domingo, 20 de dezembro de 2015

Paródias de poemas IV

Parodiar é transformar texto sério em alegre de modo que sirva para outra situação.

Texto sério

Visita à casa paterna

Luís Guimarães Júnior*

Como a ave que volta ao ninho antigo,
depois de um longo e tenebroso inverno,
eu quis também rever o lar paterno,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
o fantasma talvez do amor materno,
tomou-me as mãos – olhou-me grave e terno,
e, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala (oh! se me lembro! e quanto!)
em que da luz noturna à claridade
minhas irmãs e minha Mãe... O pranto

jorrou-me em ondas... Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
chorava em cada canto uma saudade.

*Luís Guimarães Júnior,
Sonetos e Rimas. 3.a ed., Lisboa, Clássica, 1914, p. 11.)

Primeira paródia

Visita ao tesouro

Acácio de Xexas*

Como um’ave que volta ao ninho antigo,
depois de fazer muito desaforo,
eu quis também rever este Tesouro,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio pérfido e inimigo
(era o espectro do Déficit!), num choro,
por entre ratos e gambás em coro,
tomou-me as mãos, e caminhou comigo.

Aqui, outrora... (oh! se me lembro e quanto!)
houve muito dinheiro acumulado!
E hoje, Papai, nem um vintém... O pranto

jorrou-meem ondas... Meu tesouro amado!
Um compadre comia em cada canto,
comia em cada canto um emboscado.

*Acácio de Xexas é o apelido dado, no livro Lira Acaciana (1900), por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Pedro Tavares Júnior a Alberto Torres, presidente do Estado do Rio. Sendo três os autores da obra, ficamos sem saber quem realmente escreveu a paródia.

Segunda paródia

 Visita à casa da sogra

Itamar Siqueira

Como urubu que regressasse ao ninho,
a ver se ainda um bom caminho logra,
eu quis também rever a minha sogra,
o meu primeiro e virginal carinho.

Entrei. Pé ante pé, devagarzinho,
o fantasma, talvez, daquela cobra...
tomou-me as mãos, olhou-me bem, de sobra...
E levou-me para dentro, de mansinho.

Era este quarto, oh! se me lembro, e quanto...
em que, à luz da lua que brilhava,
o pau roncava forte, tanto e tanto,

no costado da gente, sem piedade,
um cacete bem grosso lá no canto...
Minhas costas choraram de saudade...

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