sábado, 31 de outubro de 2015

À mulher de César não basta ser honesta


Por Adriano Enivaldo de Oliveira (1)


Não há frase de Caio Júlio César mais repetida em nossos tempos do que “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

A expressão do século I antes de Cristo cruzou milênios e tem sido aplicada às situações diversas, desde as relações amorosas até a higiene de restaurantes. Os motivos do tempo e da generalização são bastante para justificar uma reflexão sobre a frase, seu autor e seu contexto. 

O autor da frase é um dos homens mais conhecidos da História. Jurista (2), orador (3), sacerdote (4), escritor (5) general (6) e político (7), César era muito famoso, também, pelos casos amorosos que mantinha com as esposas de seus adversários políticos.

Por haver sido acusado falsamente, na juventude, de ter tido relação homossexual com o rei Nicomedes, a fim de garantir o apoio da Bitínia em uma empreitada romana – mentira explorada por seus adversários durante décadas – César seguiu o conselho da mãe, Aurélia, de responder a estes adversários seduzindo suas esposas de modo público e notório. O que fazia com reconhecido êxito.

Delineado infimamente alguns traços de César, é preciso esclarecer que teve várias esposas (Cornélia, Pompeia, Calpúrnia), razão pela qual temos duas versões sobre a origem da frase.

A primeira versão teria ocorrido com a esposa Pompeia, durante a festa da deusa romana Bona Dea. Durante à noite dessa festividade os homens não podiam participar. De acordo com a história um nobre chamado Clódio teria se disfarçado de mulher para tentar se aproximar e seduzir a bela Pompeia. Descoberto e preso, foram ambos (Pompeia e Clódio) inocentados da acusação. Mesmo assim César se separou da mulher afirmando que ela era inocente, mas que sua imagem pública ficaria maculada se sua esposa, além de honesta, não parecesse honesta.

A segunda versão teria sido com a esposa Calpúrnia. De acordo com a história César, que mantinha um caso amoroso com Cleópatra em Alexandria, teria encarregado um aliado de voltar a Roma e espalhar o boato de que Calpúrnia o estava traindo.

Ao argumento do aliado de que isso era mentira César foi enfático na ordem para espalhar o boato. Alguns meses depois, retornando a Roma, César entrou em casa, chamou pela esposa e disse-lhe que queria o divórcio. Tendo Calpúrnia indagado o motivo disse-lhe: “porque dizem que estás me traindo”. A esposa fiel argumentou que isso era não era verdade. Como resposta recebeu a afirmativa que “à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”.

Independe de qual versão seja a verdadeira o caso mostra duas facetas. A verdade, mesmo conhecida, foi ignorada em prol das aparências; e os motivos que geraram a frase foram indignos.

Num mundo que supervaloriza a imagem e as aparências – embora com certa hipocrisia pregue que “o ser” é mais importante que “o parecer” – facilmente se explica porque a frase ganhou popularidade. Oxalá aqueles que a empreguem no futuro saibam, ao menos, que estão valorizando as aparências em detrimento da verdade.

*****

(1) Juiz federal e professor universitário.

(2) Foi o pretor urbano em Roma.

(3) Cícero o considerava um dos melhores oradores.

(4) Foi flamen dialis (sacerdote especial de Júpiter) e o Pontífice máximo (chefe da religião romana).

(5) A Guerra das Gálias e a Guerra Civil, são suas obras mais famosas.

(6) Foi aclamado imperator, que significa general vitorioso.

(7) Ocupou postos como cônsul e ditador.


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