sexta-feira, 23 de outubro de 2015

“Transbording”

Luis Fernando Veríssimo


Triste o país que tem vergonha da própria língua.

Fico pensando num corretor de imóveis tendo que mostrar, para compradores em potencial, um apartamento no edifício Golden Tower, ou similar, em algum lugar do Brasil.

‒ Isto é o que nos chamamos de “Entrance”.

‒ “Entrance”?

‒ Ou “Front door”. Porta da frente.

‒ Ah.

‒ Aqui temos o “Living Room” e o “Dining Room” conjugados. Ou “conjugated”. Por aqui, a “gourmet kitchen”.

‒ “Kitchen” é…?

‒ Cozinha, mas nós não gostamos do termo. Isto aqui é interessante: é o que chamamos de “coffee córner”, onde a família pode tomar seu “breakfast” de manhã. A “gourmet kitchen” vem com todos os “appliances”, e o prédio tem uma “smart laundry” comunitária.

‒ O que é “smart laundry”?

‒ Não tenho a menor ideia, mas é o que está escrito no “flyer”. E passamos para o “corridor” que leva ao “master bedroom”, ou “suíte”, em português. As camas podem ser “king Size” ou “Queen Size”. Aqui temos o “closet”, que em português também é “closet”. E aqui temos esta “giant window” que dá para o “garden” do prédio, e o “playground”. Você tem “kids”?

‒ O quê?

‒ “Kids”. Crianças.

‒ Ah. Não.

‒ O “garden” também tem uma “green walk”, que é uma trilha para passear entre as “trees and tropical plants”, e um “infinity pool” que é uma piscina que parece que está sempre transbordando, ou “transbording”. Além disso, claro, existe “umindoor pool”, que faz parte do “fitness center”. Ah, e se comprarem o apartamento vocês automaticamente passam a fazer parte do “Party Club”, onde tem um “barbecue pit”.

‒ “Barbecue pit”?

‒ Churrasqueira. E podem usar o “Working Hub”, que eu também não sei o que é, mas com esse nome só pode ser coisa fina.

‒ E a segurança...?

‒ Garantida dia e noite, ou “twenty-four/seven”.

‒ Porteiro?

‒ Sim, mas não chamamos de porteiro. Ele é um “hall concierge”.

‒ Tudo ótimo, mas não sei se vamos comprar o apartamento.

‒ Por que não?

‒ Ter que mostrar o passaporte, sempre, para entrar em casa... Sei não.


(Do jornal Zero Hora, de 21.05.2015)


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