havia algo diferente naquele ato, e eu sentia como que uma força estranha a chamar-me à atenção para o que se passava..., foi então que liguei os fatos; realmente, aquele salto não era de rotina, pois, algumas horas antes, o nosso saudoso companheiro Sargento Nicolau havia falecido, vítima de acidente de salto. Então eu compreendi o porquê daquele meu estado de espírito, e fui como que tomado por uma onda de emoção e dúvida. A dúvida que pairava no meu espírito naquele momento era saber por que aqueles bravos soldados do ar estariam saltando? – Seria em homenagem ao heroico Sgt. Nicolau – que morrera horas antes lutando contra as forças (invencíveis) do destino, ou seria simplesmente de protesto e desprezo à traiçoeira morte, a qual havia ceifado a vida de um de seus companheiros? Confesso que naquele momento não consegui resposta a estas perguntas, e a dúvida continuou (e ainda continua) a martelar-me o cérebro...

Por que saltariam eles? Porém de uma coisa tive absoluta certeza: naquele momento tratava-se de uma luta titânica entre os arrojados paraquedistas e a maldita morte, e esta (a morte) fora fragorosamente derrotada e, como que acovardada e trêmula, numa correria louca, fugiu para bem longe, desaparecendo na imensidão da noite.

VENCERA A MÍSTICA DOS PARAQUEDISTAS!


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Observação: Quando havia um acidente com morte de um paraquedista, no mesmo dia e a qualquer hora do dia, todos eram convocados para saltar, demonstrando, com isso, que não temiam a morte, que a morte não os venceriam. Pelos menos era assim até os anos 60...

Nilo da Silva Moraes


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