sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Ordem de Despejo


    Ap. 101

ONÇO:
- Amor, aonde você vai assim toda de oncinha? Esta selva está uma cidade.
ONÇA:
- Para de me cutucar com vara curta. Eu sei me cuidar.
ONÇO:
- É que nós fomos despejados, sabia?
ONÇA:
- Toma conta da nossa casa enquanto a serra elétrica não passa.
ONÇO:
- Puxa... Queria ir beber no açude com os amigos... Mas vou quebrar o seu galho.
ONÇA:
- E eu sou mulher de quebra-galho?! Seu animal cachaceiro!
ONÇO:
- Cuidado com a cobra do 202 quando sair. Ela adora falar mal de você.

Ap. 202


COBRA:
- Lá vem aquela onça do 101 toda pintada. Piranha!
COBRO:
- Não provoca. A moça é uma fera!
COBRA:
- Você gosta que se enrosca todo por ela, que eu sei.
COBRO:
- Nossa, como você é venenosa.
COBRA:
- Uma víbora!
COBRO:
 - Precisamos de um galho novo. Esse aqui vão derrubar já, já.
COBRA:
- Ah, se Deus tivesse dado asas à cobra eu estaria em Paris, no pescoço de alguma dançarina exótica de strip-tease, e não aqui nesta enrolação.

Ap. 102


MICO:
- Queria tanto aquele apartamento dos canarinhos... Parece um ninho de amor.
MICA:
- Claro, eles estão em fase de reprodução. É piu-piu pra cá, piu-piu pra lá...
MICO:
E nós estamos em fase de extinção. Não transamos mais. Vão derrubar a nossa árvore! Onde vamos morar?
MICA:
- Não esquenta. Cada macaco no seu galho.
MICO:
- O que você quer dizer com isso?
MICA:
- É que nós estamos em fase de separação, amor. Arranjei um mico-leão muito mais dourado que você.
MICO:
- Sabia que ia acabar pagando esse mico.

Ap. 201


CANÁRIO:
- Foi bom pra você, amor?
CANÁRIA:
- Nossa, você é muito bom de bico. Seu piu-piu é demais.
CANÁRIO:
- Não importa o tamanho do bico e sim o trinado que ele faz.
CANÁRIA:
- Precisamos achar outro ninho.
CANÁRIO:
- Gostava tanto daqui. Boa vizinhança, vista pro verde...
CANÁRIA:
- É a especulação, amor. Vai ser derrubado tudo...
CANÁRIO:
- Vão construir um edifício enorme aqui no nosso terreno.
CANÁRIA:
- Eles ofereceram alguma coisa em troca pela árvore?
CANÁRIO:
- Ofereceram... Uma gaiola de casal no 24° andar... Sem vista.



(Miguel Paiva em “Bundas” número 15, de 21.07.1999) 

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