sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Curtas de Dalton Trevisan

(Dalton Trevisan Curitiba - PR - 14.06.1925)


Que vidinha


       Mãe e filha em férias na praia. À sombra de uma árvore, sentadas na grama, duas bolas de sorvete para cada uma.
        - Que vidinha mais ou menos a nossa, hein, mãe!

A loira

        - Casei com uma sueca. Bem que a minha disse: Moça loira? De olho azul? Não é para você, meu filho. Seis meses fomos felizes. Uma noite chego em casa. E a minha loira: Até ontem, eu te amei. Hoje, não mais. Adeus. Já de malinha no corredor. O que eu podia fazer?
        - ...
        - Só matar. E foi o que eu fiz.

A outra

        A mulher separada:
        - Eu fiquei sem nada. E ele, o bandido?
        - ...
        - Muito feliz com a outra, o fusca e o celular.

Uma cuequinha

       A mãe de quatro meninas estende no varal as muitas calcinhas coloridas. Ao lado, a caçula de oito anos:
       - Quanta calcinha, né, mãe?
       - A culpa é de você.
       - De mim?
       - Bem eu queria estar aqui pendurando uma cuequinha.

Encontro

       - Você não sabe quem eu encontrei. Ele mesmo. O meu ex.
       - E daí?
       - Ih, ele está horrível. Gordo. Feio. Sem dentes.
       - ...
       - Eu, ainda bem, na minha calça preta corsário.
       - ...
       - Toda gostosa. De óculos escuro!

Os noivos

      - Foi um triste casamento. Os noivos decerto menores de 18 anos. Pareciam dois meninos perdidos. Dois lindos meninos.
       Para surpresa geral, a noiva chega chorando. Entra na igreja chorando. E chora até o fim da cerimônia.
       Quando os dois caminham para o altar, à medida que passam, todos entendem o pranto da garota.
        Ele tinha raspado a cabeça. E atrás, na sobra da cabeleira, estão recortadas quatro letras: R-O-S-A.
        - E daí? O nome da noiva. Um belo gesto de amor.
        - Só que o nome da noiva era outro.

 A mudinha

        Na rua dois senhores pedem uma informação para a mocinha que passa.
        Ela se põe a gesticular muito agitada. Emite sons guturais, gemidos, gritinhos.
        Os dois agradecem e um para o outro:
        - Puxa que mudinha mais tagarela!


(Histórias do livro “Arara Bêbada”, Dalton Trevisan, Editora Record)


Criança

        - Tua professora ligou. De castigo, você. Beijando na boca os meninos. Que feio, meu filho. não é assim que se faz.
        - ...
        - Menino beija menina.
        - Você é gozada, cara.
        - ...
        - Pensa que elas deixam?

ooOoo

        Ela sai do banheiro, a toalha na cintura.
        - Pai, deixa eu ver o teu rabo.
        É a tipinha deslumbrada no baile de debutantes de três anos.
        - Rabo, filha? Ah, sei. O bumbum do pai?
        - Seu bobo.
        - ...
        - Esse pendurado aí na frente.

ooOoo

        O pai telefona para casa:
        - Alô?
        - ...
        Reconhece o silêncio da tipinha. Você liga? Quem fala é você.
        - Alô, fofinha.
        Nem um som. Criança não é, para ser chamada fofinha. Cinco anos, já viu.
        - Oi, filha. Sabe que eu te amo?
        “Puxa, ela nunca disse que me amava”.
        - Também o quê?
        - Eu também amo eu.

ooOoo

(Histórias do livreto “Crianças (seleções)”, editada pelo próprio autor.)


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