domingo, 2 de agosto de 2015

Torres malditas



Igreja da Dores - 1908

A igreja de Nossa Senhora das Dores, a mais antiga da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional desde 1958. O lançamento de sua pedra fundamental ocorreu há cerca de duzentos anos, em 02 de dezembro de 1807, no alto da então praia do Arsenal, na Rua da Praia, mas sua construção demandou quase um século, ou cerca de 100 anos, pois somente em 1906 foi erguida a última torre do templo, ficando para o ano seguinte a conclusão da longa escadaria que dá acesso a ele.

Essa demora deu origem a uma lenda, e foi inspirado nela que Afonso Morais escreveu e publicou o livro denominado “Torres Malditas”, romance onde no início do texto o autor afirma que ninguém melhor que ele para discorrer sobre o acontecido, já que participara indiretamente do mesmo. Na obra mencionada, Afonso relata que um amigo seu, de nome Rafael, apaixonou-se por certa jovem chamada Corina, que lhe pediu, como prova de amor, o belo colar de brilhantes que adornava a imagem de Nossa Senhora das Dores, na igreja a ela consagrada. A princípio Rafael recusou-se, mas depois, convencido e empurrado pelas promessas que a amada lhe fazia, ele entrou furtivamente na igreja, apossou-se da jóia e a entregou à namorada.

Descoberto o roubo, a culpa foi imediatamente atribuída a um pedreiro negro de nome José, escravo cedido por seu patrão para ajudar nas obras de construção da igreja, e depois disso, diante da incriminação que se tornou generalizada, o pobre acusado foi preso e condenado a morrer na forca pelo grave delito que supostamente cometera. Nesse meio tempo, Rafael, o verdadeiro ladrão, decidiu que deveria confessar sua culpa a fim de evitar que se consumasse a tremenda injustiça já com data marcada para acontecer, mas Afonso Moraes garante em seu livro que foi dele o empenho para evitar que isso acontecesse. Dessa forma, na data marcada, o escravo José e outro condenado foram levados por uma escolta ao pé de uma árvore existente na Praça da Harmonia, escolhida pelas autoridades como local do patíbulo.

Segundo a lenda, no momento em que ia colocar a corda no pescoço do escravo José, o carrasco lhe perguntou se ele sabia que o seu enforcamento era devido ao roubo do colar, e o sentenciado respondeu: – “Vou morrer porque sou escravo, mas sou inocente, e a prova disso é que as torres da igreja de Nossa Senhora das Dores hão de cair três vezes, e nunca ficarão completamente prontas”.

Mas acabou sendo executado, conforme mandava a lei local, e cinco meses depois desse fato, de acordo com registros da época, as duas torres da igreja, já quase concluídas, tombaram praticamente ao mesmo tempo, sem que ninguém esperasse por isso, o que de imediato trouxe à lembrança do povo as últimas palavras do escravo. A partir daí a crença popular provocou uma reação de temeridade tão grande que chegou a acarretar, segundo os comentários, a extinção da pena de morte em todo o Brasil, decretada por D. Pedro II para evitar que outras pessoas corressem o risco de perder a vida injustamente.

Outra versão sobre esse episódio conta que Domingos José. um senhor de muitos escravos, decidiu certo dia que um deles, chamado Josino, trabalharia nas obras de construção da igreja. Certo dia, porém, descobriu-se que tijolos e outros materiais de construção haviam desaparecido misteriosamente, e o referido escravo foi acusado por seu senhor da autoria desse sumiço. O pobre coitado jurava de pés juntos que era inocente, mas como naquele tempo a palavra dos cativos não tinha valor algum quando confrontada com a dos seus donos, a proclamação de inocência não foi sequer ouvida e o infeliz acabou sendo condenado a morrer na forca. Inconformado, ele rogou uma praga que provaria ser verdadeira a sua afirmação, pois o castigo do céu pela crueldade que o fariam passar seria a de que o seu senhor não conseguiria ver a conclusão das obras de levantamento das torres da igreja. Quando em 1904 o último andaime da obra finalmente foi retirado, Domingos José já não mais vivia.

Na verdade, as interrupções no andamento dos trabalhos de construção, motivadas por falta de dinheiro e alguns acidentes, levaram os supersticiosos a acreditar nessa lenda. O que realmente aconteceu foi que em determinado período a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora das Dores enfrentou dificuldades financeiras por motivos diversos, entre eles o início e desdobramento da Revolução Farroupilha. Quando em 1898 o padre Fernando Gigante assumiu a paróquia e suspendeu os serviços religiosos, seus membros reagiram reativando a irmandade.

O padre C. J. Papen, em seu resumo histórico sobre a igreja, publicado em 1979, afirma que “Enquanto, no século passado, a conclusão do templo dependia dos esforços dos escravos, subjugados e explorados por seus senhores, não se chegou a um êxito feliz. Mas, uma vez abolida a escravidão no fim do século 19, e todos unidos num trabalho espontâneo e livre, conseguiu-se acabar a obra. Parece ser essa a lição da lenda do escravo”.


Desenho de João Faria Vianna



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