quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para onde vão as bibliotecas quando morremos?

por Gustavo Melo Czekster*


 Em um dos meus poemas preferidos, “Gato em apartamento vazio”, Wislawa Szymborska parte do ponto de vista de um gato, cujo dono morreu, para contar, de forma lancinante, uma pequena fábula de esperança destruída e de abandono. No início do poema, o bichano reclama “Morrer – isso não se faz a um gato”, pois, na sua visão arrogante da realidade, a morte do humano (ou humana) que lhe dava comida e carinho não foi autorizada. No entanto, a presunção vai cedendo a cada verso. Logo percebemos que o gato está com medo de ser abandonado, receio de permanecer vivo em um mundo onde falta a sua razão de ser. Por trás da valentia falsa das suas últimas declarações e o desejo – fingido – de pretextar irritação (“espera só ele voltar / espera ele aparecer. / Vai aprender, / que isso não se faz a um gato. / Para junto dele / como quem não quer nada, / devagarinho / sobre patas muito ofendidas. / E nada de pular ou miar no princípio.”), o gato sabe que a sua vida mudou desde a morte do dono e, agora, ele está vivendo a lembrança de um passado que não mais se repetirá.

É um poema triste e, se recordo dele, é por causa de uma pergunta que recentemente me fizeram: para onde vão as bibliotecas quando os seus donos morrem?

Não adianta manter ilusões, melhor enfrentar a realidade logo. Assim como o gato em luto pela perda do seu humano, as bibliotecas passarão por um tempo de silêncio. Sozinhas em casas desocupadas, dentro de ambientes escuros, elas esperarão um resgate que não vai chegar. É possível que os livros espiem a porta, imaginando que cada barulho na rua represente a chegada do leitor salvador, até o momento em que o pó acumulado nas lombadas e o silêncio sepulcral os convencerão de que ninguém virá buscá-los. De que o seu dono se foi, deixando para trás os livros juntados no decorrer de uma vida de trabalho e abnegação. Culpar-se-ão ou não a carne humana pela sua fraqueza, nunca saberemos. Incontestável é que aquela biblioteca, da forma com que foi originalmente concebida pelos gostos e caprichos de um ser humano, irá morrer.

 Livros ocupam espaço, e uma biblioteca mais ainda. Nem todas as pessoas possuem o mesmo carinho ou apreço por eles. Aliás, não são poucas aquelas que os acham completamente supérfluos. Em breve, os interesses particulares das pessoas se incomodarão pela existência de uma série de livros dispostos de forma criptográfica em alguma prateleira, e será inevitável destruir tal organização. Os livros serão abruptamente separados, colocados em caixas ou sacolas e, então, descartados. Alguns serão vendidos, provavelmente por valores muito menores do que aqueles que poderiam valer, pois são “livros usados”. Outros serão doados, e quiçá algum encontre um leitor que irá preservá-lo e tratá-lo bem. Não poucos serão destruídos ou queimados. Depois de anos de construção sistemática, de encontros fortuitos em livrarias ou sebos, de ser disposta com paciência como as peças de um dominó, a biblioteca irá se desfazer como se nunca tivesse existido. Livros que andavam lado a lado serão divididos. Passarão a enfrentar a umidade e o calor excessivo, perderão páginas, irão se esmaecer e até mesmo ficarão velhos e sem serventia.

 Um livro pode ser um objeto imortal, mas bibliotecas não são. No entanto, nunca morrem por completo, elas somente se redesenham e sobrevivem. Existe, ainda, uma forma deliciosa de “morte”, quando duas pessoas se amam e suas bibliotecas se combinam em uma alegre pororoca, encontrando livros repetidos, que deverão ceder espaço para somente um exemplar. Na soma de bibliotecas, existe também amor e perda.

Talvez não da forma com que as bibliotecas foram originalmente distribuídas, mas parte dos livros descartados encontrará outros donos e travará contato com outras visões de mundo espelhadas pelas prateleiras de lugares diferentes. Assim como na teoria da evolução de Darwin, somente alguns exemplares sobreviverão, e existe uma definição de livro clássico a nos espreitar nesta ideia: clássico é aquele livro que sobrevive apesar da morte das bibliotecas. Aquele cuja história faz com que ele se equilibre nas mais diferentes prateleiras, oscilando entre os mais opostos donos. Os livros clássicos são aqueles que melhor sobrevivem aos leitores; a ideia de permanência não se relacionaria com o drama humano exposto nas páginas, mas com a capacidade do livro de conseguir fugir da destruição inevitável que cerca cada objeto existente no planeta.

A ideia de que bibliotecas morrem e renascem várias vezes – inclusive por obra e graça do próprio dono, que descarta livros não mais necessários ou necessita fazer uma seleção de livros importantes acaso vá morar em um lugar menor – encontra paralelo com a visão de Sêneca. Para o filósofo romano, cada leitor pode escolher o livro que quiser e formar o próprio passado. A biblioteca não é algo fixo e invariável, mas uma referência fluida passível de ser alterada a qualquer momento, assim como o eram as genealogias na época de Roma. Em tal contexto, uma biblioteca nunca morrerá, mas viverá outras possibilidades de reinventar o passado dos seus leitores. Talvez o livro hoje comprado para um trabalho acadêmico, em outra encarnação da sua existência, seja o livro que declarará de forma sutil o amor trôpego de um adolescente para uma mulher mais velha e, em outra ainda, seja o primeiro livro degustado por um analfabeto de meia idade ou, então, o objeto necessário para apoiar uma mesa bamba.

Não quero deixar os meus livros perdidos como o gato de Szymborska, procurando o dono no apartamento deserto. Não acho justo que sejam condenados à diáspora assim que faltar o elemento que lhes dá liga, ou seja, eu mesmo. Algumas bibliotecas afortunadas são transferidas de forma integral para outra pessoa, que será capaz de lhes dar tanto carinho quanto o dono ausente, o que espero acontecer com a minha biblioteca pessoal, tanto que tomei providências neste sentido. Os meus livros são amigos que me ajudaram a ultrapassar problemas, fases da vida e muitas dúvidas, não é justo que os abandone depois da minha hora final. E, assim, retorno à resposta que dei para a pergunta do que acontece com as bibliotecas depois que seus donos morrem: elas explodem em livros, os quais, da mesma forma que sementes, darão início a novas bibliotecas. Esta é a verdadeira Biblioteca de Babel – a ideia de que não possuímos bibliotecas, mas são elas que possuem humanos a quem ajudam de vez em quando.


*Gustavo Melo Czekster é advogado e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS.

Continua...

Gato num apartamento vazio


Wisława Szymborska*

Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há-de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.
Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.
Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.
Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.
Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direção a ele
como que contrariado,
devagarinho,
com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.


(Tradução do poeta português Manuel Antônio Pina)


*Wisława Szymborska (Kórnik, 2 de Julho de 1923 – Cracóvia, 1° de fevereiro de 2012) foi uma escritora polonesa. Destacou-se como poetisa com uma obra que tem como tema as vicissitudes da Polônia moderna. Emprega uma linguagem simples e coloquial. Recebeu o Nobel de Literatura de 1996.


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