sábado, 13 de fevereiro de 2016

A última visita

Crônica de Euclides da Cunha
(1866­-1909)




Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o triste desenlace da sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras ­ ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de famílias ­– comentavam-­lhe os lances encantadores da vida e reliam-­lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a palidez completa no recinto onde a saudade glorificava uma existência, além da morte.

No salão de visitas viam­-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.

E compreendia­-se desde logo a antilogia de corações tão ao parecer tranquilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incompatível e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo­-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-­se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbravam em sua primeira e última dissimualação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-­se em fortaleza tranquila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Octavio, comentários divergentes. Resumia­ os um amargo desapontamento.

De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando­-as através de análises sutilíssimas, para no-­las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas –, que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-­se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de uma existência complexa – quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem 40 anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao anunciar­-se esse juízo desalentado, ouviram-­se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-­na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 ou 18 anos, no máximo. Perguntaram-­lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê­-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus Livros, que o encantavam. Por isso, ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo, tivera o pensamento de visitá­-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograva vencê­-la. Que o desculpassem, portanto. Se lhe não era dado ver o enfermo, dessem-­lhe ao menos notícias certas de seu estado.

E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente.

Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-­se. Tomou a mão do mestre, beijou­-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-­o depois por algum tempo ao peito. Levantou-­se e, sem dizer palavra, saiu.

À porta, José Veríssimo perguntou-­lhe o nome. Disse-­lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.

Ele saiu – e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizam­-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade...


30 de setembro de 1908
Jornal do Commercio



 Enterro de Machado de Assis - 1908

Visita ao Bruxo

Admirador de Machado de Assis desde adolescente, o crítico marxista Astrojildo Pereira deixou alguns dos estudos mais argutos, originais e reveladores sobre a obra do escritor.

Hélio de Lena Júnior


Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro de 1908, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, publicou uma crônica de Euclides da Cunha intitulada “A última visita”, sobre a agonia e morte de um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). O texto de Euclides, também ele um de nossos grandes escritores, não seria tão instigante se não mencionasse a visita misteriosa que o autor de Dom Casmurro recebeu nos seus momentos derradeiros.

Tratava-se de um rapaz de 18 anos que, no meio da noite, foi à casa de Machado, no bairro carioca do Cosme Velho, e pediu licença para ver o velho mestre. A residência estava repleta de figuras importantes do meio literário da época, silenciosas e consternadas, enquanto Machado, no quarto, agonizava. Mesmo assim, o jovem e desconhecido visitante não se inibiu diante de todos aqueles medalhões e conseguiu ser conduzido até o leito do escritor. “Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.”

Na sua crônica, Euclides não diz o nome do “anônimo juvenil”, porque, segundo ele, isso importava pouco. “Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento, o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis –, aquele menino foi o maior homem de sua Terra”. A identidade do admirador precoce do “Bruxo do Cosme Velho” permaneceria envolta em mistério por muitos anos, até ser revelada pela grande biógrafa de Machado, Lúcia Miguel Pereira. Quanto ao prognóstico de Euclides, de que o jovem visitante noturno “nunca mais subirá tanto na vida”, este se revelou equivocado. Astrojildo Pereira Duarte da Silva, o rapaz que reverenciou Machado no seu leito de morte, se tornaria na maturidade um importante intelectual, além de respeitado propagador do pensamento marxista no Brasil.

Astrojildo Pereira nasceu em Rio Bonito, no interior fluminense, em 1890. Muito jovem, tornou-se ativista político, frequentando organizações operárias de orientação anarquista. Em 1918, redigiu, publicou e distribuiu, praticamente sozinho, o jornal Crônica Subversiva. Nesse mesmo ano, participou ativamente dos preparativos de uma frustrada insurreição anarquista e, por conta disso, foi preso pela primeira vez. Libertado em 1919, distanciou-se do anarquismo e, influenciado pelas idéias bolcheviques, passou a defender aqui os rumos tomados pela Revolução Russa.

Do Blog Revista de História.com.br



Astrojildo Pereira

*Astrojildo Pereira Duarte Silva (Rio Bonito, 8 de novembro de 1890Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1965) foi um ex-anarquista, escritor, jornalista, crítico literário e político brasileiro, fundador do Partido Comunista Brasileiro, em 1922.

Em outubro de 1964, foi preso em decorrência do golpe militar e permaneceu na prisão por três meses, já em estado de saúde precário. Morreu no Rio de Janeiro, em 1965.



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