sábado, 24 de outubro de 2015

Augusto Monterroso – Fábulas



(Tegucigalpa, 21 de dezembro de 1921
– Cidade do México, 7 de fevereiro de 2003),

Augusto Monterroso foi um escritor latino­-americano de origem hondurenha. Fez parte do grupo de autores sul­-americanos conhecidos a partir do Boom Literário da década de 60 e 70. Por sua obra ser formada apenas por contos, não atingiu a celebridade dos outros integrantes romancistas ­ como Garcia Marquez e Vargas Llosa. No entanto, seu conto “O Dinossauro” tem a fama de ser o menor conto do mundo, abrindo espaço para o gênero de mini­conto:

Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá.

Seus contos são, na maioria dos casos, bem curtos -­ de um a três parágrafos -­ o que faz sua leitura ter um ritmo a partir de frases breves e repetição do tratamento de temas recorrentes em sua obra. Seu livro A Ovelha Negra e outras Fábulas publicado pela Cosac Naify no Brasil ­ contém fábulas que subvertem a regra do gênero de “moral da história” a transformando em imoralidade subjetiva. Os dois contos aqui publicados foram retirados dessa edição, com tradução de Millôr Fernandes.

O Raio que caiu duas vezes no mesmo lugar


Houve uma vez um Raio que caiu duas vezes no mesmo lugar; porém achou que na primeira tinha feito estrago suficiente, que já não era necessário, e ficou muito deprimido

O Macaco pensa nesse tema


Por que será tão atraente ­ pensava o Macaco noutra ocasião, quando deu com a literatura ­ e ao mesmo tempo tão sem graça esse tema do escritor que não escreve, ou daquele que passa a vida se preparando para produzir uma obra-­prima e pouco a pouco vai se convertendo em um mero leitor mecânico de livros cada vez mais importantes, mas que na verdade não lhe interessam, ou o recorrente (o mais universal) daquele que quando aperfeiçoou um estilo descobre que não tem nada a dizer, ou o daquele que quanto mais inteligente é, menos escreve, enquanto à sua volta outros talvez não tão inteligentes como ele e a quem ele conhece e despreza um pouco publicam obras que todo mundo comenta e que o efeito às vezes até são boas, ou o daquele que de alguma forma conseguiu fama de inteligente e se tortura pensando que os amigos esperam dele que escreva alguma coisa, e o faz, com o único resultado de que os amigos começam a duvidar de sua inteligência e de vez em quando se suicida, ou o daquele idiota que se julga inteligente e escreve coisas tão inteligentes que os inteligentes se admiram, ou o daquele que nem é inteligente nem idiota nem escreve nem ninguém conhece nem existe nem nada.

(Revista Usina)

A girafa que compreendeu logo que tudo é relativo


Augusto Monterroso

Faz muito tempo, em um país distante, vivia urna Girafa de estatura regular, mas tão descuidada que uma vez saiu da Selva e se perdeu.

Desorientada como sempre, se pôs a caminhar às tontas e à maluca daqui para lá, e por mais que se agachasse para encontrar o caminho, não o encontrava.

Assim, deambulando, chegou a um desfiladeiro onde nesse momento acontecia uma grande batalha.

Apesar das baixas serem muito altas em ambos os lados, nenhum estava disposto a ceder um milímetro de terreno.

Os generais arengavam suas tropas com as espadas no alto, ao mesmo tempo que a neve ficava manchada de púrpura com o sangue dos feridos.

Entre o fumo e o estrépito dos canhões se viam caindo sem vida os mortos de um e outro exército, com tempo apenas para recomendar sua alma ao diabo; porém os sobreviventes continuavam disparando com entusiasmo até que a eles também chegava sua vez e caíam com um gesto estúpido que porém na queda acreditavam que a História iria recolher como heroico, pois morriam para defender sua bandeira; e realmente a História recolhia esses gestos como heroicos, tanto a História que recolhia os gestos de um como a que recolhia os gestos de outro, já que cada lado escrevia sua própria História; de modo que Wellington era um herói para os ingleses e Napoleão era um herói para os franceses.

Enquanto isso, a Girafa continuou caminhando, até que chegou a uma parte do desfiladeiro em que estava montado um enorme Canhão, que nesse preciso instante fez um disparo exatamente uns vinte centímetros acima de sua cabeça, mais ou menos.

Ao ver a bala passar tão perto, e enquanto seguia com avista sua trajetória, a Girafa pensou:

“Que bom que eu não sou alta, pois se meu pescoço me disse mais trinta centímetros essa bala tinha me arrebentado a cabeça; ou bem, que bom que esta parte do desfiladeiro onde está o Canhão não é tão baixa, pois se medisse trinta centímetros menos a bala também tinha me arrebentado a cabeça. Agora compreendo que tudo é relativo.”

Augusto Monterroso




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