terça-feira, 28 de outubro de 2014

O pitoresco na justiça


Num de seus inúmeros depoimentos na Justiça, Zé da Ilha,
"o Saudoso", prestou esta declaração:


“−Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho de sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira, e troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-queda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a pista, colei. Solei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou mas foi na despistas porque, muito vivaldino, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui, ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas sem esperar recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muquecada nos amortecedores e taquei os dois pés na caixa da mudança, pondo por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai muito rápido, virou pulga e fez a Dunquerque, pois vermelho não combinava com a cor do meu linho. Durante o boogie, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocação pra presunto e corri. Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem vazio, da Lapa, precisamente às quinze para a cor de rosa. Como desde a matina não tinha engulido gordura, o ronco do meu pandeiro estava me sugerindo sarro. Entrei no china pau e pedi um boi à Mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engolia a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botá no pindura que depois eu ia esquentar aquela fria. Ia me pirá quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do mangue, foi direto ao médico legal pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou o Gato Félix, me queimei e puxei a solingem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América. Aproveitei a confusão pra me pirá, mas um dedo duro me apontou aos xipófagos e por isto estou aqui.”

          Atordoado, o juiz mandou chamar um "tradutor"
que esclareceu o seguinte:

Tradução do depoimento

“− Senhor Doutor, a história foi a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra que me preparasse a comida e lavasse meus ternos. Quando caminhava pela rua, entrei num botequim, tomei uma cachaça e comprei um jornal. Depois de ler as notícias do jornal, encostado num poste, na esquina da rua, vi que uma morena se aproximava toda faceira. Olhei-a, ela também. Segui-a de longe e olhando de soslaio para trás, vira que seu companheiro a seguia. Percebendo o jogo, fiquei de longe e vi quando ele a segurou pelo braço e mandou-a para casa. Fui saindo, mas antes de poder me afastar mais, o amásio da moça me agrediu. Revidei dando-lhe com o sapato um chute no peito, um soco no maxilar e de um salto, com outro chute no peito, joguei-o por terra. Ele sacou sua arma e atirou, mas eu já havia fugido, porque o sangue não combinava com a cor do meu temo. Durante a briga, disseram-me que o moço era policial e me mataria. Não tenho vocação para defunto. Corri e peguei um ônibus, descendo no fim da linha, no Largo da Lapa, precisamente às 15 para as seis horas (hora do crepúsculo). Como desde manhã não havia me alimentado, e meu estômago reclamava, entrei num restaurante chinês e pedi um bife a cavalo com arroz e urna cerveja preta bem gelada. Tomei a refeição e como não tinha dinheiro, pedi ao caixa para assentar no caderno que depois eu pagaria a conta. Ia sair quando o policial apareceu. Disse que eu era malandro, e foi direto ao cozinheiro para falar mal de mim. Eu sou preto, mas não sou Gato Félix, fiquei aborrecido e puxei da navalha. Agredi o meu rival. Ele ficou todo ensangüentado. Aproveitei a confusão para fugir, mas alguém me delatou apontando-me aos "Cosme e Damião" e por isto eu estou aqui.”


(Correio da Manhã - Rio de Janeiro – 5.4.1959)


Glossário do vocabulário do Zé da Ilha

patuá - forma giriática para substituir "o negócio", "a questão", "o problema".

gelo - desprezo

esquinar - ficar parado em esquinas, à espera de algo

cabrocha - mulher

que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão - que cozinhasse para mim e lavasse a minha roupa

bordejava pelas vias - perambulava pelas ruas

abasteci a caveira - tomei uma bebida - uma cachaça

troquei por centavos um embrulhador - comprei um jornal

na quebrada da rua - na esquina

veio uma pára-quedas se abrindo - veio uma mulher demonstrando interesse pelo malandro

eu dei a dica - o malandro dirigiu um gracejo à mulher

ela bolou - a mulher foi receptiva à lisonja do malandro

eu fiz a pista - acompanhei-a

colei - aproximei-me, caminhando ao lado da mulher

solei - conversei com a mulher

bronquiou - demonstrou com palavras iradas, o seu desagrado

vivaldina - viva, esperta, inteligente

o cargueiro estava lhe comboiando - o namorado a estava acompanhando

morando na jogada - compreendendo a situação

o Zezinho aqui - forma do malandro referir-se a si mesmo

o cargueiro jogou a amarração - o namorado se aproximou dela

um cataplum no pé do ouvido - um soco ou bofetada na orelha

dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça - dei-lhe um pontapé no joelho

uma muqueada nos mordedores - forma de muque - um soco nos dentes

taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança - saltei-lhe com os dois pés sobre o peito

ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas - sacou o revólver e fez dois disparos

papai - outra forma do malandro referir-se a si mesmo

virou pulga - deu um salto

fêz a dunquerque - evadiu-se, fugiu (alusão à famosa retirada de dunquerque, na Segunda Guerra Mundial)

vermelho não combina com a cor do meu linho - referia-se ao vermelho do sangue

tira - policial, detetive, investigador.

fechar o paletó - matar

não tenho vocação prá presunto - referia-se ao seu apego à vida

borracha grande - ônibus

no fim do carretel - no fim da linha, no ponto final

bem no vazio da lapa - no Largo da Lapa

às 15 para a cor de rosa - às 17 horas e 45 minutos

matina - manhã (observe-se a influência do elemento imigrante através desse vocábulo italiano)

o roque do meu pandeiro - o ruído do meu estômago

china-pau - "china" - (pequenos restaurantes chineses que serviam pratos a preços populares, na época, muito comuns no Rio de Janeiro)

boi a mossoró com confeti de casamento - bife a cavalo com arroz

e uma barriguda bem morta - cerveja bem gelada

como o meu era nenhum - como não tinha dinheiro...

pedi ao caixa pra botá na pindura que depois eu iria esquentar aquela fria - pedi ao caixa um crédito, dizendo-lhe que pagaria a despesa mais tarde.

dizendo que eu era produto do mangue - o Mangue é um dos prostíbulos do Rio de Janeiro - (curioso notar o eufemismo desta construção)

me queimei e puxei a solingea - irritei-me e saquei a navalha (a marca do instrumento Solingen, passou a sinônimo de navalha)

fiz uma avenida na epiderme do moço - fiz um talho na pele...

ele virou logo américa - ficou vermelho como sangue (América Futebol Clube, cujo uniforme se compõe de camisas vermelhas)

dedo-duro - delator

xifópagos - policiais do Rio de Janeiro que sempre andam em duplas (também chamados Cosme e Damião.




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