sábado, 13 de fevereiro de 2016

O beijo mais longo da história do cinema brasileiro


Cyl Farney & Dóris Monteiro


Cyl  Farney
(Cilênio Dutra e Silva – 1925 – 2003)



Dóris Monteiro
(Adelina Dóris Monteiro – 1934)

Só restava uma questão: por que Dóris nunca fora beijada nos filmes em que aparecera? Seria porque Chateaubriand não queria? A pergunta lhe foi feita diretamente, em 1957, pelo repórter Luiz Fernandes em sua revista Número. Dóris respondeu com tranquilidade: “Não. Era porque aqueles roteiros não previam beijos”. E informou que, no filme que estava prestes a começar e em que faria um pequeno papel – De vento em popa, na Atlântida, com direção de Carlos Manga –, haveria um beijo entre ela e o galã Cyl Farney.

E houve, mesmo. Era a melhor sequência de De vento em popa e uma das melhores do cinema brasileiro. Mostrava Cyl ao piano de uma boate vazia, com os copos no balcão, as luzes pela metade e a fotografia em glorioso preto e branco do turco Özen Sermet, em seu primeiro trabalho no Brasil. Cyl toca a melodia de “Dó-ré-mi”. Surge Dóris, que, até então, interpretava uma garota de coque e óculos, para a qual Cyl nunca tinha olhado. Mas agora, de vestido de alça, sem os óculos e penteada por Renault, ela se tornara uma fabulosa mulher. Começa a cantar: “Eu sou feliz/Tendo você sempre a meu lado...”. Cyl, abestado, não sabe o que pensar, mas continua tocando. Quando ela acaba, ele se levanta, diz que só agora a está enxergando e os dois se abraçam. Beijos em close – três segundos. Corte para beijo à meia distância – dois segundos. Total de beijos na sequência – cinco segundos.

Mas, na vida real, foi um beijo que levou quase uma hora para ser filmado. Carlos Manga nunca parecia satisfeito. Cyl e Dóris, corpos colados, se beijaram pela primeira vez. Um minuto depois, Manga mandou cortar: “Ótimo, mas vamos fazer de novo”. Novo e longo beijo. Outro corte: “Foi a luz que caiu”. Mais um beijo e mais um corte: “Tivemos probleminhas na câmera”. E assim por diante, num total de dez beijos ou mais, nenhum com menos de um minuto. Na altura do terceiro ou quarto beijo, Dóris sentiu uma alteração em Cyl – ele estava tendo uma ereção!

Finalmente, a cena foi dada como boa. “Deve ter sido o beijo mais longo de todos os tempos”, diria Dóris, muitos anos depois. “Não sei por que foi tão complicado de filmar.”

Mas alguns sabiam. Cyl, como todo mundo, era louco por Dóris. Sem chance com ela, pediu a Manga que fizesse daquele beijo o melhor da história do cinema – nem que tivessem de passar o dia inteiro se beijando. Manga entendeu.

(Do livro “A noite do meu bem”, 
de Ruy Castro, páginas 303 e 304)


Lançamento: 17 de março de 1958 (1h45min)
Dirigido por Carlos Manga
Com: Oscarito, Cyll Farney, Sonia Mamede, Margot Louro, Dóris Monteiro e Zezé Macedo
Gênero: Comédia Musical
Nacionalidade: Brasil

Sinopse e detalhes

Chico (Oscarito) e Mara (Sonia Mamede) formam uma dupla sertaneja e desejam fazer um show no transatlântico em que viajam. Sergio (Cyll Farney), recém-formado engenheiro nuclear, organiza uma apresentação no navio e convence Chico e Mara a ajudá-lo numa mentira que, se tudo der certo, possibilitará a realização de seu grande sonho: abrir uma boate.

Primeiro filme fotografado pelo turco Ozen Sermet na Atlântida. Logo na estreia ele já ganhou o prêmio de melhor fotografia no Festival do Distrito Federal (na época o Rio de Janeiro) de 1957.

Prêmios

Crítica do Rio de Janeiro, 1957
Melhor filme brasileiro do ano

V Festival de Cinema do Distrito Federal, 1957
Melhor Produção
Melhor Fotografia

P.S. Esse filme pode ser baixado completo do YouTube


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