quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O segredo do Pajé



Um dia o pajé me chamou a sua oca. Entrei. Fui recebido com esta pergunta:

– Tibicuera, qual é o maior bem da vida?

A coragem – respondi sem esperar um segundo.

– Só a coragem?

Embatuquei. O pajé ficou sorrindo por trás da fumaça do cachimbo. Gaguejei!

– A... a...

O feiticeiro me interrompeu:

– O pajé é corajoso. Mas que vale isso? Seu braço não pode levantar o tacape, seus pés não mais força para correr.

– Oh! – exclamei – Mas tu és poderoso, sabes de remédios para todas as dores, consegues com tuas mágicas.

O pajé continuou a sorrir. Sacudiu a cabeça:

–Ilusão  –disse.

Depois de fazer um silêncio curto tornou a falar:

– O maior bem da vida é a mocidade. Um dia Tibicuera fica velho. Atirado na oca, fazendo rede. Não pode mais ir para a guerra. O jaguar urra no mato e Tibicuera não tem força para manejar o arco. Tibicuera é mais fraco que mulher.

Escancarou a boca desdentada. Eu escondi o rosto nas mãos para não enxergar o fantasma da minha velhice.

– Pajé... Tibicuera não quer ficar velho. Ensina-me um remédio para vencer o tempo, para vencer a morte. Tu que sabes tudo, que viste tudo, que falaste com o grande Sumé.

O pajé continuava a me olhar com os olhos espremidos. Bateu na testa com o dedo indicador da mão direita...

– O remédio está aqui dentro, Tibicuera. Não há feitiçaria. O pajé gosta de ti. Ele te ensina. O tempo passa, mas a gente finge que não vê. A velhice vem, mas gente luta contra ela, como se ela fosse um guerreiro inimigo. Os homens envelhecem porque querem. Só muito tarde é que compreendi isso. Tibicuera pode vencer o tempo. Tibicuera pode iludir a morte. O remédio está aqui. – Tornou a bater com a vara na testa – Está no espírito. Um espírito alegre e são vence o tempo, vence a morte. Tibicuera morre? Os filhos de Tibicuera continuam. O espírito continua: a coragem de Tibicuera, o nome de Tibicuera, a alma de Tibicuera, o filho é a continuação do pai. E teu filho terá outro filho e teu neto também terá descendentes e o teu bisneto será bisavô dum homem que continuará o espírito de Tibicuera e que portanto ainda será Tibicuera. O corpo pode ser outro, mas o espírito é o mesmo. Eu te digo, rapaz, que isso só será possível se entre pai e filho existir uma amizade, um amor tão grande, tão fundo, tão cheio de compreensão, que no fim Tibicuera não sabe se ele e o filho são duas pessoas ou uma só.

Eu olhava para o pajé, mal compreendendo o que ele me ensinava. O feiticeiro falou até madrugada alta. Quando voltei para minha oca fiquei longo tempo olhando meu filho que dormia na rede.

E eu me enxerguei nele, como se a rede fosse um grande espelho ou a superfície dum lago sereno.

(“As Aventuras de Tibicuera”, de Érico Veríssimo)


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