sábado, 26 de setembro de 2015

O Último Baile do Império


A Ilha Fiscal

A Ilha Fiscal estava logo ali, com seu belo palácio recém-construído, com seu estilo mourisco aos moldes de outros majestosos que existem na região do Alverne, na França.

Foi escolhido o posto de vigilância aduaneira, inaugurada depois de 7,5 anos de obras em abril de 1889, à entrada da Baía de Guanabara, 200 metros do centro do Rio de Janeiro - que ficava numa ilha, pelo povo conhecida como "Ilha dos Ratos".

Aquele sábado, 09 de novembro de 1889 (em 2015, 126 anos), marcaria para sempre nossa história.

Na parte superior do castelo, após subir uma escada em caracol com 38 degraus e revestida em cantaria podemos vislumbrar a sala onde foi realizada a troca de bandeiras entre Chile e Brasil.

A sala é ricamente ornada com vitrais ingleses, que retratam de um lado D. Pedro II e, do outro a Princesa Isabel, ladeados por brasões, além do belíssimo piso confeccionado em parquet.

Banquete

À Mesa:

1.300 frangos, 500 perus, 300 pernis de presunto, 64 faisões, 18 pavões, 800 kg de camarão, 800 latas de trufas, 1.200 latas de aspargos, 20.000 sanduíches, tudo decorado com legumes, flores e frutas.

Sobremesa:

14.000 sorvetes, 2.900 bandejas de doces sortidos.

O cardápio servido nessa única noite, destacando a exuberância dos pratos, ornados com flores e frutas exóticsa, que em tudo combinavam com o estilo mourisco da Ilha Fiscal.

Por essas mesas, passou um desfile monumental de iguarias que daria para alimentar um exército. Republicano, naturalmente.

À meia-noite, os arautos soaram as trombetas anunciando que a mesa estava posta. Foi a correria. Comilança desenfreada. O comportamento dos convidados deixava a desejar. A Família Imperial viu-se obrigada a deixar a Ilha pouco depois da sobremesa.

Cartas de Vinhos e Bebidas

Foram cometidos alguns excessos nas bebidas.

As notícias dizem que foram consumidas milhares de garrafas de vinhos de diversas procedências, prevalecendo os do Porto e Algarve (Portugal).

Isso significa de duas a três garrafas para cada convidado, fora o champagne. 300 caixas de champanhe francesa.

As Bebidas oferecidas:

258 caixas de vinho (Château d'Yquem, Château Lafitte, Château Duplessis, Chablis, Liebfraumilch, Madère Rouge, Marsala, Lacrima Christi), 300 de champanhe (Veuve Clicquot, Luis Röederer), 10.000 litros de cerveja e licores a fartar.

Música

Seis bandas foram contratadas para o baile, uma foi colocada no convés do cruzador Cochrane que estava ancorado na ilha.

Na época, a execução das canções ficava por conta das bandas imperiais, em sua maioria militares.

As partituras eram editadas com requinte pela Casa Buschman e Guimarães, responsável pela publicação do Hino Chile-Brasil, composto por Francisco Braga, para saudar a tripulação do navio Almirante Cochrane.

O som de fundo era feito com trechos de óperas de Verdi, Boccherini, Waldteufel, Metra e Auber.

O Baile



Baile da Ilha Fiscal -Francisco Figueiredo
(Museu Histórico Nacional)


O Imperador e a Imperatriz chegaram ao salão principal, perto das 22h.

Quando a princesa Isabel e o conde D'Eu chegaram, às 23h, começaram as danças (dizem que a Princesa era um pé-de-valsa, e muito se divertiram), que foram interrompidas à meia noite para a ceia, a qual foi farta.

Abatido, o Imperador permaneceu afastado, quase anônimo, enquanto o presidente do Conselho de Ministros, Affonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, fazia as honras.

O Imperador só se levantou para dançar uma única vez, com a filha do Barão Sampaio Vianna, que completava 15 anos.

O ministro chileno, Manoel Villamil Blanco e o comandante Banem, do navio Almirante Cochrane, levantaram vivas e moções de solidariedade ao governo brasileiro e ao imperador.

A maioria dos convidados preferiu ficar do lado de fora, já que o palácio era pequeno para tanta gente.

Depois da 01h da manhã recomeçaram as danças, sendo que a Família Imperial logo se retirou, prosseguindo a festa até as 06h de domingo.

A valsa e a polca foram as músicas predominantes no Baile da Ilha Fiscal, segundo o pesquisador Carlos Sandroni.

Os cartões de dança das mulheres, que foram encontrados na Ilha Fiscal após o baile, junto com ligas e espartilhos, revelam que a "pièce de résistance" foi uma sequência alternante em três tempos:

Fantasia, valsa, minuano, valsa, fantasia, valsa. (Os cartões são uma das curiosidades guardadas no Arquivo Nacional. Neles, as damas anotavam os nomes dos cavalheiros com quem haviam se comprometido a dançar).

Dançavam-se em seis salões. A maior parte das danças ocorreu fora do palácio, pois não cabiam nele mais do que setenta casais dançando. Pelos salões desfilou a fina flor da aristocracia, da oficialidade e da sociedade cariocas.

