sábado, 5 de dezembro de 2015

O gigante do Rio Grande do Sul



A exemplo da Ucrânia, pátria do homem mais alto do mundo, o Rio Grande do Sul também já teve o seu "gigante": Francisco Ângelo Guerreiro, nascido em 1892, que tinha 2,17m e calçava botas número 56 aos 21 anos de idade. Sua existência é lembrada pelo acervo do Museu Júlio de Castilhos, que guarda um par de botas do grandalhão. Sobre ele, o site da instituição registra:

“Francisco Ângelo Guerreiro, o Gigante, nasceu em 17 de julho de 1892, provavelmente em Pinhalzinho, atualmente distrito de Nova Palma, no Rio Grande do Sul. Faleceu em 1926, no Rio de Janeiro. São poucas as informações sobre a sua infância. Na juventude, é possível que tenha trabalhado como peão de estância e na construção civil, no interior do município gaúcho de Cruz Alta”.

Segundo depoimento de um irmão, fez parte do Circo Sarrazani. O “Gigante” era exibido numa jaula e cobrava-se 1 mil réis para vê-lo. Há ainda relatos de uma excursão ao Rio de Janeiro, onde se apresentou no Teatro Politeana, contrastando com o anão Rufino.

Sobre sua morte, há inúmeras versões: teria sido vítima de tuberculose, infecção comum aos portadores deste tipo de gigantismo, ou teria sido morto em circunstâncias não esclarecidas, após um ataque de fúria, em função das condições humilhantes a que era submetido no circo.

Aos 21 anos, foi examinado pelo Dr. Annes Dias, que descreveu o caso como 'gigantismo acromegálico'. Segundo o médico: “Em criança era muito fraco, diz que aos oito anos começou a crescer muito; aos quinze anos notou que suas extremidades aumentavam mais rapidamente que o corpo. Não sabe ler. Seu gênio é calmo, acomodatício, sendo muito dócil... cansa facilmente na marcha...”
    
(Do Blog Gaúcha Hoje-RBS)

 As botas do gigante


Por Charles Kiefer

Hoje, em doce flanerie pelo centro da cidade, na companhia de Sofia, depois de comprarmos revistinhas da Mônica e do Cebolinha, resolvemos visitar as botas do gigante, no Museu Julio de Castilhos.

Sempre que posso, visito as botas do gigante. Certa vez, lá se vão anos, li para a Maíra, minha filha mais velha, a história de João e o Pé de Feijão. Como ela ficasse incrédula, levei-a ao museu e mostrei-lhe as botas, como prova irretorquível de que existem gigantes. E hoje, quis repetir a experiência com Sofia, a filha mais nova. Quis mostrar-lhe as botas, que são talvez o objeto mais raro e mais estranho da história do Rio Grande do Sul. Porque as outras quinquilharias do museu são previsíveis, são comuns e encontráveis em qualquer acervo, inclusive em museus particulares no interior. E além do mais, em geral, são objetos heróicos, manchados de sangue, símbolos de nossa intolerância, violência e estupidez. Mas as botas do gigante não. Elas são prosaicas, vivas, inocentes. Elas são curiosas, e provam que aqui viveu uma aberração da natureza, um homem gigantesco. Junto às botas, havia uma foto fantástica, que provava mais uma vez que as botas tinham dono, que não foram feitas por algum sapateiro brincalhão.

Entramos e fomos avisados que não se pode mais visitar aquele par de relíquias. Segundo um funcionário, as botas foram escondidas, não estão mais em exposição, por ordem do diretor.

Perguntei por que e a resposta que ouvi foi esta:

“Por que elas eram muito visitadas... O diretor quer se valorize outras coisas expostas no museu...”.

Ah, entendi... A política cultural do estado-atual-a-que-chegamos é esconder as botas! Economizar talento, economizar gerenciamento, economizar visão pública.

Estou, mais uma vez, literalmente, embasbacado. Em que, mesmo, as botas incomodavam o Museu Julio de Castilhos? Atraíam público? Elaboravam demais o fetiche do tamanho, tão caro ao guasca gaudério? Concorriam em ostroneniecom alguém do governo?

Segundo o mesmo funcionário, as botas atraíam muitos visitantes que, uma vez lá dentro, visitavam outras partes do museu.

Governadora, Vossa Excelência já nos tirou muitas coisas, mas, por favor, devolva-nos as botas do gigante!

Como é que nossos filhos vão acreditar em contos da carochinha, como é que vamos acreditar na política (é mais fácil acreditar em mitos literários, não é mesmo?) se a prova cabal da existência do Pé-de-Feijão foi retirada do museu?
  
