domingo, 16 de agosto de 2015

O Solilóquio* da solidão de Ricardo II








William Shakespeare


Não importa onde, mas que nenhum homem me fale de consolo.
Falemos de tumbas, de vermes, de epitáfios,
Falemos de nossos testamentos.
Ou não? Pois que temos a legar
senão nossos corpos depostos sobre o chão?
Nossas terras, nossas vidas e tudo o mais, pertencem à morte
e nada podemos dizer que nos pertence. Exceto a morte
e este pequeno modelo de terra estéril
que serve de argamassa e cobre nossos ossos.
Pelo amor de Deus, sentemo-nos no chão
para contar histórias soturnas de reis mortos:
como uns foram depostos, alguns trucidados na guerra,
alguns perseguidos pelos fantasmas que haviam destronado,
alguns envenenados pelas companheiras, alguns mortos dormindo,
todos assassinados. Pois dentro da coroa oca
que cinge a têmpora mortal de um rei,
a morte mantém a sua corte, e fica lá, grotesca,
zombando do poder, sorrindo à sua pompa,
permitindo ao rei um fôlego, uma pequena cena,
na qual pode monarquizar, ser temido, matar com um olhar
e se encher de orgulho enorme e inútil.
E quando o vê assim, acomodado,
ela atravessa o muro do castelo com um alfinete mínimo,
e adeus, Rei!
Cobri vossas cabeças, e não zombai da carne e do sangue,
tratando-os com solene reverência.
Fora do respeito,
a tradição, a forma, o dever da cerimônia!
Eu me alimento de pão, como vós outros, sinto necessidades,
provo a angústia, preciso de amigos. Assim enclausurado,
como podeis dizer a mim que eu sou um rei?


Solilóquio de MacBeth






William Shakespeare

(Talvez o trecho mais famosos de todas a literatura teatral)


Amanhã, e amanhã, e amanhã,
chegando no passo impressentido de um dia após um dia,
até a última sílaba do tempo registrado.
E cada dia de ontem
iluminou, aos tolos que nós somos,
o caminho para o pó da morte.
Apagai-vos, vela tão pequena!
A vida é apenas uma sombra que caminha, um pobre ator
que gagueja e vacila a sua hora sobre o palco
e, depois, nunca mais se ouve. É uma história contada por um idiota,
cheia de som e fúria,
significando nada.


* Fala de alguém consigo mesmo; monólogo.


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