segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O amor em prosa e verso


Do amor

Affonso Tresguerres

        
 Dizia um filósofo que estar enamorado é uma espécie de patetice transitória – definição baseada naquilo que o enamorado melhor faz, que é agir como um pateta. E certamente só um tolo seria capaz de empobrecer sua vida mental, de reduzir seu campo perceptivo e motivacional até o extremo de concentra-se em um só objeto, de tal maneira obcecado que todo o resto passa a segundo plano ou simplesmente desaparece. O enamorado, assim como os lunáticos ou os tontos, raciocina conforme uma lógica especial, em que os princípios da lógica propriamente dita quase sempre estão ausentes. Assim, o enamorado crê no que é incrível, espera o inalcançável, considera provável o impossível, e impossível o que é evidente. Por fim, quando um dia as coisas voltam a seu lugar, quando cessam os sintomas e desaparece a febre, custa-lhe entender o que aconteceu, e às vezes chega à triste conclusão de que ele mesmo tornou-se uma prova tangível do efeito Bamum, segundo o qual nasce um novo tolo a cada minuto, e uma prova também do que poderíamos considerar uma variante do mesmo efeito, que estabelece que um tolo, por tolo que seja, sempre vai encontrar alguém mais tolo do que ele e que, além disso, o admira e, melhor ainda, até se apaixona por ele. Assim vivemos.


Soneto n° 116

William Shakespeare

                               

                                          Que eu não veja impedimento
Na sincera união de duas almas.
Não é amor aquele que,
Encontrando modificações, se modifica
Ou diminui se o atinge o desamor do outro.
Oh, não! O amor é para sempre
E enfrenta ileso as piores tempestades.
É estrela guia para cada barco errante,
De brilho intenso, mas valor secreto.
O amor não depende do tempo
Não escolhe nem dia nem hora
Mas resistirá ao limiar da Morte.
E, se se provar que estou errado,
Nunca fiz versos,
Nem jamais alguém terá amado.


Os versos que te fiz

Florbela Espanca

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra ter oferecer.

Têm a dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Milionários

Juana de Ibarbourou

Segura minha mão. Vamos para a chuva
descalços e com roupa leve, sem guarda-chuva,
com o cabelo ao vento e o corpo na carícia
oblíqua, refrescante e miúda, da água.

Que riam os vizinhos! Posto que somos jovens
e nos amamos e adoramos a chuva,
vamos ser felizes com o prazer singelo
de um casal de pardais que arrulha na rua.

Adiante estão os campos e o caminho de acácias
e a chácara suntuosa daquele pobre senhor
milionário e obeso, que com todos os seus ouros

não poderia comprar nenhum grama do tesouro
inefável e supremo que Deus nos deu:
somos flexíveis, jovens, estamos cheios de amor.


Contra-senso

Marta de Mesquita da Câmara

Oh, meu amor, escuta, estou aqui.
Pois o teu coração bem me conhece:
eu sou aquela voz que, em tanta prece,
endoideceu, chorou, gemeu por ti!


Sou eu, sou eu que ainda não morri
- nem a morte me quer, ao que parece -
e vinha renovar, se inda pudesse,
as horas dolorosas que vivi.

Oh, que insensato e louco é quem se ilude!
Quis fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que teus olhos são capazes!

Deitando a vista pelo mundo além,
desisto de encontrar na vida um bem
que valha todo o mal que tu me fazes!


Quero

Carlos Drummond de Andrade

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que amas que me amas.
Do contrário evapora-se a armação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmente,
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e não sua emissão,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me disseres
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de mear,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

A prisioneira

Marcel Proust

          São, sobretudo, criaturas assim que nos inspiram amor, para nossa aflição. Pois cada ansiedade nova que por causa delas sofremos desfalca-lhes aos nossos olhos um pouco da personalidade. Estávamos resignados ao sofrimento, crendo amar fora de nós, e percebemos que nosso amor é função de nossa tristeza, que nosso amor é talvez a nossa tristeza, e que o seu objeto só em diminuta porção é a moça da cabeleira negra. Mas, afinal, são sobretudo criaturas assim que nos inspiram amor. 

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