(Crônica de 5 de janeiro de 2010)

Tamanho recorde

Natural do Rio Grande do Sul,
homem de 2,17 metros de altura percorreu o país como atração de circo.

Letícia Borges Nedel

Até bem pouco tempo atrás, quem visitasse o Museu Julio de Castilhos, no centro de Porto Alegre, daria de cara com um par de botas tamanho 56 ao lado de objetos que pertenceram a renomados personagens da história gaúcha, como Júlio de Castilhos (1860-1903), Bento Gonçalves (1788-1847) e Getulio Vargas (1882-1954). E não é porque algum desses políticos locais tivesse pés descomunais. As botas pertenceram a um sujeito humilde chamado Francisco Ângelo Guerreiro (1892-1925?), que ficou famoso nas arenas de circo e nos livros de medicina no início do século XX por causa de seus 2,17 metros de altura, que lhe valeram o apelido de “Gigante”.

A exposição de objetos de Guerreiro no museu mais antigo do Rio Grande do Sul (fundado em 1903) tem sido motivo de controvérsia há anos. Em uma “sala de curiosidades” – similar às “câmaras de maravilhas”, de onde surgiram os primeiros museus de História Natural – ficavam o par de botas, as marcas à tinta das mãos e dos pés do Gigante, ao lado de outras de “tamanho normal”, e poucas fotos de sua vida.

A sala fazia a alegria dos visitantes, principalmente das crianças, mas provocava desconforto entre os técnicos do museu, que a consideravam uma “distorção” dentro do acervo. Em 1993, esse espaço foi desativado e seu material levado para a reserva técnica, mas a reação do público foi tão negativa que as botas tiveram de voltar no ano seguinte como parte de uma exposição temporária sobre a vida do Gigante. Elas acabaram retornando às galerias do museu até que, no início de 2007, foram retiradas novamente para serem recuperadas.

A iniciativa de 1993 não foi a primeira tomada por um diretor do museu para se livrar das botas, como contou o historiador Sérgio da Costa Franco em artigo publicado no jornal Zero Hora em outubro de 1989: “A peça que mais atrai a atenção das crianças são as botas do gigante gaúcho, fulano de tal Guerreiro. Um ex-diretor daquela casa já pensou em escondê-las, por não terem maior expressão dentro de um acervo especializado em história e etnologia. Mas a curiosidade dos visitantes infantis, previamente alertada pelos mais velhos, reclamava a exibição das botas colossais, e elas tiveram de voltar ao acervo ativo”.

A enorme atenção que Guerreiro despertou durante sua vida tem muito a ver com o tratamento que era dado no início do século XX a quem tinha alguma deficiência. Embora hoje possa parecer algo marginal e indecente, essas pessoas eram expostas ao público, numa atividade lucrativa, popular e organizada.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os “espetáculos de monstros” eram uma autêntica indústria da diversão até os anos 1940, com um conjunto de técnicas próprias e um corpo de profissionais treinados. Alguns desses “monstros” se tornaram verdadeiras estrelas e tiveram suas fotos publicadas em revistas e cartões-postais.

No Brasil, shows assim eram comuns nas primeiras décadas do século passado, ainda que sem o mesmo nível de organização dos americanos. Guerreiro foi atração de vários deles, em teatros e circos pelo país. Segundo depoimento de um irmão, quando o Gigante morreu, ele fazia parte do elenco do Circo Sarrazani, onde se apresentava em uma jaula ao preço de mil réis. As fotos que estão no museu o mostram na época em que se exibia no Teatro Politeama. Ali ele aparece de braços abertos, tendo abaixo de si homens altos, médios, baixos e anões, numa pose semelhante à dos “gigantes” de shows dos Estados Unidos.

Guerreiro começou a chamar atenção na região onde se acredita que tenha nascido – em Pinhalzinho, atual distrito de Nova Palma, 354 quilômetros a noroeste de Porto Alegre – antes mesmo de completar 18 anos, quando já passava dos dois metros de altura. Moreno, de tipo indígena, tinha braços, pés, mãos e rosto que cresciam desproporcionalmente em relação ao resto do corpo. Ele sofria de uma síndrome chamada acromegalia, que o fazia produzir hormônio do crescimento em excesso.

Nascido em uma família sem posses, Guerreiro perambulou por muitos lugares e empregos, trabalhando como peão de estância, vendedor de lenha e pedreiro. Diz a lenda que sua contratação para trabalhos braçais era disputada por empregadores que achavam que sua força equivalia à de vários homens.

Mas a crença na força do Gigante foi desmistificada pelos médicos que o estudaram. Em suas Lições de Clínica Médica (1921), Heitor Annes-Dias relatava que ele sofria constantemente de mal-estar, desmaios e sensação de fraqueza. Aos olhos desse professor da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, Guerreiro era um ser frágil e dependente, apesar de sua aparência.

