sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Reflexões de Joel Silveira


Joel Silveira, Lagarto, SE, 23 de setembro de 1918 - Rio de Janeiro,
15 de agosto de 2007, foi um jornalista e escritor brasileiro.


Þ  Aborda-me na rua uma pessoa que não conheço:
     - Você é fulano?
     Sem diminuir o passo e já ansiosos para dobrar a esquina, respondo:
     - Fui.

Þ Na fila do cinema, exala a primeira dondoca para a segunda:
     - É como diz meu decorador: além de tomar espaço, livro mente muito.

Þ O Brasil não foi descoberto. Foi achado.

Þ Ninguém pode dizer que foi meu amigo de infância, pois infância nunca tive. Infância teve quem aos quatro anos, cinco anos ganhou um velocípede. O que não aconteceu comigo.

Þ Ouvido sem querer no barbeiro:
   - Mulher para mim tem que ser gordinha. Em mulher magra a mão da gente está sempre escorregando.

Þ - Fulano não gosta de você.
     - Então já são dois.
     - Quem é o outro?
     - Eu.

Þ - No meu tempo era melhor...
     - Errado. No seu tempo você é que era melhor.

Þ De Henry Miller: “Como me enfadam os homens de princípios”.

Þ Pessoa que conheço tem uma teoria no mínimo questionável. Diz ele:
     - Antes de elogiar alguém, conto até dez. Já para falar mal, só conto até cinco.
     E concluiu:
     - No primeiro caso, quase sempre me arrependo.

Þ Podem acreditar: já fui mais velho do que sou hoje.

Þ O cúmulo do ridículo, beirando o grotesco: um marmanjo já madurão, gordo e barrigudo, tocando cavaquinho.

Þ Quando na praia ela me comunica que acaba de casar pela quinta vez, brinco:
     - Como você gosta de homem!
     Sorrindo, num esplendor de dentes e brilho nos olhos, ela corrige:
     - De homem até que não gosto tanto assim. Do que gosto mesmo é de marido.

Þ Faço mais um aniversário, e J. me telefona:
     - Você já viveu demais. Começa a dar na vista.

Þ Quando eu era Secretário da Cultura, em Sergipe, sempre que a moça do palácio me telefonava lembrando o “despacho com o governador”, me dava uma vontade doida de perguntar:
     - Despacho? Em que encruzilhada?

Þ Do compadre:
    - Comigo não tem essa de matar a cobra e mostrar o pau. Comigo é matar a cobra e mostra a cobra.

Þ “Grande, muito grande é a Ilha Grande”, versejou o nosso D. Pedro II, num dos seus deploráveis impulsos poéticos.

Þ Do compadre:
     - É melhor uma pátria de chuteiras do que uma pátria de coturno.

Þ Lá vem a Excelência:
     - Pensei em deixar o cargo.
     Conversa fiada. Ministro só pensa em deixar o cargo quando sabe que já está sendo deixado.

Þ Quando, em fases alternadas, eu trabalhava com Samuel Wainer, e o procurava com uma sugestão, ele me escutava calado, os óculos na testa, para finalmente dizer:
     - É, eu sei. Já pensei nisso.
     Um sabichão, o Samuca.

Þ - Fale-me dela.
     - Do quê? De suas prendas e virtudes?
     - Não, do resto.

Þ - Quantos anos você me dá?
     - Nenhum. Você já os tem demais.

Þ O travesti na televisão:
     - Na vida só tenho medo de duas coisas: de navalhada no rosto e câncer de mama.

Þ Falar mal do diabo, eu? Jamais lhe darei essa alegria.

Þ - Você sabe por que baiano fala devagar quase parando, como que se espreguiça?
     - Não.
     - Para esticar o máximo possível a falta de assunto.

Þ - Por que você nunca fala bem de fulano?
     - Quem é ele?
     - Pronto já começou.

Þ No jornal: “ratos e escorpiões invadem Brasília”.
     E muitos reeleitos.

Þ - Fulano de tal está com um pé no Ministério. Só falta botar os outros três.

Þ Casou três vezes e teve umas cinco amantes. Mas, coitado, nunca teve uma namorada.

Þ Quando nasci, meu Anjo da Guarda deve ter dito:
     - Agora te vira!

Þ Declara na televisão a cintilante “socialite”:
     - Já fui a Paris mais de duzentas vezes.
     O que me dá vontade de perguntar:
     - E ao Louvre, quantas?

Þ Vulcão e mulher nunca estão definitivamente extintos.

Þ Do compadre:
     - Deus faz, a família desfaz.

Þ Meu amigo vai à Itália pela primeira vez. Me pergunta:
     - Quanto tempo você acha que vou gastar para conhecer Florença?
     Respondo.
     - A vida inteira.

