sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Corridas de Baratinhas em Porto Alegre


Roberto Pellin


Baratinhas da Avenida Otto Niemeyer

Cedinho o povo se deslocava para os pontos estratégicos, de onde se obtinha melhor visão, e segurança. Os morros e construções altas eram os lugares preferidos. Levavam-se merendas e bebidas, já que a pista ficava interditada.

A primeira corrida de automóvel em Porto Alegre foi realizada em 1923. Foi de apenas 1 km lançado e teve como palco uma faixinha que ligava a ponte do Gravataí ao aeroporto. Na Tristeza começou em 1924 e tinha como circuito as ruas Wenceslau Escobar, Icaraí, Dr. Campos Velho, Estrada da Cavalhada. Av. Tramandaí, Cel. Marcos e Wenceslau Escobar. A largada e a chegada eram em frente ao palanque oficial, armado na praça. Corria-se no sentido da ordem acima descrita. Após a segunda corrida, os volantes resolveram inverter o sentido, fazendo a maioria das curvas para a esquerda. Mais tarde, com a abertura da Otto Niemeyer, o circuito foi encurtado, passando-se a correr por este atalho.

As primeiras corridas foram organizadas pela Associação Rio-grandense de Estradas de Rodagem e, a partir de 1934, pelo Touring Club do Brasil.

A primeira prova, de 1924, foi ganha pelo carioca Irineu Correa. Até 1927 repetiram-se as corridas, quase que anualmente, depois houve uma parada. Somente em 1934, quando o Touring Club organizou o “raid” Montevidéu-Porto Alegre, foi que os ânimos reacenderam-se. Nesse mesmo ano foi realizada uma corrida na Tristeza, vencida por Artur do Nascimento Júnior. De 1934 até 1940 foi o período auge das baratinhas. Os carros eram abertos, mas devidamente preparados com carburador especial, canos protetores no alto do encosto, bombas de compressão, etc. Os pilotos corriam de touca ou capacete e, se quisessem poderiam levar um mecânico auxiliar. A velocidade média era 113 Km/h nas primeiras provas, mais tarde foi elevada para 135. Participavam volantes nacionais, uruguaios e argentinos.

Com a chegada da guerra, quando o Brasil não possuía um poço petrolífero sequer, dependendo de importações e tendo seus petroleiros atacados pelos submarinos inimigos, paralisaram-se as corridas. Nessa época passou-se a adaptar nos automóveis os aparelhos de gasogênio, alimentados por carvão de lenha. Em 1943 a Folha da Tarde organizou uma corrida no Parque Farroupilha, somente para os movidos a gasogênio. As voltas foram vencidas por Catharino Andreatta, com a média horária de 76 km, tendo Dirceu Oliveira com segundo colocado.

Na pista da Tristeza as baratinhas também fizeram sua apresentação com carvão de lenha em 1941 e em 1945, sendo a última vencida também por Catharino Andreatta.

Com o retorno da gasolina, recomeçaram as corridas em 1945. A vibração, especialmente da ala jovem, provocava o surgimento de ídolos. Norbert Jung, os irmãos Andreatta (Catharino, Júlio), Olinto Pereira, Dirceu Oliveira, João Caetano Pinto, Adalberto Moraes, Diogo Elwanger, Olavo Guedes, Aristides Bertuol e muitos outros que, além de ídolos, eram sempre favoritos. A maioria corria com Ford, os demais com Chevrolet, Hudson, Lancia, DKW e, mais tarde, Simca.

As corridas interditavam, por mais de meio dia, uma enorme área da zona sul, além de que se constituíam sempre num iminente perigo, pois rara era a vez em que não ocorria um acidente. Recordamo-nos do ocorrido com Adalberto Moraes, na curva da Tristeza, chocando-se contra a delegacia e a Casa Carvalho, resultando várias fraturas no piloto. O da curva da Pedra Redonda foi o que mais nos impressionou. O uruguaio Ramon Sierra desceu a lomba de pé colado e não dominou o carro. Na capotagem ele saltou no alto dos plátanos da chácara do seu Bier e, ao cair de ponta cabeça, deixou um sapato trancado no fio telefônico! E não morreu...
         
Nessa parte da cidade, essencialmente residencial, que já vinha sentindo o início da explosão demográfica e tendo como acesso principal a faixa de corridas, não tardaram os protestos de moradores, reclamando o direito de ir e vir para seus lares. Em 1967 tivemos ainda duas provas, as “6 Horas” e os “500 Km”; esta última vencida por Chico Landi. Em 1968 o governo deu por encerradas as corridas na Tristeza

A seguir, foi asfaltada a Av. Vicente Monteggia e os corredores imaginaram um pequeno circuito pelo asfalto, abrangendo Cavalhada e Vila Nova, ainda pouco populosas. No chamado circuito da Vila Nova apenas duas corridas foram realizadas. A despedida das 12 horas foi vencida pelos irmãos Wilson e Émerson Fittipaldi, pilotando um Simca especial, em 1968. Nesta prova um carro saltou da pista, na esquina da Estrada da Cavalhada com a Otto, atingindo um barraco e matando um menino. Mais uma vez as autoridades intervieram, proibindo provas neste circuito. A partir de então, o Automóvel Clube do Rio Grande do Sul comprou uma área em Viamão e construiu o “Autódromo de Tarumã” inaugurado em novembro de 1970.


(Texto retirado do “Almanaque do Correio do Povo”, de 1976)



Segundo circuito

1.     Largava da Praça da Tristeza;
2.     Subia a Wenceslau Escobar;
3.     Na Pedra redonda, ia pela Avenida Cel Marcos;
4.     Rua Tramandaí, em Ipanema;
5.     No antigo posto de gasolina, tomava a Estrada da Cavalhada, hoje Avenida Eduardo Prado;
6.     Subia a Otto Niemeyer, finalizava a volta na novamente na Praça da Tristeza.





Subida da Otto Niemeyer


Defronte o portão da Tristeza


Na antiga Caixa d´água da Avenida Tramandaí



Nenhum comentário:

Postar um comentário