quinta-feira, 30 de julho de 2015

Coisas do Rádio



Uma piada

O diálogo que se segue foi extraído do livro de Rosa Nepomuceno (1999)e mostra o tipo de humor que prevalecia na década de 1920, marcado, sobretudo, pela ingenuidade.
- Ô cumpadi. Sabe que lá na minha cidade fizeram uma torre tão arta, mas tão arta, que tiveram que virá a ponta dela?
- Pra quê, cumpadi?
- Pra lua pode passa, porque tava enganchada!
- Ô cumpadi! Na minha terra tem um trem tão ligeiro, tão ligeiro, que quando ocê entra nele já tem que compra o bilhete de vorta!
- Que mentira, cumpadi! Trem ligeiro tem na minha terra! O sujeito brigou com o chefe da estação, foi dá um tapa nele e acerto no chefe da outra estação, distante 30 quilômetros.


Contribuição à história das novelas no Brasil

Antes mesmo de inaugurar a era das novelas radiofônicas com a lacrimejante Em busca da felicidade, a Rádio Nacional vinha, desde sua inauguração, em 1936, levando ao ar, em meio à sua programação normal, pequenas "cenas", que os locutores da época chamavam de esquetes. O primeiro esquete apresentado pela PRE-8, Namorado capaz de tudo..., era da autoria de Genolino Amado, e dele tomaram parte Celso Guimarães e Amélia de Oliveira, que assim podem ser considerados os primeiros radioatores da emissora. O diálogo entre os dois atores, repleto de reticências, metáforas e juras de amor, é absolutamente inverossímil e risível, mormente o seu fim, digno de um programa humorístico. Na verdade, o esquete de Genolino Amado constitui um exemplo esclarecedor de como eram escritos os textos teatrais e radiofônicos na época. A coisa funcionava assim: quanto mais rebuscadas, aflitivas e heroicas eram as declarações de amor, mais sinceras pareciam ser as palavras do declarante. Para provar que amava sinceramente a outra, o sujeito dispunha-se a tudo, até passar por sacrifícios físicos. O texto a seguir, que é a reprodução literal do esquete Namorado capaz de tudo..., vale, portanto, como um documento duplamente histórico: testemunha um fato na evolução da Rádio Nacional e acentua um traço da nossa trajetória cultural.


Namorado capaz de tudo...



Ele - Ah! Meu amor... Por ti, seria capaz de dar até a minha vida.
Ela - Oh! Paulo... Gostas tanto de mim, de verdade? Não estás exagerando?
Ele - Não! Não é exagero... Eu sinto que o teu amor me dá forças sobre-humanas. Sinto que sou capaz de realizar prodígios por tua causa. O que pedires, eu farei... Queres aquela estrela que está brilhando no céu? Se quiseres, irei buscá-la...
Ela - Não é preciso tanto, Paulo. Para que quero eu uma estrela?
Ele - Dê-me, então, qualquer oportunidade para eu provar a grandeza da minha paixão. Queres que eu vá ao fundo do mar, trazendo a mais linda pérola do oceano?
Ela - Não... Não precisa molhar a tua roupa. Prefiro que vás a uma joalheria e me tragas um colar. É mais prático...
Ele - Mas eu quero arriscar a minha vida, passar por grandes perigos, resistir a muitos sacrifícios, a fim de demonstrar como é ardente o sentimento que me inspiras. Se me pedires para galgar essas montanhas inacessíveis que azulam a distância, subirei por aqueles penhascos e se rolar lá de cima, ficarei contente. Morrerei feliz, porque a morte pelo amor é melhor do que a vida.
Ela - Oh! Como és romântico!
Ele - Não é romantismo. É apenas sinceridade, devotamento do meu coração. Queres que eu desafie o mundo inteiro por tua causa? Desafiarei!
Ela - Para quê, Paulo? O mundo já tem tantas preocupações, tantas trapalhadas! Não convém complicá-lo ainda mais com esses desafios. Eu não preciso de provas. Já sei que gostas muito de mim. Já tenho a certeza.
Ele - Mas eu quero demonstrar que meu amor é diferente. Não é como esses amores comuns... Amores covardes, que não sabem ter as dedicações profundas. Queres que eu corte esta mão?
Ela - Não! De maneira alguma. Quero apenas que peças a minha mão em casamento.
Ele - Bem... Bem... Essa coisa de casamento fica para depois. Não se deve estragar essas horas de poesia com essas idéias burguesas de matrimônio. Faremos dos nossos sonhos de beleza, das nossas ilusões cor-de-rosa, dos nossos ideais tão puros e tão lindos...
Ela - Mas, Paulinho... Nem só de romantismo vive uma mulher... Falemos de coisas mais simples do nosso futuro, do ninho que iremos construir...
Ele - Está bem. Mas isso fica para mais tarde... Por enquanto deixe que minh'alma navegue nas ondas cristalinas da poesia amorosa...
Ela - Pois, então, vá navegando...
Ele - Eu quisera ser um Colombo para te oferecer uma nova América.
Ela - É muita coisa, Paulo. Uma nova América daria muito trabalho.
Ele - E que tem isso? Por ti, não me incomodaria de enfrentar riscos tremendos, gostaria de afrontar as vagas revoltas dos mares nunca d'antes navegados. Por ti, desafiaria dragões. Atravessaria desertos maiores do que o do Saara. Lutaria com as feras selvagens das florestas. Não há obstáculos que não possa vencer por tua causa. Para quem ama de verdade, não existe impossível. Manda buscar aquela estrela... Eu irei! Manda-me combater na guerra da Espanha. Serei um herói. Pede-me para que eu seja o homem. Com a tua inspiração, venceria a minha candidatura à Presidência. Por ti, para te ver e principalmente para te ver satisfeita e confiante em meu amor, farei tudo, tudo, que é possível.
Ela - E por que então não vieste me ver ontem à noite?
Ele - Ah! Choveu...
Ela - Ah! Choveu... Foi só por isso?...
Ele - E acha pouco? Não estava disposto a apanhar um resfriado...


Ela - Ah! É assim? Tu te ofereceste para apanhar uma estrela no céu, uma pérola no fundo do mar, mas não podes apanhar um resfriado... E ainda dizes que o teu amor é ardente... Não, mentiroso! O que tens é muito sangue-frio...


 Piadas do Manduca

O programa retratava uma sala de aula improvisada na casa da professora Dona Teteca (interpretada por Lígia Sarmento) e de seu marido(Renato Murce). Os alunos não podiam ser mais impagáveis: Manduca (Lauro Borges), Seu Ferramenta (Castro Barbosa) e Coronel Fagundes (Brandão Filho). A produção e o texto do programa eram de Renato Murce.
- Manduca!
- Sinhô.
- Dê o exemplo de uma coisa escura.
- Mas bem escura?
- Isso mesmo. Escura, bem escura, vamos.
- Bem escura... É o Leônidas, contrastando com o Maneco, dentro de um túnel, chupando jabuticaba, os dois vestidinhos só com uma tanguinha preta.



(Leônidas da Silva, que atuava no Flamengo, e Maneco, meia-direita do América, eram afro-descendentes).

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