terça-feira, 30 de setembro de 2014

As notícias da morte de Noel Rosa


Noel Rosa por William


Noel Rosa foi um marco na música popular brasileira. Um dos responsáveis pelo samba moderno e por ter trazido o samba as rádios, além de aproximar o samba do morro com o asfalto. Suas letras são atuais até hoje, assim como os textos de Shakespeare, pois tratam de temas inerentes ao ser humano. Apesar disso, o cantor, compositor, bandolinista, violonista ainda é pouco conhecido pela grande maioria das pessoas. Mesmo tendo vivido apenas 26 anos, o suficiente para deixar seu nome entre os maiores do samba carioca, Noel deixou mais de 200 composições gravadas. Entre elas inúmeros clássicos indiscutíveis como "Palpite Infeliz", "Feitiço da Vila", "Conversa de Botequim", "Último Desejo", "Silêncio de um Minuto", "Pastorinhas" e "Com Que Roupa?". Em 2010, se estivesse vivo, Noel Rosa completaria 100 anos.

Noel Rosa morreu no dia 4 de maio de 1937. No dia seguinte, os jornais da época deram o devido destaque a morte do homem franzino, frágil fisicamente, mas que se tornou forte e grandioso culturalmente por sua vasta produção de belas composições.

Noel morreu com 26 anos, mas mesmo com pouco tempo de vida, através das manchetes e alguns trechos de reportagens que aqui reproduzimos, conseguimos medir a profundidade do que representava o “poeta da Vila” no contexto da época. Enquanto alguns periódicos foram sucintos nas chamadas, alguns trouxeram já pela manchete a amplitude de Noel.



Noel Rosa por Lan


Manchetes dos jornais – data: Quarta-feira, 05 de maio de 1937.


O Jornal - Faleceu O Compositor Noel Rosa - Era Autor De Numerosas Músicas Populares.

Diário de Notícias - Faleceu Noel Rosa - O Conhecido Compositor Morreu Ouvindo Cantar Uma Musica De Sua Autoria.

Diário Carioca - Noel Rosa - Faleceu Ontem O Maior Cantor Da Alma Carioca.

Correio da Manhã - A Morte Prematura De Noel Rosa - Foi, Ontem, Sepultado, O Popular Cantor Do Radio

Diário da Noite - Morreu Cantando Noel Rosa A Figura Mais Popular Dos Nossos Compositores

A Noite - Morreu Noel Rosa



Abaixo, a transcrição da matéria do jornal “A Noite”:


       Morreu Noel Rosa. A cidade chora, nesta noticia, o desaparecimento do expoente máximo do sambista carioca.

       A letra era repleta de uma filosofia humana. Sentira a necessidade de ambientar a musica que vivia nos morros ao convívio da cidade. Fez letras onde o malandro e o jogo de chapinha não entravam. Traduzia a própria vida em ritmos e melodias.

       É seu esse samba canção: “Naquele tempo em que você era pobre / Eu vivia como nobre / A gastar meu vil metal / E, por minha vontade / Você foi para a cidade / Esquecendo a solidão / E a miséria daquele barracão./ Tudo passou tão depressa, / Fiquei sem nada de meu / E esquecendo a promessa, / Você me esqueceu, / E partiu, com o primeiro que aparece / Não querendo ser pobre como eu.” Dizem que essa história foi vivida.

       O morro era para ele motivo de verdadeiras crônicas musicais. "Mangueira" é um exemplo disso.

       Seu primeiro sucesso foi "Com Que Roupa". Nesse, plenamente, quer como autor quer como violonista. Costumava, constantemente, interpretar, frente ao microfone, suas produções. É enorme a sua bagagem musical.

     Noel Rosa morreu, vitimado por um colapso cardíaco, em tempo, prosseguindo os estudos, ele ingressava na escola de Medicina. Em pouco tempo, porém, abandonava os estudos, dedicando-se, inteiramente, á arte que o empolgara. Venceu, em toda linha sua residência, á Rua Theodoro da Silva. E - suprema ironia do destino!


Aqui, como “O Jornal” deu a morte de Noel:

      À meia-noite de ontem faleceu, nesta capital, em sua residência, à Rua Theodoro da Silva, 382, o compositor de sambas e marchas, Noel Rosa.

       Era uma figura simpática das rodas radiofônicas e dos nossos musicistas mais populares.

      Muitas de suas produções como "Tarzan, O Filho do Alfaiate" e "Maria Fumaça", tiveram um êxito extraordinário. Mas o seu samba que mais agradou, foi, sem duvida, "Palpite Infeliz". De alguns anos para cá, não havia Carnaval completo sem musica de Noel Rosa.

      Encontrava-se ele enfermo há varias semanas e os que o conheciam nada auguravam de bom, dado o seu físico franzino. Entretanto, ainda recentemente, concedeu uma alegre entrevista a uma de nossas revistas de rádio, traçando então os seus planos para o futuro. Não quis o destino que se justificasse o seu otimismo.

       O enterro sai, às 16 horas, de hoje, do referido endereço, para o cemitério de S. Francisco de Assis.


Agora, como divulgou o “Diário de Notícias”:

     Noel Rosa era um de nossos mais conhecidos compositores populares. Suas músicas nunca deixavam de alcançar sucesso nas temporadas carnavalescas.

      Havia meses vinha ele sofrendo de pertinaz moléstia, que lhe tirava toda a alegria. Ontem, à noite, em frente à sua residência, à Rua Theodoro da Silva, 382, em Villa Isabel, realizava-se uma festa familiar.

        Os rapazes, que compunham a orquestra, resolveram prestar uma homenagem a Noel, cantando em voz alta, o samba-desafio, de sua autoria, intitulado “De Babado Sim...”

       O compositor popular, que regressara havia três dias, de Piray, onde fora mudar de ares, ao ouvir a música, teve um estremecimento e morreu, talvez de emoção.


         O seu enterro será realizado hoje à tarde, saindo o féretro do endereço acima.

        Um verdadeiro artista se perpetualiza através de suas obras. Noel Rosa é um exemplo de um artista que mesmo sendo efêmero, se imortalizou pela magnitude de suas composições. Noel Rosa não morreu! Ele vive em cada calçada da 28 de setembro, em cada roda de samba e em cada mente que “saboreia” as suas músicas, cantadas até hoje em verso e prosa.

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação.”

Versos da música “Último desejo” de Noel Rosa

1910 - 1937



Noel Rosa por Nássara


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