domingo, 26 de outubro de 2014

Vocábulos Literários


Prof. Cláudio Moreno



Há diversos vocábulos que entraram em nossa língua formados a partir de obras literárias. Vargas Llosa diz que uma sociedade que não conhecesse a escrita também não conheceria esses vocábulos, nascidos da pena de escritores que souberam, através de personagens imorredouros, dar uma imagem concreta de determinados aspectos de nós mesmos e de nossa realidade.

Na "Odisseia", Homero narra as atribuladas aventuras de Ulisses (ou Odisseu), que tenta voltar para casa após o término da Guerra de Tróia. Por dez anos, de ilha em ilha, de naufrágio em naufrágio, ele enfrenta canibais, ciclopes, feiticeiras e monstros marinhos, até pisar, numa manhã nevoenta, nas praias de sua amada Ítaca. Poucos, talvez, tenham lido a versão integral desta obra, mas esses infortúnios e peripécias vêm à mente de todos quando dizemos, numa segunda-feira, que "nossa volta da praia, neste feriadão, foi uma verdadeira odisseia".

Acaciano - deriva do ridículo Conselheiro Acácio, personagem do romance "O Primo Basílio", de Eça de Queirós. Embora a figura do Conselheiro seja vista como uma crítica ao moralismo hipócrita e ao apego às meras aparências sociais, o termo imortalizou outra faceta da personagem: o hábito de proferir, com toda a pompa e solenidade, frases absolutamente ocas e triviais. Por isso, "frases acacianas" ou "verdades acacianas" servem para criticar a banalidade ou o absurdo de qualquer afirmação. Um bom exemplo é a frase "em futebol, ou se ganha, ou se perde, ou se empata", dita em tom sério e solene.

Balzaquiana - No séc. XIX, quando todas as heroínas da literatura casavam antes de completar 21 anos, Balzac causou furor quando publicou o romance "A Mulher de 30 Anos", que exalta a figura das mulheres de meia-idade, atraentes não só por sua beleza, mas também por se encontrarem na plenitude de sua feminilidade - as famosas "balzaquianas". De lá para cá, contudo, os limites desse conceito foram sendo expandidos na mesma medida em que os hábitos, a cosmética e a cirurgia plástica conseguem resguardar a beleza dos efeitos da idade. Basta pensar no teatro: para representar, hoje, uma balzaquiana, a escolha recairia em uma atriz como Vera Fischer (50) ou Betty Faria (60).

Big Brother - a ideia vem do livro "1984", de George Orwell, escrito em 1948 (o título apenas inverteu os dois últimos algarismos da data), que descreve uma sociedade totalitária em que todos os cidadãos são observados e controlados pelo Partido, cujo líder é aclamado como o Big Brother. Nesse pesadelo futurista, os aparelhos de TV, além de receber as imagens transmitidas pelo Partido, servem também para espionar cada detalhe da vida familiar dos espectadores, captando qualquer som acima de um simples sussurro. Não há mais intimidade: todos são vigiados pela Polícia do Pensamento, e gigantescos cartazes anunciam, por toda parte, "Big Brother is watching you!" ("Big Brother está de olho em você!"). A partir da obra de Orwell, "Big Brother" passou a designar esse tipo de poder absoluto, invasivo, que tenta controlar os sentimentos e a consciência de cada um. A escolha deste nome para batizar um dos mais famosos "reality shows" da televisão mundial não foi por acaso.

Liliputiano - Johathan Swift, escritor irlandês do séc. XVIII, escreveu "As Viagens de Gulliver" como uma crítica feroz à política de seu tempo. Contudo, ironicamente, a parte mais conhecida desta obra ficou sendo a primeira das viagens, que passou a ser lida como uma simples narrativa infanto-juvenil. Nela, o cirurgião Lemuel Gulliver naufraga na costa de Lilliput, a terra dos pequeninos, onde tudo é diminuto, mensurável em centímetros, mas proporcional: os homenzinhos medem 14 cm, os cavalos têm 12 cm de altura, as ovelhas têm apenas 4 cm. O adjetivo "liliputiano" passou a significar, por isso mesmo, tudo o que é extremamente pequeno e minúsculo.

Ninfeta - na origem, seria uma "pequena ninfa"; designa a menina ainda pré-adolescente, mas sexualmente provocante. O termo passou a ser usado depois que Vladimir Nabokov chocou o mundo, em 1955, com o seu discutido romance "Lolita", em que o atrapalhado professor Humbert Humbert se apaixona e seduz a enteada de 12 anos de idade, alegando, em sua defesa, que havia algo de demoníaco e perturbador por trás daquela inocência quase infantil.

Pantagruélico - vem do alegre e gigantesco Pantagruel, o divertido e desbocado comilão criado por François Rabelais, escritor francês do séc. XVI. Filho de Gargantua, outro comilão lendário, Pantagruel já nasceu com um apetite descomunal, mamando diariamente o leite de 4.600 vacas. Volta e meia, ao longo dos "Horríveis e Espantosos Feitos e Proezas do Renomado Pantagruel", aparecem comilanças e bebedeiras em torno de mesas repletas de boas carnes, iguarias e vinho abundante. Por isso, usa-se uma "refeição pantagruélica" ou um "apetite pantagruélico" sempre que queremos designar qualquer exagero gastronômico.

Quixotesco - provém do famoso "Dom Quixote de la Mancha", criação do espanhol Cervantes, que narra as aventuras de um fidalgo de aldeia que enlouquece lendo livros de cavalaria e resolve sair Espanha afora, acompanhado do simpático Sancho Pança, um camponês que se torna seu amigo e escudeiro. Nas suas várias andanças, enfrenta inimigos e monstros imaginários, como no famoso episódio dos moinhos de vento, contra os quais investe de lança em riste, tomando-os por gigantes perigosos. Apesar de seus continuados fracassos, o bravo Dom Quixote não desanima de sua missão de cavaleiro andante, o que faz o termo "quixotesco", até hoje, uma forma de designar, com simpatia, a pessoa que tem intenções e ideais nobres, mas é sonhadora e afastada da realidade.

Cherchez la femme” (Procurai a mulher). Sentença de Alexandre Dumas, em “Os moicanos de Paris”, para indicar que em todos os acontecimentos há sempre uma mulher.




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