Essa impressão foi confirmada por Bruno Marsiaj, catedrático de Anatomia da mesma faculdade. Em Cabeça óssea de um gigante rio-grandense, publicado três anos após a morte de Guerreiro – ocorrida, provavelmente, em 1925 –, o médico divulga seu trabalho de análise dos restos mortais do Gigante e nega que a alta estatura significasse maior força física. Já no primeiro capítulo, o professor Marsiaj afirma que o gigantismo não é sinônimo de saúde nem de vigor, mas somente um desequilíbrio metabólico.

Na literatura médica, eram comuns as referências a pacientes com aberrações e deformidades. Suas anomalias eram expostas para servir de alerta sobre o perigo da “degeneração” moral e também como prova das teses defendidas pelos estudiosos. Mas Annes-Dias e Marsiaj criticam nos seus estudos as “mistificações de leigos” sobre casos do mesmo tipo e condenam toda forma de exposição ou uso público do corpo – a prostituição, o cruzamento racial ou os espetáculos de circo, que escolhiam pessoas com peculiaridades físicas ou habilidades “incomuns” para representar personagens chocantes.

Apesar de julgarem repugnantes as exibições de “gigantes”, “pigmeus”, “mulheres barbadas”, “homens-macacos” e outros personagens, os próprios médicos estavam entre os frequentadores desses espetáculos. É o caso de Annes-Dias, que, comparando Guerreiro a gigantes não acromegálicos, menciona ter conhecido pessoalmente um deles, o alemão Schipper, de 2,39 metros de altura, em uma apresentação em Porto Alegre.

Com o passar dos anos, esse modelo de divertimento entra em declínio, provavelmente por causa do aumento do poder das áreas biomédicas, que passam a responder pelo controle das pessoas com deformidades físicas ou mentais. Guerreiro viveu o início desse processo, mas morreu de tuberculose no Rio de Janeiro, ainda como uma atração de circo.

Cerca de três anos após sua morte, a imprensa gaúcha iniciou uma campanha para recuperar seus restos mortais, que estavam sendo exibidos no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, na então capital do país. A campanha atingiu seu objetivo, e ao publicar sua tese, Bruno Marsiaj dedicou-a “à sociedade sul-rio-grandense, que, cultuando no Rio de Janeiro o tradicional espiritualismo gaúcho, restituiu ao berço os despojos de Guerreiro”.

A partir de então, as botas do Gigante viraram atração do Museu Julio de Castilhos – provavelmente, a mais popular de toda a casa. Sempre havia quem perguntasse “se as botas ainda estavam lá”, referindo-se à sala de curiosidades, lugar de maior concentração de pessoas nas visitas guiadas ao museu. Além das peças de Guerreiro, também ficavam reunidos naquele espaço, de forma desordenada, objetos exóticos, como membros de indígenas mumificados, adornos andinos e animais defeituosos natimortos conservados em formol.

As visitas de estudantes, iniciadas na década de 1940, e o “trem da cultura”, projeto que nos anos 1970 levava parte do acervo ao interior do estado, ajudaram a tornar ainda mais populares os objetos de Guerreiro, principalmente as botas, mostradas de geração em geração.

O interesse despertado pelo Gigante no museu faz pensar que, se o tempo em que o público se divertia vendo pessoas com deficiência sendo expostas já passou, o “diferente” ainda exerce um grande fascínio. E não é por interesse médico ou por pena da anormalidade física, mas, sobretudo, como forma de entretenimento, como ocorria há mais de 100 anos.

Letícia Borges Nedel é coordenadora do Centro de Pesquisa e Documentação da FGV de São Paulo e autora da tese “Um passado novo para uma história em crise: regionalismo e folcloristas no Rio Grande do Sul” (UNB, 2005).

A exposição de pessoas com deficiência era um negócio lucrativo até os anos 1940, principalmente nos Estados Unidos.

Saiba Mais – Bibliografia

PORTER, Roy. “História do corpo”. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992.

SCHWARCZ, Lilia M. O espetáculo das raças. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

WEBER, Beatriz T. “Positivismo e ciência médica no Rio Grande do Sul: a Faculdade de Medicina de Porto Alegre”. História, ciências, saúde – Manguinhos, V(3): 583-601, nov. 1998-fev. 1999.

Saiba Mais – Internet

“Histórias Extraordinárias 2005 – O Gigante de Botas”, produzido pela RBS TV RS, 2008.

www.rhbn.com.br/gigantedebotas

(Do Blog Revista de História)


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