O Fim do Baile

Em 10 de novembro de 1889, no amanhecer, os convidados deixam a Ilha Fiscal, terminado o último Baile do Império.

A Conta

O imperador D. Pedro II não gostou do que viu e ouviu. Menos ainda quando teve que pagar a conta de 250 contos de réis - equivalente a 10% do orçamento anual do Rio de Janeiro.

Recursos Financeiros

A festa custou em torno de 250 contos de réis, quase 10% do orçamento previsto para a província do Rio de Janeiro naquele ano.

Dizem as “más línguas” que este dinheiro estava destinado ao auxílio de vítimas da seca no Ceará. “Cem contos de réis estavam guardados nos cofres do Ministério da Viação e Obras Públicas jamais chegariam ao Ceará. Os flagelados da seca que assolava o sertão tiveram que esperar”.

E quanto valeria esta quantia nos dias de hoje?

Adotando duas metodologias diferentes obtivemos um valor estimado entre 650 mil e 1,2 milhões de Reais.

- Método 1 : Projeções da inflação entre 1902 e 2008.
- Método 2: Conversão da moeda vigente para ouro.

É bem verdade que, na corrida aos cofres públicos para organizar festas suntuosas para os oficiais chilenos, Ouro Preto e as hostes monárquicas não estiveram sozinhos.

Sabe-se de pelo menos um caso de corporação do Exército – a da Fortaleza de São João – que, não desejando ficar atrás da Marinha nas homenagens aos oficiais do Almirante Cochrane, pediu e obteve verbas do governo imperial para organizar seu ágape. “O tenente-coronel Leite de Castro me escreveu pedindo 1 conto de réis e eu o atendi prontamente”, diz o Visconde de Ouro Preto.

         A Conta: 

O dinheiro reservado para a Seca no Nordeste pagou as primeiras contas: 50 contos, foi parar na conta bancária da Confeitaria Paschoal, a preferida da Casa Imperial; 24 contos de réis serviram para pagar o pessoal que trabalhou naquela noite: três chefs, 150 garçons e um exército de cozinheiros, ajudantes e serviçais da limpeza; 26 contos de réis foram empregados na decoração, incluindo dois gigantescos candelabros de prata e 24 pavões empalhados, que adornavam os cantos das mesas.

O Escândalo

A imprensa dividiu-se em seus relatos, preocupou-se em divulgar o Baile e não o Golpe de Estado seis dias após, mas foi um grande acontecimento.

As peças íntimas que foram encontradas na ilha após a festa, foram motivo de escândalo quando noticiados pelos colunistas das revistas femininas do século XIX, entre essas revistas, a “Eu Sei Tudo” revelava que: “A Coroa não era tão casta como pressupunham os seus súditos”.

O jornal Tribuna Liberal, na sua edição de 10 de novembro de 1889, falou do: “Brilho e o ruge-ruge das sedas, os colos salpicados de brilhantes, safiras, esmeraldas e os diademas rutilantes dos penteados”.

O colunista Desmoulins, do Correio do Povo, por sua vez, citou o mau gosto a que se entregaram muitos dos convidados. Criticou ainda os homens que, no salão, mantinham seus chapéus ingleses do Wellicamp e do Palais Royal enfiados na cabeça.

O cronista social da Gazeta de Notícias descreveu com detalhes 74 trajes das damas presentes, numa edição que bateu recordes de espaço e de tiragem.

O jornal publicou também uma descrição detalhada da ceia, anunciada em um menu de 12 páginas, guarnecido com as cores das bandeiras brasileira e do Chile: “Nada menos que 11 pratos quentes, 15 pratos frios, 12 tipos de sobremesas, 4 qualidades de champagne, 23 espécies de vinhos e 6 de licores, num total de 304 caixas destas bebidas e mais dez mil litros de cerveja. Os números da maior comilança de que o país tem notícia relacionam para o preparo de todas essas receitas, o consumo de nada menos que 18 pavões, 25 cabeças de porco, 64 faisões, 300 peças de presunto, 500 perus, 800 quilos de camarão, 800 latas de trufas, 1200 latas de aspargos, 1300 galinhas, além de 50 tipos de saladas com maionese, 2900 pratos de doces variados, 12 mil taças de sorvete, 18 mil frutas e 20 mil sanduíches”.

E o cronista dedicou um espaço especial para as bebidas: “Das 304 caixas de bebidas, 258 eram de vinhos e champagnes”. Ou seja: “Naquela noite, foram consumidas 3.096 garrafas desses maravilhosos fermentados, que compunham uma bateria de 39 rótulos diferentes, com destaque para Porto de 1834 - uma safra preciosíssima - Madeira, Tokay, Château D’Yquem, Château Lafite, Château Leoville, Château Beycheville, Château Pontet-Canet e Margaux”.

A presença marcante do italiano Falerno, nas versões branco e tinto, era uma deferência à imperatriz. Os champagnes não podiam ser melhores: “Cristal de Louis Roederer, Veuve Cliquot Ponsardin e Heidsieck”. Dentre os vinhos alemães, destacavam-se o “Liebfraumilch e o famoso Johannisberg do Reno”.

