quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

De onde vem a palavra “gaúcho”



Nem brasileiros, argentinos, uruguaios e chilenos se entendem. Tudo indica que não existe no Rio Grande do Sul uma etimologia mais controvertida do que a relacionada ao vocábulo “gaúcho”. Até um dos expoentes da nossa cultura do século passado, Augusto Meyer (1902-1970), realizou minuciosas pesquisas, apontou inúmeras versões, mas deu o assunto por encerrado sem adotar nenhuma.

O mineiro Guilhermino César (1908-1993), um rio-grandense por adoção, viu o caso como um “quebra-cabeça”. Na década de 1920, o mestre João Ribeiro já chegara a uma conclusão semelhante quando o considerou como um “problema insolúvel”. Mais recentemente, quando perguntaram a Barbosa Lessa sobre a origem da palavra, ele respondeu: “Ninguém sabe”. Citou o professor Fernando Assunção, que reporta ao francês “gauche” (esquerdo), mas sem muita convicção.

Dois estrangeiros, nossos vizinhos e interessados diretamente na matéria, foram um pouco além. O argentino Costa Alvarez – conforme pesquisas de Carlos Reverbel – chegou a encontrar 25 etimologias da palavra, e o uruguaio Buenaventura Caviglia Hijo ampliou esse número para 36. Segundo ele, a origem pode ter vindo de nada menos que 17 idiomas, do castelhano ao latim, passando por tupi-guarani e árabe. No final, Hijo conclui que gaúcho vem de “garrucho”, portador de garrocha (a nossa garrucha).

Temos ainda mais duas opiniões de estrangeiros. O chileno Rodolfo Lenz indica a palavra araucana “cachu” ou “cauchu” como possível origem. E o argentino Paul Groussac optou por “guacho”. Em resumo, até agora, parece que ninguém se entendeu. Sobre um aspecto do caso, porém, não pairam dúvidas. Durante mais de um século, a palavra “gaúcho” teve uma conotação nada simpática: marginal, ladrão, vagabundo, contrabandista, coureador, aquele que saqueava fazendas só para roubar o couro das reses, que chegou a valer quatro vezes o preço do gado em pé. Hoje, a palavra é tratada com orgulho e respeito por todos os rio-grandenses e está presente, em tom maior, no nosso cancioneiro: “Eu sou gaúcho, eu sou do Sul…”.


(Do Almanaque Gaúcho de Zero Hora)


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