Þ Num dos noticiários da televisão, o repórter, um olho no entrevistado, outro no relógio, indaga:
     - E que o senhor tem a dizer a respeito desse problema?
     O entrevistado pigarreia, vai responder:
     - Veja bem, a questão é que...
     - Muito obrigado pela sua presença. É com você, Priscila.

Þ Do compadre:
    - Para ajudar o homem, basta Deus. Já para desajudar não é preciso nem o diabo. O próprio homem se desajuda.

Þ Se um dia alguém tentar escrever a biografia daquele figurão, pode resumi-la nestas poucas palavras: nasceu por injusta e morreu por justa causa.

Þ -Você acredita em céu e inferno?
     - Em céu, não.

Þ Me diz o baiano:
     - Pimenta só não combina com leite.
     Já eu acho que pimenta só combina com baiano.

Þ Muitas vezes dizer nada é dizer demais.

Þ É nos velórios que se contam as piadas mais cabeludas. Só o defunto leva o velório a sério.

Þ - Me diga, o que lhe trouxe o Ano Novo?
     - As mesmas velharias de sempre.

Þ Manchetinha no caderno feminino do “Jornal do Brasil”: “Em busca do bumbum ideal”.
      Ideal para quê?

Þ Me dizia o velho sertanejo da margem do São Francisco, já chegando aos noventas anos:
     - A gente sente que está envelhecendo, quando começa a gostar mais de carne-de-sol do que de mulher.

Þ Ninguém joga a vida fora. A vida é que nos joga fora.

Þ Os médiocs brasileiros já não dizem de um paciente que ele é um alcoólatra, mas um alcoolista. Mas a cirrose continua a mesma.

Þ Melhor do que ser culto é ser cultuado.

Þ O que me conforta é saber que quando eu for para o céu lá não encontrarei nenhum desses furiosos e vorazes pastores evangélicos.

Þ Nunca li nenhum livro deles, mas não dever ser boa leitura um livro que é dedicado “aos meus queridos pais” “ou “à minha amada esposa”.


Joel Silveira e os literatos


   - E então, Rui Barbosa encarou a plateia internacional, lá em Haia, e indagou: “Em que idioma os senhores querem que eu discurse?”
Todo mundo sabe que o fato não aconteceu, ao menos como o descreve a gabolice baiana, mas se realmente tivesse havido aquela sessão da Conferência de Haia e à mesma eu tivesse presente, não tenham dívida. Logo tivesse escutado Rui Barbosa indagar dos demais delegados em que língua preferiam escutá-lo, eu teria gritado á do fundo da sala:
- Em chinês!
Só para ver o baiano perder o rebolado.


Vez por outra me lembro do conselho que um dia me deu Graciliano Ramos:
- Fuja do gerúndio como o diabo da cruz.
Para ele era fácil. Creio mesmo que o gerúndio é que fugia dele.


Impossível imaginar Machado de Assis fazendo amor com Dona Carolina.


No final de cada romance de Jorge Amado devia constar a seguinte advertência: “Este livro, continuação do anterior, continua no próximo”.


Historinha contada por José Cândido de Carvalho, com quem eu adorava conversar, particularmente quando a conversa era sem assunto, o que sempre acontecia:
“Ao assumir a Prefeitura de Cipó dos Índios, todo de preto e de óculos, Cupertino Varjão deu socos na mesa e falou:
- Cuidado comigo! Vou limpar a administração.
Limpou. Deu um desfalque de deixar a Prefeitura de Cio dos Índios desfalecida por vinte anos”.


Perguntaram ao poeta Murilo Mendes, católico praticante:
- Afinal, Deus existe ou não?
- Existe, mas não funciona.


De Albert Einstein: “Se for provado que a minha Teoria da Relatividade está certa, os alemães me chamarão de alemão, os suíços de cidadão suíço e os franceses de grande cientista. Caso contrário, os franceses me chamarão de suíço, os suíços de alemão e os alemães de judeu.


Outra de Guilherme Figueiredo:
Ouvi um jovem dizer ao pai: “Você tem obrigação de me sustentar. Não nasci porque quis, mas porque você me botou no mundo!”. O pai desmanchava-se em lágrimas de humilhação. Falei ao moço: “meu caro, você não nasceu porque quis. Você é um espermatozóide que ganhou uma corrida apostada com uns quatrocentos milhões de irmãos seus! Se já não está satisfeito com a maratona, suicide-se!”


Ensinava o Barão de Itararé:
- A mulher deve casar. O homem, não.


Nunca li nenhum livro deles, mas não dever ser boa leitura um livro que é dedicado “aos meus queridos pais” “ou “à minha amada esposa”.



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