segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Um enforcamento na antiga Porto Alegre



Numa manhã de julho. Deve ser uma manhã gelada. Guardas, que fazem parte da escolta, retiram da prisão um jovem condenado à morte por parricídio* e o conduzem até a Santa Casa, no alto da colina. Os praças estão fardadas a rigor: ponche de pano azul, manta de lã. Camisa de algodão, blusa de brim, calças brancas e chapéu de barbicacho. Empunham espadas nuas, para evitar a fuga do preso. Marcham a pé, menos o comandante, que vai a cavalo, à frente.

Diante da Santa Casa, uma pequena multidão está reunida para ver o condenado. No oratório, ele é aguardado por familiares e por um padre. Pouco depois, chegam o juiz das execuções, o escrivão, o meirinho e irmãos da Santa Casa vestidos com seus balandraus (capas). Lida a sentença, o carrasco retira-lhe as algemas, manieta-lhe os braços e veste-lhe um amplo casacão de algodão branco. O comandante da tropa entra no oratório e comunica que a força está formada.

O condenado sai, no centro de um quadrado de soldados, seguido pelo sacerdote e por um irmão da Santa Casa.

O cortejo entra na capela de Nosso Senhor dos Passos, onde o condenado assiste, genuflexo**, à missa em intenção de sua alma. A seguir, inicia-se a marcha para o largo da forca, na praça da Harmonia. Determina a lei que o cortejo atravesse a cidade. Esta tem pouco mais de um quilômetro de extensão entre a Santa Casa e a praça da Harmonia; e a largura é de pouco mais de quinhentos metros, contados entre a rua da Praia e a praça da Matriz.

O cortejo desce a ladeira que liga o largo da Misericórdia*** à rua da Praia. Noutro tempo, o trecho entre o largo da Misericórdia e a rua da Ladeira, chamava-se rua da Graça. A rua da Praia, propriamente dita, começava na praça da Alfândega e ia até a rua da Passagem****. A principal artéria comercial e residencial da cidade, a rua da Praia se estende à margem do Guaíba. Predominam sobrados toscos e desgraciosos que abrigam estabelecimento comerciais no térreo e residências no segundo pavimento. O calçamento é de pedras irregulares. Diante de cada casa, há pelo menos dois frades de pedra. O escoamento pluvial se faz pelas sarjetas.

A rua está apinhada de gente nos passeios. Há espectadores à porta de todas as casas comerciais e à janela das residências. O cortejo avança devagar, horrendamente devagar, em meio a um silêncio pesado, enquanto o meirinho faz o pregão: “Vai se executar a sentença de morte natural, na forca, proferida contra o condenado.” O cortejo é seguido por cães vadios, que de resto, infestam a cidade.

Chega-se finalmente à praça da Harmonia, grande extensão às margens do rio, na ponta da península. Trata-se de área pantanosa que anos depois será aterrada. Durante a noite, limpou-se a vegetação rasteira e construiu-se o cadafalso, diante da igreja das Dores. No público presente, predominam escravos e escolares, mandados a fim de escarmentá-los com o exemplo do que acontece aos infratores dos mandamentos e das leis.

No cadafalso, o meirinho lê a sentença pela última vez e o padre reza em voz alta o “Creio em Deus”. Num gesto rápido, o carrasco coloca o laço no pescoço do condenado e retira o alçapão sob seus pés. O corpo se contorce e afinal se imobiliza.

*****

*       parricídio: o assassinato do próprio pai.
**     genuflexo: ajoelhado.
***   Praça Dom Feliciano
**** Rua General Salustiano

Texto baseado no livro “A Fundação de Porto Alegre”, 
de Augusto Porto Alegre



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