terça-feira, 18 de agosto de 2015

O velho e o louco de Ray-Ban

Oscar Bessi Filho




Na Estrada do Mar, o homem grisalho dirigia calmo, apreciando a paisagem. Dentro da velocidade limite conseguia saborear o clima ameno e belas imagens da natureza ao seu redor. Gostava do Litoral pelo ar de fuga que respirava. Aquela aura de relaxamento que lhe parecia nem ter lógica, pois as casas da praia tinham as mesmas chaminés, os humanos produziam as mesmas sujeiras, os mesmos barulhos da Capital, e as ruas centrais sofriam com os mesmos congestionamentos. Em finais de semana e feriados, o simples ir à padaria se tornava uma estressante fila de espera, iguais às que tolerava com tão pouca paciência nos postos de saúde. E havia cada vez mais gentes e carros. Mesmo assim, todo ano ele viajava para o Litoral.

Viu pelo retrovisor uma caminhonete importada se aproximar em poucos instantes, veloz e ruidosa. O motorista era um jovem de Ray-Ban, fisionomia fechada, tatuagens no braço. Havia um movimento considerável na pista oposta e não havia como ultrapassá-lo. Então, o carro, bem maior que o seu, passou a pressionar para que ele saísse da frente. Acelerava como se pudesse empurrar, passar por cima, jogá-lo para fora da pista. Quase tocando o seu para-choque. O velho viajante ficou assustado. A impaciência do rapaz era visível e agressiva. Mas ele não tinha para onde escapar naquele trecho. O outro começou a dar sinais de luz insistentes e irritados e, naquele momento, o homem grisalho apenas rezou para que ele fosse embora o quanto antes.

Numa fração de instante, viu ao seu lado o jovem que finalmente o ultrapassou. A fisionomia de um motorista que deveria estar passeando, mas parecia uma máquina de guerra a mil em plena batalha. Ele lembrou-se de quando era jovem e impetuoso. De quando também gostava, como qualquer jovem, de alguma emoção e adrenalina. Mas não assim. Não ignorando vidas que estivessem ao seu lado. “Vá saber que circunstâncias são capazes de tornar as pessoas insensíveis?”, pensou o velho. “Que presenças ou ausências indesejadas quando criança? Que faltas? Que excessos? Torceu para que o tempo ofertasse àquele louco que escondia seu olhar sob o Ray-Ban, o aprendizado da calma. Do entendimento de que a vida é um existir coletivo. E a consideração pelos outros”.

Mas o congestionamento e a ambulância, alguns quilômetros depois, apenas confirmaram um triste pressentimento que teve ao ver aquele rapaz, ao seu lado, ensandecido. O jovem de Ray-Ban jamais teria chance de ter seus cabelos grisalhos e de apreciar a paisagem.


In Correio do Povo, 19.01.2014


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