segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Comparações poéticas I



As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia

Soneto Parnasiano

As pombas lá se foram, espantadas
por um tropel de vândalos do verso;
E mesmo esse escarcéu quedou disperso
depois de tantas décadas passadas.

Parnaso pareceu conto de fadas...
O tempo, inexorável e perverso,
expôs toda a pieguice do universo
de estrelas, vias lácteas e jornadas.

Sobrou "Inania verba", um monumento
ao mourejar hercúleo do poeta.
Por tê-lo escrito, só, já me contento!

Mas não é meu. Prossigo nesta meta
de, aos poucos, completar meu próprio cento...
Versando sobre o pé, poso de esteta.

Glauco Mattoso

Os Votos

Vai-se a primeira votação passada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De votos vão-se da Assembleia, apenas
A sessão começou da bordoada!

Sopra sobre Ele a rígida nortada...
Que saudades das épocas serenas
Em que Ele e os outros, aparando as penas,
Tinham apurações de cambulhada!

O seu bom-senso todos apregoam...
Afastando-se d'Ele, os votos voam,
Como voam as pombas dos pombais...

As esperanças o seu voo soltam...
E Ele vê que aos pombais as pombas voltam,
Mas esses votos não lhe voltam mais!

Ângelo Bitu

A Revoada

O primeiro ministro lá vai indo;
Outro o segue, outro mais, enfim o bando
Inteiro solta as asas azulando,
Antes que a demissão os vá impelindo.

Também as pombas do soneto lindo,
Na rósea madrugada, vão deixando
O ninho amigo, ao qual irão voltando,
Ansiosas, quando a tarde for caindo.

Mas aqui não há pombas nem pombais:
Há ministros que partem em surdina,
Certos de não voltarem nunca mais.

Deixam o ministério sem alarde;
E o povo que lhes deve a triste sina,
Olhando o voo, suspira:- Já vão tarde!

Lisindo Coppoli







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