sábado, 6 de fevereiro de 2016

Delírio gastronômico

Por Marcos Alemão*




O cliente pede uma sugestão e recebe.
– Eu sugiro que o senhor caia fora.
– Como é?
– A melhor sugestão do dia é cair fora, não pedir nada. O chef está em um dos piores momentos da vida. Descobriu que a mulher o trai toda quarta-feira. Ganhou apelido de corno feijoada.
– Mas aquele filé grelhado, o alto, com salada. Esse nem precisa da inspiração do chef.
– Concordo, mas eu não sei se o senhor ficou sabendo que o dono, o doutor Plínio, gastou uma fortuna com o filho mais velho. Cirurgia de mudança de sexo.
– E o que o meu filé tem a ver com isso?
– Vai na cozinha dar um olhada nas carnes que ele tem comprado por conta da verba. Nem pro meu cachorro eu daria.
– Não tem F de confiança?
– Tem F de fedorenta.
– Só por curiosidade; deu certo a operação?
– A vida é complicada, doutor. O rapaz virou uma moça linda e é justamente essa moça que frequentava a cama do feijoada.
– Que antro!
– Sugeri pro chefe ontem. Mudar o nome da casa pra Antro da Gastrô.
– Mas nem uma saladinha?
– Tão lavando com água de reúso. Encaras?
– Macarrão também na água de reúso?
– Antro Sustentável da Gastrô. Acho que vou sugerir esse adendo ao nome.
– Tô achando melhor ir embora.
– Sabendo de algum restaurante que esteja precisando de um garção sincero e discreto...
– Outro restaurante.
– O cardápio de vocês é enorme. Tô cheio de dúvidas.
– Quer levar o cardápio pra casa e voltar amanhã? Eu tô cheio de freguês pra atender.
– Pode chamar o maître?
– Eu sou o maître.
– O pior maître do mundo. Um lixo de maître. Tem dono essa porcaria de lugar?
– Uma porcaria de dono, pra dizer bem a verdade.
– Deve ser mesmo, pra contratar um incompetente da sua categoria.
– A minha contratação eu diria que foi a melhor coisa que ele fez. O senhor precisa conhecer o chef!
– Ruim?
– Ruim?!? Péssimo! Todos esses pratos do cardápio ele copiou de uns livros de receitas.
– De repente, se forem bons livros.
– A mãe dele escreveu. A mãe dele passou a vida internada em um manicômio judiciário. Ela inventava receitas, as pessoas provavam, odiavam e ela, com raiva, matou uma meia dúzia.
– Mas e o dono não fala nada?
– O dono, coitado, tinha um restaurante aqui perto. O filho mudou de sexo e papou a mulher do chef. O chef deu cabo dos dois, o doutor Plinio – Plinio é o nome dele – ficou com a cabeça perturbada, acabou com a vida do corno feijoada – era o apelido do chef – foi internado, acabou conhecendo a mãe do nosso chef, se apaixonou por ela e pelos livros de receitas que escrevia. Quando soltaram ele, abriu isso aqui.
– E me diga que tal esse panetone de atum com crosta de merengue da Canastra.
– Excelente escolha!


*Texto publicada na CartaCapital em 04.02.2016

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