quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A mania das perguntas


Por George Auriol*

Se o leitor é da minha opinião, seremos bons amigos, mas se, por azar, pertence a seita que vou vituperar nesta história, com certeza passa a classificar-me como o último dos miseráveis. Em todo caso eu fico a ganhar contando a história porque amigos que concordem conosco não há muitos, e porque será dito também que os últimos serão os primeiros.
Eis sobre o que vou consultá-los: “francamente não acham, como eu, insuportável a terrível que tem algumas pessoas de fazer perguntas sobre as coisas mais ociosas?”
Suponhamos que a fatalidade vos obriga dizer que o vosso tio fez uma asneira. “Perdão – interrompem eles – o senhor vosso tio não é um cavalheiro trigueiro que usa óculos?"
“Não; é um ruivo que usa boa vista.”
“De cabelos crescidos?”
“Pelo contrário, completamente calvo!”
E se, para encurtar razoes, explicais que o vosso tio comprou um cão, é preciso descrever o animal, dizer-lhes quanto custou o bicho, e se foi comprado a fulano ou sicrano. E ainda por cima sois imperiosamente solicitados para avisar o vosso tio (do lado materno, não é?) que na rua do Conservatório, ao fundo de pátio há uma pequena oficina, onde, por preços baratíssimos, fabricam coleiras para cães, como não se usam em todo o mundo.
 Estas perguntas, além de poderem provocar a apoplexia ou a dança de Saint-Guy, têm outros inconvenientes. Excitam o burguês mais assomadiço a proferir palavras mal soantes e expõem o inquiridor a registrar revelações chocantes para os seus princípios honestos.
O caso da Letapir parece-me edificante para provar estes inconvenientes.
Madame Letapir, que eu conheço intimamente, é inspetora das escolas, e em vez de interrogar as crianças sobre a idade de Matusalém, entretém-se a tirar delas toda a série de informações que pode, acerca das suas famílias.
Ainda há pouco tempo, fora ela a uma pequena terra do litoral, com porto de mar, em visita a escola maternal, quando chegou, já bastante depois da aula começar, o pequeno Martinho que trazia um bilhete da mãe a desculpá-lo de ter chegado tarde, porque fora ele a causadora da demora.
– E por que é que a tua mãezinha te demorou até tão tarde?
– Porque está doente...
– Ah! Coitadinha... Será tuberculose!
– Não, minha senhora. Está deitado porque teve um menino... E eu tive que fazer o serviço de casa.
– Ah! que graça. Está contente por ter um mano?
– Estou, sim senhora.
– É menino ou menina?
– Isso é que eu não sei – disse o garoto rindo – ainda não lhe vi senão a cabeça.
A esta resposta, a professora fez-se corada como um tomate, e a Madame Letapir também corou um pouco. Quis reparar a sua gafe, mas, infelizmente, pelo método homeopático; quero dizer recorrendo a um processo favorito:
– E o teu pai? – continuou ela disfarçadamente – o que faz ele?
– É marinheiro.
– Ah! E está contente também por ter um novo bebê, não é verdade?
– Isso é que eu não sei, minha senhora – respondeu Martinho coçando a cabeça – há dois anos que anda em viagem...
A professora ia chegando ao rubro, e Madame Letapir, verificou, de repente, que eram já 10 horas e era melhor acabar a aula e a inspeção.



*George Auriol, nasceu Jean-Georges Huyot (26 de abril de 1863, Beauvais (Oise) – fevereiro de 1938, Paris), foi um escritor, poeta francês, compositor e designer gráfico


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