sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um teste para seu DNA golpista

Elio Gaspari


Golpe, a praga que envenenou a República, voltou ao cotidiano. Há genes golpistas nas almas mais puras. Milton Campos (1900-1972), um liberal exemplar, serviu como ministro da Justiça à ditadura envergonhada do marechal Castelo Branco. O golpismo afeta cabeças à direita ou à esquerda. Como ninguém gosta de ser chamado de golpista, derrubado o governo que se detesta, inventa-se outra palavra e saúda-se a nova ordem.

Sempre é bom lembrar que o governo mais estável da História nacional, o de D. Pedro II, durou 49 anos e nasceu com o golpe parlamentar que proclamou sua maioridade aos 14 anos.

Aqui vai um teste com dez episódios para que cada um possa examinar seu DNA. Indo em direção ao passado, marque a situação em que ocorreu um golpe. Ele pode ter sido parlamentar, vindo do Congresso, militar, trazido pelos tanques, ou misto.

1969: O presidente da República, marechal Costa e Silva teve uma isquemia cerebral e estava incapacitado. Os três ministros militares chamaram o vice, Pedro Aleixo, disseram que não assumiria e formaram uma Junta Militar. Seriam chamados de “os três patetas”. Foi golpe?

1968: O marechal Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5, fechou o Congresso e suspendeu liberdades públicas. Golpe?

1964: Depois de uma revolta militar, o presidente do Congresso declarou vaga a Presidência da República e extinguiu o mandato de João Goulart. Os vitoriosos chamaram o movimento de “Revolução”. Durante a ditadura, falar em golpe podia trazer problemas. Hoje, falar em “Revolução” é politicamente incorreto.

1961: Depois da renúncia de Jânio Quadros, os ministros militares recusaram-se a empossar o vice-presidente João Goulart. Com o país à beira de uma guerra civil, em poucos dias o Congresso votou uma emenda parlamentarista, mutilando os poderes de Jango, e ele assumiu. Até agora o teste havia sido fácil. Foi golpe?

1955: O presidente Café Filho teve um enfarte, e assumiu o deputado Carlos Luz. Ele demitiu o ministro da Guerra, Henrique Lott, e em poucas horas foi deposto pela tropa. O Congresso votou o impedimento de Luz e empossou o presidente do Senado, Nereu Ramos. Café tentou reassumir, a tropa voltou a se mover, e o Congresso votou seu impeachment. Foi golpe?

1945: A tropa depôs o ditador Getúlio Vargas, que convocara eleições para eleger seu sucessor. Elas deveriam ser realizadas no dia 2 de dezembro, mas Getúlio foi deposto em outubro, e tomou posse o presidente do Supremo Tribunal Federal. O general Eurico Dutra foi eleito, e em 1946 instalou-se uma Assembleia Constituinte. Foi golpe?

1937: Com o apoio da tropa, Getúlio Vargas fechou o Congresso, suspendeu a eleição presidencial que marcara e criou o Estado Novo. Fácil.

1930: Candidato derrotado na eleição presidencial, Getúlio Vargas liderou uma revolta, e a guarnição do Rio de Janeiro depôs o presidente Washington Luís. Foi golpe ou foi a “Revolução de 1930”?

1891: O marechal Deodoro da Fonseca renunciou ao cargo, e assumiu o vice, Floriano Peixoto. A Constituição mandava que fossem realizadas novas eleições. Floriano botou pra quebrar e governou até 1894. Chamaram-no “Marechal de Ferro”. Deu golpe?

1889: No 49º ano de seu reinado, D. Pedro II foi deposto pela guarnição do Rio de Janeiro e banido do país com toda sua família. Proclamou-se a República. Golpe?

Quem marcou que houve golpe em todos os dez casos tem algo de Joaquim Nabuco ou Sobral Pinto no seu DNA. Fernando Henrique Cardoso marcou nove casos, excluindo o episódio da emenda parlamentarista de 1961. Quem não viu golpe em 1889, 1930 e 1945 tem uma inclinação para apoiar “golpes para o bem”. Quem aceitou as intervenções de 1937, 1964, 1968 e 1969 é um golpista de plantão.

Em todos os dez episódios listados, houve um ingrediente que felizmente saiu do baralho em 1985 com a eleição de Tancredo Neves: a anarquia militar. Salvo no golpe de 1969, nunca houve intervenção militar sem que houvesse civis pedindo-a. Em quase todos os casos, haviam perdido eleições ou temiam perdê-las.

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2016: Os golpistas estão, novamente, soltos por aí...

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