sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O veneno das cobras criadas



Cobras Criadas - A história de David Nasser e O Cruzeiro,
de Luiz Maklouf de Carvalho, 600 páginas, Editora Senac, São Paulo.


O jornalista Luiz Maklouf de Carvalho é antes de tudo um repórter fuçador, com muitos quilômetros rodados em reportagens de longo curso e dono de saudável obsessão pelo rigor na apuração – características suficientemente demonstradas em suas passagens pelos jornais O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil.

Dois anos atrás, encasquetou com um personagem tão famoso quanto polêmico – o repórter David Nasser, estrela maior da revista O Cruzeiro. Mergulhou na vida de Nasser e da revista para produzir Cobras Criadas - A história de David Nasser e O Cruzeiro, agora publicado pela Editora Senac, de São Paulo. Mergulhou nos intestinos da revista, desvendou-os e descobriu, com fartura de dados, que o mito David Nasser não passava disso mesmo – um mito. Como repórter, era um picareta; como cidadão, um conservador baboso que apoiou o Esquadrão da Morte, no Rio.

Em entrevista ao Observatório da Imprensa, reproduzida a seguir, Maklouf comenta os principais eixos de seu novo livro-reportagem.

→ Como nasceu o interesse por David Nasser? Você era leitor de matérias dele no Cruzeiro?

→ Luiz Maklouf Carvalho – Lia, eventualmente, já na fase de articulista, e não mais de repórter. Achei que era um bom personagem lendo o Chatô, do Fernando Morais, onde ele aparece aqui e ali, assim como O Cruzeiro. Bati o martelo depois de ler Mergulho na aventura, com fotos do Jean Manzon, onde estão algumas reportagens da fase áurea dos dois, em O Cruzeiro. Fiquei impressionado com o jornalismo inventivo que tinha ali – e achei que o Nasser era um bom gancho para um mergulho na história da revista.

→ No início do trabalho de investigação você já considerava a hipótese de encontrar um exemplo tão pouco instrutivo da prática da reportagem aliado a um caráter tão desedificante?

→ L. M. C. – No aspecto reportagem, sim. A leitura dos livros dele – quase todos seleta do material de O Cruzeiro – mostra um absoluto desprezo pelos fatos, característica que não era só dele, e sim do jornalismo que predominava na época. No caso do caráter, fiz esforço para não incluir juízos de valor, deixando a conclusão para os leitores. Nasser é o personagem principal, mas procurei mostrar o que era O Cruzeiro, como um todo, perfilando boa parte das demais estrelas da revista.

→ Como explicar a enorme credibilidade de David Nasser? Ou, em vez de credibilidade, a palavra mais adequada é tão-somente fama?

→ L. M. C. – O livro revela um segredo que Nasser guardou a vida inteira: sua própria revista, quando ele estava no auge, colocou essa credibilidade em xeque e o afastou da reportagem. A fama cresceu, ajudada pela máquina dos Diários Associados, quando ele e o Manzon armaram aquela reportagem sobre o Barreto Pinto de cuecas. Vista de perto, não sobra nada.

→ Em que circunstâncias se deram a aproximação de Nasser com o Esquadrão da Morte, no Rio? No que isso resultou?

→ L. M. C. – David Nasser era presidente de honra da Scuderie Le Cocq, o nome fantasia do Esquadrão da Morte. Tinha orgulho disso, e defendia publicamente os integrantes do Esquadrão. Um dos que entrevistei, o hoje deputado estadual Sivuca, do Rio de Janeiro, conta detalhes dessa relação. No pré-golpe de 64, o Esquadrão inteiro estava na casa do Nasser, todo mundo armado, como mostram as fotos.

→ Entre jornalistas não é raro ouvir menções saudosas ao tempo das "grandes reportagens", durante o qual David Nasser foi estrela em permanente ascensão. No que o personagem central do livro, malgrado suas agora documentadas picaretagens, contribuiu na formação da geração de repórteres investigativos que a ele se seguiu?

→ L. M. C. – Em nada, creio. A não ser no que diz respeito à contestação dos métodos que eles usavam. Vistas de perto, as chamadas grandes reportagens do Nasser, com ou sem o Manzon, estão eivadas de procedimentos que o bom jornalismo condena.

→ O Cruzeiro vendia 700 mil exemplares num Brasil de 50 milhões de habitantes, o que significa, grosso modo, uma revista com circulação pelo menos três vezes maior que a atual Veja – num país, à época, de poucas revistas, forte presença do rádio e TV incipiente. Quais as informações apuradas sobre O Cruzeiro que mais lhe chamaram a atenção?

→ L. M. C. – Essa tiragem é mais um mito na história de O Cruzeiro. Os tais 720 mil exemplares – anunciados no expediente, pois ainda não havia o IVC – só existiram em uma única edição, a do suicídio do Getúlio. De lá até o fim, entrou na descendente. A documentação que encontrei nos arquivos do Nasser esclarece muitas coisas sobre a luta interna que levou a revista ao fechamento – entre elas o rompimento entre o Nasser e o João Calmon, uma briga de foice no escuro.

→ Do ponto de vista da responsabilidade social e da qualidade editorial, quais as diferenças e as semelhanças mais notáveis entre mídia brasileira atual e a do período investigado por você?

