segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O enxoval de Dorinha

Edson Ubaldo*


Tempos brabos aqueles, de preconceito, intolerância e hipocrisia. De um lado, os coronéis devassos impondo condutas puritanas a seus dependentes, como forma de dominação. De outro lado, os frades italianos e alemães, que a cada seis meses apareciam para dizer missa, batizar e ameaçar com o fogo do inferno os camponeses crédulos e analfabetos. Nenhum deslize era perdoado no âmbito daquela rígida moral. Mulher adúltera o marido obrigava-se a matar. Filha solteira deflorada tinha de suicidar-se ou ir para a zona de meretrício, caso o cúmplice não reparasse o mal pelo casamento. Dorinha optou por esta última alternativa. Pegou carona num caminhão de serraria e desembarcou na entrada sul de Lages, com sua trouxinha de poucos teres.

Do Cemitério Cruz das Almas até a Curva da Morte, quase todas as casas eram bordéis. Havia para todos os gostos e orçamentos. Do mais humilde peão ao mais abastado fazendeiro, todos saíam bem servidos e faceiros. Nos salões mais finos e nos desvãos das chinas mais bonitas, muitos pinhais, fazendas e tropas de boi foram enterrados.

Insegura, aflita, morta de medo, Dorinha iniciou sua caminhada para o desconhecido.

Com seus cento e trinta quilos refestelados sobre uma cadeira de balanço, Nega Tonha tomava mate com suas “meninas” no varandão. Ao ver aquela caboclinha agarrada à trouxa, com olhar de ovelhinha medrosa, o olho clínico da veneranda cabaretière não se enganou.

— Vem cá, minha filha, conte pra nós o que te aconteceu.

Dorinha hesitou diante das desconhecidas, mas Nega Tonha, com sorriso maternal e contagiante simpatia, infundiu-lhe confiança. Entrou, tomou chimarrão, ganhou café com bolo frito e contou seu drama aos prantos. O filho do fazendeiro para o qual seu pai trabalhava tinha-lhe arrebentado as tramelas algumas semanas antes. Ela não queria dar, mas ele era bonito e prometeu-lhe casamento.

Fiada na promessa do moço, contou o sucedido à mãe, que contou ao pai, que foi falar com o patrão. Este mandou o filho pra cidade e passou uma descompostura no agregado. Que cuidasse melhor de suas filhas, ou será que achava pouco aquela galinhazinha sem-vergonha haver seduzido o piá? Ponha-se no seu lugar, homem!

Morto de vergonha, o pobre agregado voltou para casa e aos gritos de “cadela”, “puta rampeira”, “vagabunda”, baixou a soiteira nas costas morenas de Dorinha, até fazer sangue. Por isso ela fugira, e ali estava necessitada de socorro e proteção. Nega Tonha já ouvira essa história dezenas de vezes ao longo de sua bem sucedida carreira. Sabia como lidar com essas situações. Primeiro fez a menina acalmar-se e tomar confiança. Depois lhe explicou as vantagens e inconveniências da profissão. Apesar de seus dezessete anos e dos poucos meses de escola, que mal lhe permitiam assinar o nome, Dorinha mostrava interesse e capacidade de absorver as lições. Humilhada pela violenta surra, não pretendia voltar para casa. Estava decidida a ser puta, e das boas. Um dia ainda haveria de vingar-se daquele safado que a enganara de maneira tão miserável. Nega Tonha mandou recado para seus fregueses mais importantes, como sempre fazia quando chegava mercadoria nova. Estabeleceu a ordem das visitas segundo a posição econômica, política e social da clientela. O preço seria alto, pois a menina ainda nem tinha cicatrizado as sobras dos tampos. Para Dorinha, detalhou que ela precisava de roupas boas, sapatos de salto, maquiagem, trens de cama e outros apetrechos próprios do ofício. Mas isso custava dinheiro e tinha de ser adquirido aos poucos, com o produto do trabalho.

Uma semana depois, Nega Tonha marcou a “inauguração” de Dorinha, a ser procedida por um velho e generoso freguês. Duas cubas-libres, algumas apalpações e foram para o quarto. Muito acanhada e inexperiente, mas decidida a vencer na profissão, Dorinha fez seu primeiro michê. O velhote não incomodou muito, pois tinha ejaculação precoce. Logo caiu para o lado e perguntou:

— Minha filha, você tem aí um faxineiro pra enxugar as partes?

Ao que Dorinha respondeu:

— O senhor me desculpe, mas faz pouco tempo qu’eu emputeci e ainda não tenho todo o enxoval de metelança.


* Desembargador aposentado, cadeira n 12 da Academia Catarinense de Letras


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