sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Saudade Selvagem

Jair Teixeira*





Nas minhas mãos maltratadas
Da regeira e da aguilhada,  (01)
Guardo a xucra tradição
Dos pealos de sobrelombo, (02)
Da polvadeira e do tombo   (03)
Nos dias de marcação.

Da minha carreta amiga
O rodado – peça antiga –
É relíquia; foi buril
Que delineou nas coxilhas
Destes Campos Farroupilhas,
O Grande Sul do Brasil.

Poder voltar? Quem me dera!...
Pra o meu rancho, hoje tapera,
Rever meus trastes sorrindo:
Serigote e o malacara, (04) (05)
Badana de capivara     (06)
E o cusco amigo latindo...

Fora do rancho, a cacimba!
Dentre dele, a tarimba, (07)
Que foi cama e foi divã...
Minhas chilenas, prateadas, (08)
Com as botas dependuradas
Cobertas de picumã. (09)

Que o “Patrão Velho Eterno”,
Aparte-me, aqui, do inferno,
Desta cidade que odeio
E reintegre-me à paisagem
E, num ambiente selvagem,
Eu volte a parara rodeio. (10)


*Jornalista e funcionário aposentado do TRT da 4ª Região.



Gravura de José Lutzenberger

Glossário*

(01)   Regeira: corda de couro presa às orelha dos bois lavradores para se guiarem as juntas.

(02)  Pealos: laço que se ata aos bois, ou a outro animal, quando este vai em disparada, prendendo-o pelas patas dianteiras e, consequentemente, derrubando-o.

(03)  Polvadeira: grande quantidade de poeira que levanta em estradas não pavimentadas quando  passa um carro ou mesmo num estouro de boiada.

(04)   Serigote: espécie de arreio, parecido com lombilho.

(05)  Malacara: diz-se de um equino que, não sendo totalmente escuro, tem uma listra branca na   testa, que vai desde o focinho até o alto da cabeça.

(06)   Badana: pele macia de couro sovado que se põe sobre os pelegos.

(07)  Tarimba: estrado de madeira, geralmente encontrado debaixo da ramada, onde os peões      dormem a sesta. 2. Prática, experiência.

(08)  Chilenas: grandes esporas cujas rosetas, às vezes, têm mais de meio palmo de diâmetro.

(09)   Picumã: substância preta que a fumaça deposita nas paredes, no teto das cozinhas e nos    canos das chaminés.

(10)  Parar rodeio: juntar o gado em determinado lugar do campo.


* Do Dicionário Gaúcho, de Alberto Juvenal de Oliveira, Editora AGE.



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