→ L. M. C. – Acho que melhorou, nos dois aspectos, à medida que há mais cobrança da sociedade.


David Nasser

(Jaú, 1° de janeiro de 1917 – Rio de Janeiro, 10 de dezembro de1980)
foi um compositor e jornalista brasileiro.


David Nasser

Por Marcos Júnior

O jornalista e compositor David Nasser morreu em 10 de dezembro de 1980, aos 62 anos, por complicações de diabetes e câncer no pâncreas.

Natural da cidade paulista de Jaú, onde nasceu em 1º de janeiro de 1917, viveu em Caxambu (MG), onde conheceu o cantor Francisco Alves, com quem se reencontrou na juventude, já morando no Rio de Janeiro, trabalhando nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

Desenvolveu sua carreira jornalística, escrevendo inúmeras histórias, entre elas "Giselle - A Espiã Nua que Abalou Paris" e, paralelamente sua veia musical também não foi deixada de lado, musicando versos para letras de Francisco Alves e sendo autor da marchinha carnavalesca "Nega do Cabelo Duro".

Após passar pelo "O Globo", Nasser destacou-se na revista "O Cruzeiro", principal publicação brasileira nas décadas de 40 e 50, onde fez inúmeras reportagens em parceria com o fotógrafo Jean Manzon.

Ligado às correntes mais conservadoras, severo crítico de Leonel Brizola, apoiou a ditadura militar no Brasil, iniciada com o Golpe de 64 e passou a trabalhar na revista "Manchete" a partir de fevereiro de 1976, iniciando um período de intensos ataques a seu antigo chefe, João Calmon, utilizando-se de influência às esferas militares para que os processos contra o mesmo fossem acelerados.

Autor de diversos livros, entre eles "A Revolução dos Covardes", "Só meu sangue é alemão" e "A Revolução que se perdeu a si mesma", Nasser foi aquilo que podemos chamar do jornalista do "politicamente incorreto". Exemplo maior disso foi uma reportagem que fez em 1945 ao lado de Jean Manzon para "O Cruzeiro", quando assinou uma matéria com a intenção de diferenciar chineses de japoneses. Para Nasser, o japonês poderia ser distinguido pelo seu aspecto repulsivo, míope e insignificante. 



O velho Leonel Brizola disse certa vez que:

David Nasser não se vende, ele se aluga.

A briga entre Leonel Brizola e David Nasser


Em 26 de dezembro de 1963 o deputado Leonel Brizola avistou no balcão da Varig, aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro, o  jornalista David Nasser, Diretor de O Cruzeiro. Nasser apenas ouviu o tom exaltado do parlamentar: “Prepara-te para apanhar”. Foi quando recebeu, primeiro um soco no ouvido, depois um murro no queixo que o derrubou. No chão, zonzo, ainda conseguiu ouvir as ameaças do político gaúcho: “Da próxima vez terás que engolir o artigo inteiro.” Brizola referia-se a um editorial de duas páginas, publicado na edição de 20 de julho/1963 da revista com o título “Resposta a um pulha”, um dos mais contundentes textos já publicados na mídia brasileira no século XX contra um homem público.


No referido editorial Nasser chama Brizola de “um exemplo trágico de inexorável verdade hereditária” e então esclarece o seu raciocínio: “Na sua ascendência o laboratorista moral poderia encontrar santos, mafiosos, papas e abigeatos. Não creio, entretanto, que nessa pesquisa encontrasse um covarde de sua espécie”. Mais adiante define o deputado como “essa coisa que anda, que fala, que ri, que mente, que insulta… de um mussolonismo barato, sem grandeza, porque é a de um “Duce” de esgoto… à espera de uma creolina democrática ou gramatical”.

Coice do Pangaré

Sem outra intenção, senão a de ofender, continua: “Acredita… esse pangaré mordido de cascavel verborrágica, esse rebotalho humano que exibe a sua cunhadeza… imagina o senhor Leonel Brizola, o capadócio cunhoso, que um homem de bem não sabe, não pode lhe responder na sua linguagem sem asseio.” Mais adiante o editorialista apela: “Não tenho medo de você cafajeste inibido, boçal que aprendeu a ler com o minuano na ampla universidade dos ladrões de cavalos. Venha com os seus capangas de fraldas enceradas, ladrões, como você, mamadores como você do infeliz tesouro do Rio Grande do Sul…” Então finaliza: “triste é o jornalista que tem o dever, neste prefácio de lama, de enfiar a pena no seu sangue pútrido, na sua carreira putrefata e na sua figura pífia, para cumprir o sagrado papel de revelar à geração atual e à geração futura, que nós não tivemos culpa do senhor existir.”

Brizola, diante da virulência do editorial do O Cruzeiro, processou Nasser por injúria, calunia e difamação e meses depois no encontro narrado no início deste artigo, perante testemunhas, nocauteou o jornalista. O episódio foi manchete do O Jornal e Última Hora e matéria de primeira página na Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e virou literatura de cordel nos versos de Cuíca de Santo Amaro. Mesmo assim Nasser teve a cara de pau de contar a sua versão distorcida dos fatos em artigo publicado em 10/01/64: “Bato o teclado desta máquina com a mão que esbofeteou um canalha pela segunda vez…”. Pelo visto o soco lhe alterou, também, o juízo.

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