quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

As melhores músicas de Bororó

        
Curare” é o segundo sucesso de Alberto de Castro Simões da Silva, o afamado boêmio carioca Bororó, violonista e compositor nas horas vagas, cuja obra praticamente se resume a duas músicas, Curare e Da cor do pecado, ambas clássicos.



Bororó - 1898 - 1986

Bororó foi o padrinho da carreira artística de Orlando Silva, que em 1939 ficou enciumado por não ter gravado “Da cor do pecado”, o outro clássico, lançado por Sílvio Caldas. Então o compositor deu-lhe “Curare”, como compensação. Além da letra brejeira, a construção harmônica da segunda parte, especialmente a frase final, uma seqüência avançada para época, tornam este samba atraente para intérpretes, como João Gilberto, interessados em músicas de concepção mais elaborada.

Esta música tem diferentes interpretações e diferentes grafias na sua letra. No texto abaixo, mantivemos a interpretação de Orlando Silva, gravação de 14 de agosto de 1940.

Curare − 1940

Você tem boniteza
e a natureza foi quem agiu.
Com esse óio de índia,
curare no corpo,
que é bem Brasil.
Tu é toda a Bahia,
é a flô do mocambo
da gente de cô.

Faz do amor confusão,
numa misturação
bem banzeira e inzoneira,
que tem raça e tradição.

Quebra, machuca minha dô
Nega, neguinha,
tudo, tudinho,
meu amorzinho.

Com essa boquinha vermelhinha,
rasgadinha,
Qui tem veneno como quê.
Conta tristeza e alegria pro seu bem.
E tudo vive a dizer:
Que você é diferente
dessa gente que finge querê.


No livro - A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello relatam que “a musa dos versos chamava-se Felicidade, uma mulher de vida pregressa pouco recomendável, que trabalhava em frente ao Tribunal de Justiça e lhe foi apresentada por Jaime Távora, oficial do gabinete do ministro José Américo. Iniciou-se assim um romance de vários anos em que Bororó foi responsável pela mudança de vida da moça. Mais tarde ela se casaria com um médico, tendo morrido ainda jovem em conseqüência de uma gripe mal curada”.

“Da cor do pecado” permanece como um clássico sendo gravada por grandes nomes da nossa MPB como Elis Regina, João Gilberto, Nara Leão, Ney Matogrosso, Jacob do Bandolim e Luíz Bonfá.

Da cor do pecado

Esse corpo moreno,
Cheiroso e gostoso,
Que você tem.
É um corpo delgado,
Da cor do pecado,
Que faz tão bem.

Esse beijo molhado,
Escandalizado,
Que você me deu.
Tem sabor diferente,
Que a boca da gente
Jamais esqueceu.

E quando você me responde
Umas coisas com graça,
A vergonha se esconde,
Porque se revela a maldade da raça,
Esse corpo de fato
Tem cheiro de mato,
Saudade, tristeza,
Essa simples beleza,
Esse corpo moreno,
Morena enlouquece.
Eu não sei nem por quê,
Só sinto na vida
O que vem de você.

“As duas canções-mestras de Bororó elevam o erotismo que desde cedo embalou a sensibilidade e o sentimento musical do povo brasileiro a um nível tão extremo de realização, que nele já não se acha qualquer vestígio de vulgaridade. E o curioso é que esse erotismo puro, decantado, seja alcançado não por uma recusa ou por um distanciamento dos elementos tradicionalmente tidos como vulgares (a carne, o sexo), mas pela exaltação livre destes mesmos elementos. Por uma série de manobras poético-musicais, nas duas canções o corpo é plenamente afirmado em sua alegria física, sem que venha a se tornar uma coisa, um objeto oco, sem rosto, em total submissão frente aos impulsos básicos do organismo, da matéria”. (Paulo da Costa e Silva).

Fonte:

A Canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1997. -Site e blog do IMS.



Orlando Silva, “O Cantor das Multidões”, em 1940.


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