quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Um conto de Carlos Carvalho


Segunda-feira

Carlos Carvalho


De manhã cedo a mãe vai chamá-lo. Resmunga. De cuecas, arrasta os chinelos pela casa, lava o rosto na água fria, demora-se no banheiro.

Enquanto a mãe prega o botão na camisa, alisa o cabelo empastado de brilhantina. Olha o relógio: sete e cinco. Tem ainda quarenta e cinco minutos. Boceja.

Em criança, queria ser dentista. Com a morte súbita do pai, precisou trabalhar e não sobrou tempo para o estudo. Recém-saído do serviço militar empregou-se como vendedor numa firma de peças de automóveis. Aos trinta e cinco anos, ainda lá continua, à espera de uma promoção. Como o ordenado é pequeno e ganha gratificações pelas vendas, trabalha da manhã à noite. Foi, inclusive, citado pelo Diretor na festa do fim de ano e recebeu um diploma de Honra ao Mérito, que a mãe emoldurou e colocou na parede.

Nos sábados, à noite, vai ao cinema. Na volta, não se demora na rua, pois a mãe sofre do coração e não pode ficar só. Nos domingos, acorda ao meio-dia, toma uma cerveja no almoço e passa a tarde lendo revistas em quadrinhos, o cinzeiro enchendo de pontas de cigarro.

– Você precisa casar, meu filho.

– Tem tempo, mãe.

Coleciona fotografias de mulheres nuas, que esconde no armário, embaixo das roupas. Na rua caminha com passos lentos e pesados. A mãe diz que se parece com o pai. Sorri sem abrir muito a boca, para esconder a falha do dente.

Ultimamente tem sentido uma dorzinha enjoada na boca do estômago. Não conta à mãe, para não assustá-la. Temendo que seja úlcera, bebe um copo de leite em cada bar que entra.

Antes de sair, lava a louça do café, que a velha não pode fazer esforço.

– Depressa, meu filho, você vai se atrasar.

Pede dinheiro à mãe, que guarda o seu ordenado, e veste a camisa, enquanto ela recomenda:

– Cuidado no atravessar a rua.

Alisa ainda uma vez o cabelo, beija a mãe e sai. Da porta, ela abana, orgulhosa do filho. E os passos dele, iniciando a semana, parecem os de um bicho se arrastando penosamente.

*****


CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980 destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista. Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com suas peças, mas também como ator e diretor.


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