Um republicano infiltrado no baile, que dias depois publicou suas impressões na Revista Ilustrada, comenta que a certa altura os salões tornaram-se pequenos para o número de convidados: “Para conseguir o espaço necessário às danças, o senhor Hasselmann, guarda-mor da alfândega, teve de suar, não só o topete, mas também o colarinho, de tal modo que este perdeu toda a compostura e tomou o aspecto de uma simples tripa enrolada no pescoço”. No meio do Baile, o Ministro das Relações Exteriores, o Visconde de Cabo Frio, resolveu fazer diplomacia. Ao saber que havia perus no cardápio, ficou preocupado com o que poderia pensar a comitiva do governo peruano. Mandou poupar as aves e escondê-las no porão. A notícia vazou. Um grupo de nobres decidiu aprontar e subornou o dono de uma embarcação, na tentativa de sequestrar os animais.

A polícia deteve os fanfarrões. A imprensa gozou: “A polícia não encontrou os perus no barco, mas descobriu 604 peruas no baile”.

O único negro convidado, o engenheiro André Rebouças, sintetizou em seu diário: “Foi uma bacanal!”.

Republicanos criticaram extravagância

Os Republicanos reclamaram da extravagância, mas estavam lá, aproveitando e tramando, hoje em dia seria considerado “Alta Traição”.

Rio de Janeiro

O luxo e a extravagância dos trajes e cabelos das convidadas do baile da Ilha Fiscal receberam, alfinetadas de republicanos que não faltaram ao baile e aplausos de monarquistas.

O luxo e as extravagâncias que cercaram o desembarque do couraçado Almirante Cochrane, dando lugar a um período denominado “Festas Chilenas”, incentivou a propagação dos ideais republicanos.

A Trama Republicana

Enquanto o baile transcorria, o que os convidados não imaginavam, nem o imperador D. Pedro II, é que tramavam em suas costas.

À mesma hora em que se acendiam as luzes do palacete para receber os milhares de convidados engalanados, os republicanos reuniam-se no Clube Militar, presididos pelo tenente-coronel Benjamin Constant, para maquinar a queda do Império. “Mais do que nunca, preciso sejam-me dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com sua honra e sua dignidade”, discursou Constant na ocasião, tendo como alvo justamente o Visconde de Ouro Preto.

Longe dali, ao lado da Família Imperial, o visconde desmanchava-se em sorrisos ao comandar seu suntuoso festim.

Seis dias depois, o Marechal Deodoro proclamava a República na Praça da Aclamação (hoje, da República) – perto do cais Pharoux, de onde partiram os convidados para o Baile.
Perplexo o povo, nas ruas, comemorou o fim do Império.

No meio dele, estavam também os mesmos oficiais do navio chileno (ainda ancorado na Baía de Guanabara) que teriam sido homenageados pela última grande farra do Império.



Fatos Pitorescos do Baile da Ilha Fiscal

→ Só havia um banheiro para atender as necessidades dos convidados. Os cavalheiros se ajeitavam com facilidade, à beira-mar. Para socorrer as mulheres, apertadas com a cerveja que era servida à farta, a criadagem teve que retornar ao continente para pegar... baldes. Sim, as damas iam para o cantinho, colocavam o balde embaixo do vestido e se aliviavam.

→ Uma lista divulgada, dos despojos encontrados nos salões, na manhã daquele domingo incluía, por exemplo: O baile passou das 6 horas, quando a criadagem recolhia objetos deixados pelos cantos. Entre eles 17 pufes (almofadinhas que realçavam os contornos das madames), nove dragonas de militares, oito raminhos de corpete (usados para esconder o decote dos seios), dois coletes de senhoras e dezessete ligas, dezesseis chapéus, treze lenços de seda, nove de linho e quinze de cambraia

→ Após a saída dos convidados, os trabalhos de limpeza revelaram artigos inusitados espalhados pelo chão: além de copos quebrados e garrafas espalhadas, foram recolhidas condecorações perdidas e até peças de roupas íntimas femininas.

→ “O Paiz” era o principal periódico republicano do Brasil, chegou a vender, em 1890 , 32 mil exemplares. Apesar de atuar como um órgão oficioso do governo, considerava-se independente. Escreveram em suas páginas, entre outros, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, O fato pode, entretanto, ser fictício, uma vez que foi relatado na coluna humorística Foguetes , do periódico carioca no dia 12 de novembro de 1888.

→ Um fato irônico, até hoje não confirmado, ocorreu logo após a chegada da Família Imperial, conta-se que D. Pedro II, ao entrar no salão do baile, desequilibrou-se. Ao recompor-se, exclamou: – O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu!


D. Pedro II em traje de almirante


(Do Blog Império Brasil)

2 comentários:

  1. Excelente!! O Paiz continuou como o JB, agora de oposição; os clientes da Pascoal foram aos poucos para a Colombo. Os Reis do Café assumiram o comando. Com o tempo, o poder econômico não quis dividir o poder com militares e intelectuais, a capital mudou junto com o capital. O Brasil se aburguesou e perdeu a capacidade de reflexão.

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